Quando o hype do momento é a síndrome de burnout (e como evitá-la)

Marcela De Mingo
·13 minuto de leitura
E a síndrome de burnout que tem assolado a população? (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brazil)
E a síndrome de burnout que tem assolado a população? (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brazil)

Neste texto, você encontra:

  • Como dois profissionais perceberam que estavam estafados;

  • O que é e quais os sintomas da síndrome de burnout;

  • Como evitar que os seus sintomas avancem;

  • E o que fazer para evitar a estafa como um todo.

O processo de contratação parece simples e objetivo. A ideia é você entrar para o time da agência para cuidar de uma parte específica do processo. Tudo lindo até aí. A questão é que, o que parecia ser uma única função, acaba se transformando em dez. As oito horas de trabalho diárias viram 16. Some ao bolo questões de cunho de pessoal ou, mais recentemente, uma pandemia de coronavírus que dura mais de um ano, e, em dado momento, você percebe que simplesmente não aguenta mais.

Para César Paladini, que trabalha com marketing de conteúdo, foi assim que aconteceu. Há alguns anos, em 2017, decidiu fechar a própria empresa para cuidar do pai, diagnosticado com câncer. Passado um tempo e, para tranquilizar o pai acamado, César decidiu voltar para o mercado de trabalho e aceitou uma vaga em uma agência de comunicação, o que resultou no parágrafo que você leu acima. O que era para ser uma única função sob sua responsabilidade, se revelou como dez funções diferentes. Até então, o profissional não sabia sofrer de síndrome burnout, mas começou a suspeitar que algo ia muito errado quando, dois meses após o falecimento do pai, desenvolveu um pneumotórax espontâneo.

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"Acordei com uma dor enorme no peito, falta de ar e palpitação", conta ao Yahoo Vida e Estilo. "Descartei o infarto, porque não eram os sintomas. Achei que fosse ansiedade e deixei quieto por 4 dias. Um dia antes de uma viagem para o Rio de Janeiro, resolvi ir ao pronto atendimento. Não pude sair nem da triagem. Meu pulmão estava quase em colapso".

Foi necessário seis dias de internação para que todo o ar dentro da "bolha" que se formou no seu pulmão fosse drenado. A questão foi justamente que, numa crise emocional, a bolha estourou enquanto ele dormia, desencadeando todos os sintomas e questões que o levaram ao hospital no primeiro momento.

Para César, a relação do que aconteceu com o trabalho não ficou clara de imediato. Ele acreditava que tudo tinha relação com todos os acontecimentos recentes, como o falecimento do pai e a preocupação com a mãe, que sofreu muito com a perda do marido, com quem dividiu 50 anos em casamento. "Fiquei com medo de perdê-la, como nessas histórias que a gente vê onde uma parte do casal não vive sem a outra. Mas, durante a minha internação, não tive retorno ou preocupação alguma por parte da agência. Sequer tinham dado entrada no meu plano de saúde", conta ele.

A síndrome de burnout (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brasil)
A síndrome de burnout (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brasil)

César conseguiu um leito depois de três dias e, nesse processo, percebeu que estava indo contra tudo aquilo que tinha planejado para si mesmo ou no que acreditava. "Eu era apenas um número, uma máquina de gerar ROI. Foi quando percebi que não havia aceito o emprego por mim, mas para realizar algo que não era meu", diz.

Depois dessa fase, César ficou mais um mês na agência em que trabalhava e teve certeza que o trabalho não era o ideal e que, provavelmente, continuaria tendo sérios efeitos na sua saúde física e mental. "[A agência] Não deu nenhum apoio psicológico ou conforto emocional. Cheguei a ouvir que eu tinha de me acostumar, porque iria acontecer mais vezes", explica ele. Chegou a ter crises de ansiedade e de insônia, e acordava no meio da noite suando frio e com uma grande sensação de mal-estar. "Fiz terapia por algum tempo, até entender a real causa das coisas. Pedi a conta da agência e fui trabalhar, na época, com o que mais amo, geração de conteúdo focado em relacionamento."

Thiago Brant é analista de sistemas e relata que passou por um burnout duas vezes. Na mais recente, tinha uma rotina bastante cheia e com um trabalho bastante exigente. A sensação de estafa e esgotamento já tinha aparecido antes, no entanto, dessa vez, percebeu que a situação foi mais complexa do que das outras. O dia a dia cheio, as noites acordado trabalhando e toda a pressão da profissão fizeram com que ele ficasse "fora de si" e precisasse, inclusive, pedir licença do trabalho para cuidar do seu emocional.

"Depois de muito tempo, eu percebi essa relação, uma agenda muito cheia, a dificuldade de dormir e o trabalho lotado. E, no caso, para mim, é muito quando junta tudo isso e a questão financeira, entrar no cheque especial, achar que não vou conseguir pagar alguma coisa, todos esses fatores causam transtorno", explica. "No meu caso foi tão extremo, que eu saí de órbita. Eu levei quase dois anos para conseguir me recuperar. Ao longo de um ano eu saí realmente de mim, fiquei mal, tentei trabalhar, mas não conseguia. Saí de licença e fiz um milhão de tratamentos, fui me recuperando. Mas foi uma jornada muito longa de fazer tudo o que tinha ao meu alcance".

Shot of a young businessman looking bored while working at his desk during late night at work
Desinteresse pelo trabalho e falta de vontade e motivação para fazer mesmo as menores tarefas profissionais são um sinal de burnout (Foto: Getty Creative)

O que é e quais os sintomas da síndrome de burnout?

Os dois casos descritos acima podem ter acontecido bem antes da pandemia de coronavírus, no entanto, é inegável que o assunto "síndrome de burnout" nunca esteve tão em alta. Com os limites entre a vida pessoal e profissional esquecidos, o excesso de trabalho para aqueles que tiveram o privilégio de entrar em regime de homeoffice, a rotina interminável dos que são de serviços essenciais e linha de frente na luta contra o COVID-19, o cansaço extremo e a estafa mental vieram com tudo.

"Síndrome de burnout é um diagnóstico relacionado ao estado de exaustão prolongada e diminuição do interesse em trabalhar, considerada um grande problema no mundo profissional da atualidade", explica a Cinthia Alves Prais, psicóloga especialista em Neurociência, Promoção e Prevenção da Saúde e Qualidade de Vida. "É considerada um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes. Isso leva à incapacidade laboral e desinteresse pela vida de modo geral."

Apesar de soar recente, o termo está longe de ser novo. Cinthia explica que ele surgiu em meados de 1981, quando a psicóloga americana Chistina Maslach definiu a síndrome como uma reação à tensão emocional crônica, que envolve três componentes: exaustão emocional, despersonalização e a diminuição do envolvimento pessoal no trabalho. Ou seja, é um nível de cansaço tão alto que lidar com as mínimas tarefas profissionais ou do dia a dia se torna insuportável.

Muito conectada à rotina dos profissionais de saúde, professores e até policiais, casos dessa síndrome cresceram no mundo todo a ponto de entrar no radar da Organização Mundial de Saúde, que incluiu o burnout na 11a Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional.

Uma pesquisa recente revelada pelo Fantástico, da Globo, explicou que 83% dos profissionais de saúde que estão na ativa hoje no Brasil demonstram sinais de burnout. Aliás, vale lembrar que o país é considerado o mais ansioso do mundo e também já foi apontado como o segundo lugar no maior número de casos de esgotamento mental.

Entender como essa síndrome se manifesta pode parecer complexo, mas é muito importante observar os próprios níveis de produtividade no trabalho, por exemplo, e até no interesse na própria vida profissional para começar a identificá-la. Segundo Cinthia, para além disso existem também perdas significativas em outras áreas da vida.

"Somos um todo indivisível, assim, podemos entender que os sintomas de apatia, desvalorização, impotência e sobrecarga que são comuns nesse caso, também afetam os relacionamentos e hábitos de autocuidado dessas pessoas, influenciando a qualidade de vida e segurança emocional daquelas com quem interagem e convivem", explica.

A pessoa em burnout não se sente capaz de fazer escolhas simples, cuidar de si mesma e dos demais membros da família (por exemplo, dos filhos), preparar uma refeição básica para o almoço, organizar os espaços, planejar atividades de rotina ou fazer qualquer coisa que requeira autonomia e afeto. De acordo com a psicóloga, os relatos mais comuns daqueles que sentem esse esgotamento é que não têm disposição ou vontade, que perderam a identidade, e até que "a sua alma foi embora".

É possível frear o esgotamento mental?

Seja no caso de Thiago ou de César, o ponto principal é que o esgotamento chegou a um limite emocional tão grande que transbordou para o físico, com sintomas que foram de uma insônia e crises de ansiedade até um pneumotórax.

No entanto, é importante notar que o burnout é considerado por muitos especialistas como uma condição que não tem cura. "Uma vez manifesto, deixa a pessoa propensa a desencadeá-lo novamente, caso não esteja atenta aos seus sinais e do ambiente que traz esses gatilhos", explica Cinthia.

Por isso, a questão é que podemos, individual e coletivamente, nos responsabilizarmos para que ela não avance. César, por exemplo, explicou que muita coisa mudou para ele desde que enfrentou o esgotamento, e a necessidade de atenção consigo mesmo chegou, também, a um ponto máximo, já que o home office mudou a dinâmica de trabalho.

"A gente nunca se prepara para esse tipo de coisa. O ser humano é dependente de contato desde o início da humanidade. O home office é algo bom, mas a gente precisa de contato com a equipe, uma confraternização, uma troca de ideias, olho no olho. Contato humano, né? Apesar de não ter tido mais crises de pânico, a ansiedade ainda é algo a ser diariamente controlada. Não dá para largar a mão, é preciso sempre monitorar os pequenos sinais, porque a nossa mente é facilmente enganada pelo comodismo", diz ele.

Aliás, esses sinais são variados e podem aparecer de maneiras diferentes para cada pessoa, mas um senso de ética muito alto e um grau excessivo de compromisso com os resultados do trabalho podem levar pessoas já sensibilizadas a sentirem o seu termômetro subir mais rapidamente. Em um tempo em que as mudanças aconteceram e seguem acontecendo de forma tão rápida, estar atento ao que acontece consigo e até com os colegas pode ajudar a reconhecer a importância da ajuda.

"A primeira coisa a fazer é aceitar o que está acontecendo. Só somos capazes de melhorar/ modificar aquilo que aceitamos. Sem isso, não é possível interagir com o problema e encontrar os caminhos de cuidado e cura", continua a psicóloga.

Beautiful young plus size smiling woman lying on her bed and reading a book.
Criar uma rotina com hábitos que você goste e ajudem a aliviar a pressão no trabalho é essencial para evitar o esgotamento (Foto: Getty Images)

É possível evitar completamente um burnout?

Quando lidamos com emoções em um mundo que caminha rápido demais, pode parecer impossível parar alguns minutos para prestar atenção nas suas sensações e necessidades básicas. No entanto, a pandemia de coronavírus trouxe para muita gente uma nova visão sobre a própria rotina e sobre a maneira como lida com o cotidiano.

"Quando se admite a importância de atenção às próprias necessidades e temos o reconhecimento do valor de nossas vidas e tempo, passamos a agir mais conscientemente", reflete a especialista.

Sair do piloto automático, por mais que pareça anti-natural a princípio, é mais que necessário para que possamos compreender o que está sob nosso controle e onde a nossa autonomia própria funciona. Entender esses pontos é o que faz toda diferença, já que, dessa forma, é possível gerar mudanças em cima daquilo que está, de fato, ao seu alcance.

"O respeito aos sinais do corpo, especialmente às dores e limites afetivos, é de extrema necessidade", continua a profissional. "Assim, estar atento ao que sentimos pode ajudar a regular e respeitar os alcances que temos, sem adoecer."

Saber quando pedir ajuda também é de extrema importância, assim como aprender a delegar. Realmente, quando estamos diante de um cenário de tanta insegurança, é difícil aprender a dizer não ao trabalho ou repassar tarefas profissionais, com medo de que isso comprometa a sua própria carreira. No entanto, a grande discussão do momento é a importância de cuidar de si mesmo primeiro, para fazer o que é necessário depois.

E, sim, essa é uma visão privilegiada das coisas - não é à toa que os estudos indicam que as populações mais vulneráveis são as que mais sofreram baques emocionais durante a pandemia. Mas cada um, individualmente, pode fazer o que está ao seu alcance para que o sistema sinta o impacto dessas mudanças, mesmo que pouco a pouco.

Vale ainda, segundo Cinthia, buscar feedbacks construtivos e entregá-los também. Quando todos estão em casa e, como disse César, o contato cara a cara com os colegas de trabalho está limitado às reuniões de Zoom, parar alguns minutos para reconhecer os esforços de todos é um passo para tornar esse ambiente de trabalho mais seguro e abrir brechas para que as pessoas falem sobre suas questões. "Uma vez que uma pessoa sente que há espaço e acolhimento para tentativas e possíveis falhas, ela expande suas capacidades e possibilidades de ação", diz a psicóloga.

A rotina também se mostra muito importante nesses momentos. Por mais que pareça um esforço a mais ter um horário fixo para acordar, dormir, começar e terminar de trabalhar, essas pequenas ações, em tempos de isolamento social e fora dele, são essenciais para evitar o estafamento. É interessante buscar inserir no dia a dia atividades que ajudem a aliviar o estresse, seja a psicoterapia, as práticas de atenção plena ou fazer exercícios físicos regularmente. "Encontrar uma razão pela qual se vive ou se levanta da cama todos os dias, fazer refeições conscientes de que o alimento é também nosso carinho com a saúde, meditar e encontrar motivos para sentir gratidão genuinamente todos os dias, pode fazer parte do processo de resgate e fortalecimento da identidade", diz.

Mudar para viver melhor, sim.

"Nesses dois anos, eu mudei muito a minha visão de tudo. Parei de me cobrar, e não só no trabalho, mas na vida. A minha vida foi se tornando mais leve. Antes, eu vivia o trabalho o tempo todo", diz Thiago Brant. "E, hoje em dia, deu sexta-feira, 17h, eu fecho o notebook e até esqueço que trabalho. Todo dia tem uma hora que eu falo 'agora acabou'".

Entender que o momento é completamente atípico e, sim, tem um efeito no emocional e até no físico de todo mundo é importante também. No entanto, o principal é manter em mente que, apesar de caótica, essa situação é passageira, e ela não precisa determinar o seu futuro. Buscar encontrar o equilíbrio parece clichê e até banal demais para quem passa por uma situação de alta pressão no trabalho, mas a verdade é que comprometer a própria saúde, ainda mais em tempos de pandemia, nunca vale a pena. Por isso, manter-se atento às próprias necessidades e ao próprio corpo e tentar manter a positividade viva (mas jamais ao ponto de ser alienante), é essencial.

"Quando a gente sente gratidão, ativamos neurotransmissores responsáveis pela alegria e disposição. A esperança e a fé reforçam o otimismo que alimenta nossa caminhada", finaliza Cinthia.