Morando na Alemanha, sensação do esporte brasileiro revela: 'O que me move é ganhar dos chineses'

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Hugo Calderano durante competição. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images
Hugo Calderano durante competição. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

Por Adriano Pereira

O carioca Hugo Calderano, 21, perdeu a conta de quantas horas se submeteu a treinamentos infindáveis desde que adotou o tênis de mesa como “seu” esporte, aos 10 anos.

Tudo valeu a pena no último final de semana.

Com exibições históricas, ele venceu o alemão Timo Boll (atual líder do ranking mundial) e o chinês Lin Gaoyuan (número 4) no caminho para chegar à final do Aberto do Catar, um dos principais torneios do circuito internacional —feito inédito para um brasileiro.

A derrota na decisão de domingo (11) para outro chinês, Fan Zhendong, vice-líder do ranking, em nada reduziu a façanha porque, com a campanha, Calderano está próximo de figurar entre os dez melhores do planeta.

A ascensão do carioca não é surpresa. Nos últimos anos, ele colecionou resultados expressivos como a medalha de ouro no Pan de Toronto, em 2015, o bronze nos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim, em 2014, e as oitavas de final dos Jogos do Rio, em 2016.

Nessa entrevista exclusiva, Calderano afirma que pretende popularizar o esporte no Brasil, ganhar uma medalha olímpica e trilhar um caminho parecido com o de Gustavo Kuerten, que quebrou paradigmas no tênis.

Isso se não vier mais.

“Não gosto de me impor limites”, disse o mesa-tenista, que desde 2014 vive e treina em Ochsenhausen, na Alemanha.

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O que esse resultado no Catar representa nos seus objetivos futuros?
Eu sempre tive muita confiança de que conseguiria chegar entre os melhores do mundo um dia. Claro que é difícil saber quando. Se hoje, amanhã ou daqui a um ano, mas esse foi um grande passo na minha caminhada até o topo. Mostra que eu estou no caminho certo para chegar até onde eu quero.

O que você define como topo?
Eu não tenho uma definição para topo. Mas, hoje, se não estou dentro dele considero que estou bem próximo, que é ser um top 10 ou top 5 do ranking mundial. Porém, não gosto de me impor limites.

Você achou que obteria resultados tão significativos com apenas 21 anos?
Eu estou no caminho de entrar na lista dos dez melhores do mundo, e acredito que vou conseguir até o final desse ano, mais cedo ou mais tarde. Eu sempre tive bastante confiança de que chegaria nesse nível.

O que causou esse salto nessa semana do Aberto do Catar, que fez você derrotar expoentes da Alemanha e da China?
Nada em especial. Tenho mantido meus treinos, e o trabalho árduo no dia a dia é muito importante para conseguir isso. É o processo natural de evolução, de em um dado dia perder de um jogador teoricamente mais fraco e em outros bater os melhores do mundo. Esse foi um passo mais expressivo, que mostrou que tenho condição de estar entre os melhores. É claro que a minha técnica e meu físico têm evoluído, mas não teve uma fórmula mágica, não [risos]. Recentemente, me tornei vegetariano.

Qual foi o motivo? Houve impacto de performance?
Vários fatores me levaram a tomar a decisão. Um, com certeza, é o fato de me ajudar no esporte com base em uma alimentação mais saudável para me sentir melhor fisicamente. Eu passei a me sentir menos cansado e com mais disposição. Mas outra razão foi com relação aos animais e ao planeta. Uma dieta vegetariana ajuda muito ambos e isso foi um fator para eu tomar a decisão.

Essa ascensão no ranking deve fazer você ser mais visado pelos rivais. Como é possível evitar a estagnação?
Eu não preciso me preocupar tanto com isso porque sei que estou no caminho certo e vou me manter em evolução. Tenho muita confiança na minha equipe. Porém, realmente é necessário impor novas metas para nunca ficar satisfeito ou parar de evoluir. Estamos muito ligados em mudar cada detalhe de acordo com minha evolução.

Você vive há quase quatro anos em Ochsenhausen, na Alemanha. Ir para o exterior é o único caminho para um mesa-tenista brasileiro se inserir na elite?
Hoje em dia é muito difícil um mesa-tenista atingir um alto nível atuando no Brasil. Os melhores jogadores acabam tendo que se mudar para o exterior, como eu fiz. Eu evoluí muito, técnica e fisicamente, por jogar a liga alemã e outras internacionais e locais muito fortes. Mas o Brasil também tem uma certa estrutura, principalmente em São Paulo. Há clubes para se fazer uma boa iniciação, só que é quase impossível alcançar um nível mais elevado. Eu gostaria muito que houvesse mais estrutura para poder morar e ter um treinamento de primeira linha no Brasil, mas no momento é inviável e devo continuar na Europa por muitos anos.

Atualmente, você defende um clube e tem patrocinadores na Alemanha. O quão distante é essa realidade da do mesa-tenista que está no Brasil?
No Brasil, o investimento não é tão alto quanto na Europa e isso se reflete no dia a dia. Mesmo alguns atletas sem ambição de frequentar a elite mundial tentam atuar, mais para fazer uma vida com o que ganham no tênis de mesa. Na Europa, até um jogador de nível médio consegue viver exclusivamente do tênis de mesa.

Como são as reações com a ascensão de um brasileiro em um circuito internacional dominado por europeus e estrangeiros?
Os atletas dos outros países realmente não estão acostumados e estranharam um pouco chegar um brasileiro, do nada, e começar a vencê-los. Mas agora eles já me conhecem e sabem que serei um dos concorrentes no futuro, o que para mim é muito bom. Eu tenho alcançado com frequência fases importantes de torneios de ponta. Nos últimos dias, só tem aparecido eu no meio de sul-coreanos, japoneses e chineses. Ou seja, é uma sensação muito boa ver que estou no meio das grandes potências do tênis de mesa.

É uma sensação de intruso?
Eu nem imagino como eles pensam, mas eu estou sozinho em um mar de asiáticos [risos].

Há 20 anos, o Brasil via surgir no tênis um ícone que nunca mais se repetiu. Duas perguntas: você vê semelhanças com o Guga e te preocupa sobre seu legado?
Eu vejo algumas semelhanças. Claro que não quero me comparar com ele, porque o Guga é um dos maiores atletas da história do Brasil. Eu quero um dia chegar lá, mas não vou me comparar com ele ainda. Só que por serem dois esportes parecidos, com histórias parecidas, e não tão populares no país, eu me vejo seguindo um caminho pioneiro como o dele. O legado do Guga pode não ter sido tão aproveitado, porém com certeza o tênis cresceu muito na visão do povo brasileiro. Esse é um dos meus objetivos, fazer do tênis de mesa um esporte popular no Brasil.

Já que mencionou legado, como você espera ser lembrado?
Se eu tivesse que dizer hoje, seria como um grande campeão que inspirou muitos jovens atletas não só no tênis de mesa, mas no esporte em geral. Esse sempre vai ser um dos meus objetivos.

Qual seu principal objetivo de carreira?
Conquistar a medalha olímpica.

Que pode vir já na Olimpíada de Tóquio?
Eu quero chegar aos Jogos Olímpicos entre os melhores do mundo e brigar de fato por uma medalha. Esse é o grande objetivo desse ciclo olímpico. Participar dos Jogos do Rio, em 2016, foi um grande trunfo para adquirir experiência. Ali, consegui jogar bem e lidei com a pressão. Em Tóquio vai ser diferente porque vou chegar provavelmente como um dos maiores nomes. Quero brigar por essa medalha lá.

Mesmo com a legião chinesa, sempre favorita?
Com a minha evolução, eu tenho cada vez mais confiança de que posso, sim, competir em igualdade com os chineses. É claro que ainda estamos longe do nível deles, mas futuramente acredito que vai ser possível derrotá-los. É isso o que me move todos os dias: ganhar dos chineses em competições importantes, competir contra eles mais. É isso o que me faz acordar cedo todos os dias, é o que me motiva.

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