Hospital em SP já tem metade dos números de internados iguais aos do pico da pandemia; funcionários denunciam ‘maquiagem’

João de Mari
·4 minuto de leitura
Na foto, o Hospital do Servidor Público Estadual, na Vila Clementina, em São Paulo (Foto: Divulgação)
Na foto, o Hospital do Servidor Público Estadual, na Vila Clementino, em São Paulo (Foto: Divulgação)

O Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE) registrou até o dia 17 de novembro uma média diária de sete novas internações de pacientes diagnosticados com Covid-19. O número equivale a quase metade da média de internados por dia no hospital durante o pico da doença, que foi em junho. Para se ter ideia, a média diária de internados no ápice era 15; em setembro era nove; em outubro, oito.

Nesta semana, a reportagem recebeu uma denúncia de um funcionário do hospital, que prefere não se identificar, de que de no dia 16 de novembro o número de ocupação de UTI era de 65% e que, apenas um dia depois, saltou para 75%. Além isso, os leitos de enfermaria estavam 94% ocupados, segundo a fonte. “Acabou o passeio, hora de se recolher!”, escreveu por aplicativo de mensagem.

O HSPE não respondeu os questionamentos sobre número exato de ocupação dos leitos hoje. Explicou apenas que no pico da pandemia o hospital atuou com 80 leitos de UTI exclusivos para Covid-19 e que no últimos três meses os leitos foram desativados gradativamente “para receber internações de outras doenças”. Segundo o hospital, o número passou de 80 leitos disponíveis para cerca de 60. Parte dessa diminuição se deu pelo menor número de novos casos, o que sugeria um possível controle da doença.

Leia também

Mas, questionada diversas vezes pela reportagem, a assessoria não informou o número exato das ocupações. Um número elevado da ocupação de leitos, por exemplo, poderia significar que as alas fechadas podem reabrir.

“Ainda não é possível falar em aumento, portanto ainda não terá que reabrir novos leitos UTI”, informou o hospital. “Preste atenção na palavra ainda. Isso pode mudar, estamos em uma pandemia”.

O HSPE é integrado à rede Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo), que é uma autarquia do Estado de São Paulo ligada à Secretaria de Governo do Estado de São Paulo cujo principal objetivo é prestar atendimento médico aos funcionários públicos estaduais, seus dependentes e agregados.

Falta transparência

Médicos que atuam na linha de frente no atendimento de pacientes com Covid-19 já haviam afirmado, na semana passada, que sentem que estão atendendo mais pessoas com sintomas da doença e reclamam da falta de transparência dos hospitais para informá-los sobre os dados.

Após receber a denúncia de que os leitos do Iamspe estariam lotados, a reportagem foi informada pela assessoria de imprensa do hospital que não estava autorizada a passar as informações e que os dados eram divulgados pelo Estado. Procurado, o governo João Doria (PSBD) devolveu a demanda ao Iamspe — só então os dados foram passados.

Segundo especialistas, a falta de divulgação dos números de infectados que precisavam de internação dificultaria a prever um possível salto nos casos de internação pela doença — assim como registrado em unidades privadas — e, por consequência, o preparo dos profissionais para uma segunda onda de infecções.

Aumento de internações

Os números parecem refletir um crescimento das internações em toda cidade de São Paulo. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, no dia 13 de novembro, eram 693 internados em hospitais públicos. No dia 16, eram 732. Apenas um dia depois, nesta terça-feira (17), chegou-se aos 814 pacientes internados com Covid-19.

Na terça-feira (17), um grupo de infectologistas de São Paulo enviou carta a amigos para alertá-los de que “há um aumento expressivo de casos de Covid-19 nos hospitais de São Paulo”, que estariam, segundo eles, “lotados” por causa de um aumento “de 100% em alguns serviços”, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

“Recomendamos fortemente novo ISOLAMENTO DOMICILIAR!”, escreveram eles. “Não ir a bares, restaurantes e festas. Não organizem encontros ou eventos sociais. Acreditamos que vocês estejam cansados de tudo isso, mas lembrem-se que nós estamos MUITO mais.... e ainda estamos vendo pessoas morrerem, famílias inteiras contaminadas, e os casos aumentando progressivamente sem nenhuma medida sendo tomada por parte dos governos”.

Os médicos ainda sugerem que por conta do período eleitoral, talvez não “não haja interesse político em novo ‘lockdown’ agora”, mas que se trata de “uma medida extremamente necessária”.

Na última segunda-feira (16), o governo João Doria (PSDB) admitiu pela primeira vez que ocorre um aumento estimado em 18% nas internações pelo novo coronavírus no estado de São Paulo.

Segundo dados do Censo Covid, compilados pelo governo, a média diária de novas internações pela doença foi de 1.009 na semana que terminou no último sábado. No período anterior, essa média foi de 859 hospitalizações em razão da Covid-19.

Foi a primeira vez desde o início de outubro que a média diária de novas internações na semana superou a casa de 1 mil hospitalizações.