Ex-boxeador olímpico Joedison Teixeira, o “Chocolate”, relata como se reergueu após quase perder a visão e sofrer de depressão

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Joedison Teixeira
Joedison Teixeira

Por Gabriel Leão

Joedison Teixeira, 25, conhecido como “Chocolate”, possuía um futuro promissor no boxe, entretanto um golpe lhe rendeu um deslocamento de retina e participou dos Jogos Olímpicos Rio 2016 tendo saído há 45 dias do hospital após passar por cirurgia.

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Com preparação precária e lutando com óleo de silicone para colar a retina conseguiu derrotar o argelino Abdelkader Chadi, o segundo melhor do mundo entre os meio-médio ligeiros (64 kg), na luta de estreia, entretanto perdeu por pontos nas oitavas de final para o turco Batuhan Gozfec. Uma cabeçada de um rival alemão no Campeonato Mundial do ano seguinte lhe custou a carreira. Decidiu deixar os ringues, mas manter a visão.

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Em uma entrevista para o Yahoo Esportes, Chocolate fala da depressão sofrida ao deixar a nobre arte, o fato de precisar se desdobrar em diversos trabalhos para manter e aumentar a renda e outras questões referentes ao pugilismo.

Yahoo Esportes: Como se deu seu início no boxe? Quem eram seus ídolos? Te inspiravam?

Joedison “Chocolate” Teixeira: Meu início se deu por causa do meu pai que fazia boxe, porém trabalhava em duas empresas de segurança, enquanto folgava em uma trabalhava na outra, e o pouco tempo dedicava ao boxe. O único momento que tínhamos de pai e filho era quando me levava pra assisti-lo treinar e sempre quis que eu treinasse, entretanto não tinha vontade. Foi uma luta que ele fez contra um atleta olímpico da seleção e que todos acharam o resultado injusto que o fez considerar parar e, para que não desistisse, decidi começar a praticar o que era seu grande sonho.

Meu grande ídolo sempre foi ele, porém quando comecei a pegar firme no boxe conheci e me apaixonei pelo estilo do Roy Jones (Jr.), depois conheci o Yuriorkis Gamboa, (Guillermo) Rigondeaux e (Vasyl) Lomachenko. Não parava de ver os vídeos deles.

O que avalia de sua atuação nos Jogos Olímpicos Rio 2016?

Minha atuação nos jogos olímpicos considero que foi boa, pois tive apenas um mês de preparação, tive o meu primeiro descolamento de retina no mesmo ano, fiz a cirurgia e fui liberado pra lutar um mês antes dos jogos, fui com o coração na luva, peguei de cara o segundo melhor da categoria e o venci, dei tudo de mim, nunca havia me esforçado tanto...

Chorei quando um repórter me perguntou como eu sentia depois de ter me recuperado de uma cirurgia com pouco tempo de treino e ter superado o segundo melhor do mundo, passou um filme na minha cabeça, disse algumas palavras e só chorei.

Com a lesão da retina você teve de deixar os ringues. Tem recebido algum suporte da Confederação Brasileira de Boxe e/ou Marinha Brasileira?

Em 2017, no Mundial na Alemanha tive um choque de cabeça na luta que pegou no meu olho e descolei a retina novamente, impacto no lado oposto da minha cirurgia, porém no mesmo olho. Não tive suporte da seleção porque os contratos já haviam vencido e bem dizer já não fazia mais parte da seleção.

Outro pugilista que teve promissora carreira prejudicada por lesão na retina foi o medalhista olímpico Servílio de Oliveira. Considera haver semelhanças em suas histórias? Já tentou entrar em contato com o mesmo?

Nunca busquei saber a real história de Servílio e nem de outro atleta que teve o mesmo caso...

Você ficou oito meses afastado de seu esporte. Como foi este período? Estava com quadro de depressão? Como fez para superá-lo?

Após a minha saída dos ringues, considero sim que fiquei com caso de depressão, me desliguei de tudo e de todos os amigos do boxe, nunca aceitei o que aconteceu com minha carreira, até porque meus planos eram ficar no amador até 2024 (Jogos Olímpicos de Paris).

Acredito que o que me fez acordar e me levantar pra vida foi o nascimento do meu primeiro filho, Lorenzo. Tive uma emoção imensa e vi que uma vida dependia de mim, trabalhei com tudo que estava próximo pra mês a mês conseguir vê-lo, até porque ele não mora em São Paulo, mas em Minas.

Hoje você leciona a nobre arte em academias de São Paulo. Como se deu a transição de atleta para técnico?

Logo após, em novembro, nasceu minha filha Laura. E entendi que tinha de ter uma renda maior da que eu tinha trabalhando como autônomo no multinível, e decidi usar o que eu sempre fiz por amor. Com o currículo que tenho entendi que poderia ensinar outros atletas a amar o boxe, passar meus mais de 13 anos de experiência no pugilismo, então faria isso com imensa vontade e teria um retorno que daria pra sustentar os dois.

Porém é algo totalmente diferente, não se trata apenas de passar o que aprendeu. Tem toda uma metodologia diferente, o aluno aprende não só o esporte em si com o professor, (mas também) aprende coisas que ele leva pra vida, tem o professor como mestre, que pode desabafar e conseguir respostas para outras coisas e problemas da vida, até porque se a cabeça não estiver (bem) e se ele não achar um refúgio no boxe, fica preso nos problemas, desanima.

Hoje você atua também com marketing de rede para uma empresa de cosméticos. Leva para este trabalho alguma lição da vivência no boxe?

Hoje em dia entrei fundo na área de marketing e não faço apenas com cosméticos, opero em uma empresa de bitcoin também. Ingressei no ramo de marketing de rede porque foi a única área fora o boxe que você recebe perante o seu esforço, sua dedicação, você aprende e ensina liderança, ajuda pessoas a mudar de vida e é recompensado por isso também.

Outra atividade são as palestras motivacionais. Quais assuntos específicos aborda nestas conversas?

Nas minhas palestras, passo a minha trajetória do início até o meu término no boxe, e o pilar principal que me fez permanecer na seleção durante mais de 9 anos. A “mudança”, se renovar todos os dias, mudar algo cada dia mais, dar o seu melhor. Explico que esse fator tem um impacto grande não só no boxe, mas na vida. O nosso cérebro é que nem um computador, um programador, ele atende a estímulos, e se estimularmos a dar nosso melhor todos os dias podemos atingir resultados inimagináveis em qualquer área da vida.

Planeja atuar em alguma função nos bastidores do boxe?

Meu sonho pro longo prazo é rentabilizar mais a minha renda e conseguir colaborar com a melhora do nosso prejudicado boxe brasileiro, ser um dos dirigentes ou até mesmo ser um dos responsáveis em fiscalizar o funcionamento dos projetos e obrigações da nossa modalidade. Acredito que nosso esporte tem pouco reconhecimento no nosso país por não estar sendo dirigido por pessoas que realmente sentiram na pele as dificuldades de ser um atleta olímpico no Brasil.

Qual a memória mais doce que tem da vida de atleta?

A memória mais doce que tenho no boxe foi quando, aos 19 anos, consegui ser campeão dos Jogos Mundiais de Combate. Foi uma emoção que vou levar pro resto da minha vida.

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