Quem foi Dida? Zico, Pelé e colecionadores lembram a história do artilheiro alagoano

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(Foto: Arquivo)
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Por Josué Seixas e Rafael Brito

A história pelos olhos de Zico, Pelé, Claudevan e Lauthenay

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Edvaldo Alves de Santa Rosa é patrimônio esportivo de Alagoas. Faleceu em 2002, no Rio de Janeiro, onde sua história durou mais tempo. Edvaldo, por exemplo, jogou no CSA… Mas a verdade é que não o chamavam assim. Chamava-se Dida.

Os mais velhos devem se lembrar do homem que, antes de sofrer uma lesão no pé, começou como titular na seleção brasileira de 58, a primeira a conquistar um mundial. Dois alagoanos estavam no time: Zagallo e Dida.

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Pelé estava machucado e Dida perdeu a vaga para Vavá. O Rei também se recuperou e deu continuidade à sequência de jogos que o consagraria como o maior jogador de futebol de todos os tempos. Essa é a versão oficial, divulgada pela CBF, em nota de 2015.

Para Dida, aquele título é um pedaço do currículo. Foi no Flamengo que marcou época. Segundo maior artilheiro da história do clube, superado somente por Zico, o alagoano balançou as redes em 264 oportunidades, com 357 partidas disputadas. No CSA e no Atlético Júnior, da Colômbia, também está entre os campeões. O Museu do Esporte de Alagoas se chama Edvaldo Alves de Santa Rosa. Dida está na história.

ZICO

Mamãe. Papai. Dida. De acordo com os pais de Zico, essas foram as três primeiras palavras que o maior ídolo do Flamengo falou, aos dois anos de idade. “Eu nasci em 53. Em 55, o Flamengo foi tricampeão carioca com o Dida fazendo quatro gols no jogo. Dida era o grande ídolo da família, uma família toda rubro-negra e lógico que eu cresci da mesma forma. Meu sonho de criança era um dia poder vestir a 10 do Flamengo, que um dia foi do Dida, e consegui”, contou.

Eles se conheceram no Flamengo. Para Zico, mesmo sendo ídolo, encontrar Dida ainda era uma novidade. Ficava de longe, observando, como fazia quando ainda não era profissional. “Um dos primeiros jogos do Dida que eu vi no Maracanã foi uma final de Rio-São Paulo, que o Flamengo ganhou do Corinthians, se não me engano em 1961. O Dida fez o segundo gol, um cruzamento da direita e ele tocou para dentro do gol - era uma característica dele. Jogador vibrante, de muita qualidade técnica e muita elegância jogando. Depois que ele foi para a Portuguesa, fui assistir a vários jogos da Portuguesa para ver o Dida jogar”.

De acordo com o Galinho, Dida sabia o que significava o que é o Flamengo e gostava de mostrar isso aos jogadores que treinava. “Foi um dos jogadores mais importantes da história do clube”, cravou. “Uma das últimas entrevistas que ele deu foi para um programa que eu tinha na rádio e foi uma emoção muito grande poder entrevistá-lo e poder falar tudo aquilo que eu sentia quando era jovem”.

(Foto: Arquivo)
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E, dentro de campo, Dida era exemplo de elegância. Tinha chute forte com as duas pernas, decidia dentro da área, até de forma rápida. Zico até rabiscou o capítulo do próximo personagem: “Em 58, o Pelé era reserva dele, mas o Dida se machucou e perdeu a vaga”.

PELÉ

O Rei e Dida eram quase contemporâneos. Antes da Copa de 58, de acordo com o historiador Lauthenay Perdigão, eles revezavam a posição entre os 11 primeiros. Dida começava um jogo, fazia gols; Pelé entrava em outro, balançava a rede também. As lesões, inclusive, impediram que a carreira de Dida na Seleção fosse mais longa. Depois do título mundial, as convocações foram poucas.

A memória, entretanto, não deixa que a história de Dida fique perdida. Ao Yahoo Esportes, Pelé falou um pouco sobre o companheiro de seleção e de mundial.

(Foto: Arquivo)
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“O Dida foi um grande atacante. Quando ele veio para o Flamengo, era mais velho do que eu por seis anos, e fazia o mesmo papel que eu fazia no Santos. Nós dois fomos convocados para a Seleção da Copa de 58. Apesar de não jogarmos juntos, fomos campeões mundiais”, lembrou o Rei.

Nas palavras de Pelé, fica o reconhecimento a um atleta que também se destacou na época em que foram contemporâneos.

CLAUDEVAN

Todas as fotos da matéria são do acervo de Claudevan Melo, um colecionador alagoano que vive em São Paulo, e algumas delas nunca foram veiculadas no Estado. De acordo com o próprio, são duas toneladas de material só da história do estado, da música a jogadores de futebol. Claudevan, que nunca gostou de futebol, admirou-se com a história de Dida. Foi inusitado, como se surgisse uma urgência a pesquisar.

“Nos anos 90, conheci um senhor que era do meu bairro, um idoso, que veio falar do Dida. Aí eu enlouqueci. É uma memória que já estava quase apagada. Ele não jogou outra Copa depois de 58, morreu faz um tempo. O Dida é diferente do Zagallo. Zagallo continuou tendo história na carreira, a memória foi atualizada, com o Dida isso não aconteceu. Como eu tenho o gosto de trabalhar com a memória, foquei no Dida. Dida é um alagoano, mas está quase no esquecimento, tem que mudar isso”, revelou.

(Foto: Arquivo)
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As pesquisas para construir todo o acervo foram muitas. Foram idas à feiras de antiguidades, sebos, busca por materiais em todos os lugares que pudesse. Se um outro colecionador tinha duas revistas e nelas se falava de Dida, Claudevan negociava para adquirir uma das duas. Ele diz que, para construir o acervo que tem, sempre precisou ter essa mentalidade.

“Eu só conhecia Luiz Gonzaga quando vim morar em São Paulo. Não sabia quem era Dida. Alagoas é muito deficiente na área de memória até hoje. Com a internet é que houve uma modificação no geral. Antes da internet, Alagoas vivia somente da atualidade, das coisas que acontecem no momento. A memória do passado era sepultada”, lamentou o colecionador.

LAUTHENAY

A amizade entre o maior historiador e colecionador de futebol de Alagoas e o maior jogador da história do estado começou cedo. Conheceram-se quando tinham entre 10 e 12 anos. O fundo da casa de um era o fundo da casa do outro. Andavam sempre pela Praça Deodoro, famosa em Maceió, com os amigos de bairro. Uma amizade antiga, que vinha de muitos anos.

“Talvez por essa amizade antiga que tínhamos, o primeiro nome que me lembrei de botar no museu foi o dele, que afinal das contas tinha jogado no CSA, tinha sido tricampeão do Flamengo, jogado na Seleção… Eu recebia as coisas dele e guardava por ser um amigo. Não tinha interesse em montar um museu. Isso veio depois que comecei a ter muita coisa em casa”, disse.

De acordo com ele, Dida começou a aparecer foi jogando no colégio Diocesano, se destacando nas peladas que tinha durante os intervalos das aulas. O Dida jogava lá e também na Praça da Cadeia, perto de onde era o presídio, onde tinha um campinho e uma pelada nos finais de semana. Um homem, chamado Alfredo, foi avisado que tinha um garoto se destacando, foi olhar, gostou e levou ele para o CSA, onde começou a carreira. Ele tinha 18 anos e ficou até ir para o Flamengo.

(Foto: Arquivo)
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“Teve clubes do Nordeste, como Bahia e Náutico, que queriam levá-lo pra lá, e o Dida sempre dizia que para sair de Maceió só se fosse para jogar no Flamengo. Ele sempre foi torcedor do Flamengo. Em maio de 1954, ele chegou ao Flamengo. No começo daquele ano, teve um amistoso entre as seleções de Alagoas e Paraíba, e a seleção de vôlei do Flamengo estava jogando amistosos aqui. Essa turma foi ao campo do Mutange assistir à partida de seleções. Alagoas estava perdendo por 3 a 1 no primeiro tempo, e o Dida fez os gols no segundo tempo que deram a vitória por 4 a 3 para Alagoas. O futebol do Dida impressionou ao pessoal do vôlei. Quando eles voltaram ao Rio de Janeiro, falaram com Gilberto Cardoso, que era o presidente do Flamengo. Eles não quis nem procurar saber outras informações e falou diretamente com o CSA”, contou.

Na época, era o CSA quem custeava os estudos de Dida. Ele, por não ser profissional, era necessário que fosse paga somente uma taxa de transferência. Foram quase 10 anos de Flamengo (de 1954 ao fim de 1963). Dida jogou competições como a Taça Rio-São Paulo e o Campeonato Carioca. Foi, por muito tempo, o artilheiro da era Maracanã.

“Aqui em Maceió, não era tanto a repercussão na mídia na época do Dida porque só tinha a rádio Difusora, a Gazeta engatinhando ainda. O Dida tem muitas reportagens em revistas. O destaque maior dos craques da época eram em revistas e jornais, principalmente revistas. Infelizmente, a gente não tem vídeos. Hoje eu não acompanho tantos jogo, só assisto pela televisão. O Dida era um jogador rápido. Tem um drible em uma fotografia que é interessante. Um lance daquele que o jogador vem pra cá, vai pra lá... Porque o jogador com a bola vem pra cá, aí o adversário vem, mas não sabe se o jogador vai voltar”, lembrou Lauthenay.

Ao amigo, Lauthenay deixou a maior lembrança: toda a história de Alagoas em um só lugar. Um lugar que Dida poderia chamar de casa.

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