Usina em Goiás, testes na Europa... Os causos do alagoano Luan, o Menino Maluquinho do Atlético-MG

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Luan durante partida da Copa Sul-Americana. (Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP/Getty Images)
Luan durante partida da Copa Sul-Americana. (Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP/Getty Images)

Por Rafael Brito (@rafaelbritom) e Josué Seixas (@josue_seixas)

A história é recheada de reviravoltas. E bem antes do apelido "Menino Maluquinho" pegar de vez com a torcida do Atlético-MG, Luan já tinha passado por umas aventuras. Sair de São Miguel dos Campos, do povoado Coité, interior de Alagoas, até chegar ao título da Libertadores certamente renderia causos a serem contados. O ponto de partida até que é comum, o sonho de jogar futebol. Toda a trajetória que veio depois foi muito particular. Passou por trabalho em usina no interior de Goiás, viagem para testes na Suíça, dividir vestiário com Ronaldinho Gaúcho...

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Ficar em Alagoas? Não!

O começo de uma carreira é movido por um desejo. O gosto de jogar futebol, que vem desde a infância. Para virar profissão, Luan não enxergava em Alagoas um ponto de largada. "Não tive base no estado porque sabia como que era a estrutura. Tinha que pegar ônibus, pagar do meu dinheiro pra ir a Maceió, indo e voltando... Não tinha como".

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A oportunidade de jogar em categoria de base em Alagoas até apareceu. Ele poderia ter ido para o CSA. "Joguei o sub-20 pelo time de São Miguel dos Campos, perdemos para o CSA na semifinal e os caras queriam que eu fosse pra lá, mas falei que só sairia se fosse para fora do estado".

Usina, futsal e uma ligação telefônica

Enfim chegou a hora de sair de Alagoas. Um capítulo tomado por idas e vindas, mudanças e incertezas. Primeiro, passou por uma fase de trabalho em uma usina, em Quirinópolis, interior de Goiás. "Cheguei para trabalhar na usina porque meus primos eram soldadores e caldereiros, e eu tinha 16 para 17 anos, já estourando a idade da base na época. Tive oportunidade de jogar na escolinha da prefeitura e ganhava dinheiro, me mantinha assim".

Além da usina, Luan também jogava futsal. Quase que a carreira tomou o rumo para as quadras. "Joguei futsal em Rio Verde, recebi proposta, mas não quis porque meu sonho era campo", contou. A vontade falou mais alto e uma série de contratempos o tirou de Goiás para levá-lo até Sorocaba, em São Paulo, onde a carreira no futebol começou a tomar corpo.

Luan ficou perto de ir para o Goiás, mas não era ali o local que o destino tinha reservado a ele. "Cheguei no clube e o presidente pediu pra que eu voltasse na semana seguinte porque estava tendo final do sub-20. Nisso aí, não voltei nunca mais". Sem clube, a escolha foi jogar na Terceira Divisão do estado, por um time da cidade de Goiatuba.

Teste feito, boa partida, mas ele decidiu voltar para Quirinópolis, a primeira cidade onde morou no novo estado. "Liguei pra um vereador, que se chamava Romizete, e pedi pra ele me buscar de madrugada pra voltar para Quirinópolis e, uma semana depois, teve um negócio para ir a Sorocaba. Fui, com mais três jogadores desse vereador, e eu era o único que não era pra ir. O meu padrinho de casamento, falecido, o Tim, ele viu e mandou eu sair da sala. Fui meio humilhado nessa parte, mas, para você ver, ele virou até meu padrinho de casamento. Fiz o teste em Sorocaba e fiquei, de 2008 até 2012", lembrou Luan.

De Sorocaba para as aventuras na Europa

A chegada em São Paulo representou uma nova fase da vida de Luan. Mais oportunidades concretas surgiram no futebol, além dos quatro anos no Atlético Sorocaba. Uma viagem de excursão para a Europa, em 2011, quando foi cedido pelo clube ao Comercial, de Ribeirão Preto, quase mudou totalmente o roteiro da história do jogador.

O Comercial foi participar de jogos na Áustria, e Luan estava na delegação. Nessa viagem, ele acabou indo parar na França para ser avaliado pelo Le Mans, da Segunda Divisão nacional. "Pegamos um avião, fizemos um teste de duas semanas e os caras do Le Mans queriam me comprar, mas eles tinham que esperar um aval de federação, o presidente do Atlético Sorocaba liberar também... Acabou não dando certo porque o clube não queria liberar".

Sem ficar na França, Luan voltou ao grupo do Comercial, na Áustria. As boas partidas feitas renderam um convite ao jogador: disputar uma partida pelo Basel, da Suíça. O jogo estava marcado para o dia seguinte após a última partida pelo Comercial. A viagem precisava ser rápida. "Cheguei de madrugada, tomei café às 8h30 e 9h já estava no estádio do Basel. Fui treinar de manhã para o conhecer o pessoal do time e à tarde foi o jogo contra o West Ham, da Inglaterra. Ganhamos por 2 a 1, participei dos lances dos dois gols, e foi quando o presidente do Basel me chamou na sala dele e falou queria me contratar. Ficamos uns dois dias negociando e não deu certo. Eles gostaram de mim e guardo até hoje a camisa do Basel com maior carinho", recordou.

Capítulo Atlético-MG

(Foto: Pedro Vilela/Getty Images)
(Foto: Pedro Vilela/Getty Images)

Após várias reviravoltas, a carreira de Luan embalou de vez depois de uma curta passagem pela Ponte Preta, durante o Brasileirão de 2012. Foram 17 partidas na Série A e dois gols, o que chamaram a atenção do Atlético-MG. "Fiquei cinco meses e choveram propostas", contou o jogador.

No Galo, Luan viveu uma das fases mais importantes da história do clube: o título da Libertadores de 2013. Logo de cara, logo no primeiro ano. E uma das partidas na campanha é um momento que ele guarda com carinho. Até assume que, se pudesse, voltaria no tempo para viver outra vez.

Nas quartas de final, o Atlético-MG encarou o Tijuana. O Galo perdia por 2 a 1, no México, e Luan fez o gol de empate aos 46' do segundo tempo. Gol que garantiu jogar por um novo empate na partida de volta, o que aconteceu. "Foi bem bacana, bem emocionante. Foi legal, quase não teve tempo pra comemorar porque já tinha que viajar de volta. Foi muito rápido esse momento e, se pudesse, teria comemorado mais".

A campanha na Libertadores contou com um inspirado Ronaldinho Gaúcho. Toda a qualidade técnica à parte, um outro lado do jogador chamou a atenção de Luan durante o período que dividiu vestiário com ele. "Era a humildade. Um cara que conquistou tudo e ter a humildade que tem. Tem quem não conquistou nada por aí, voce vê, e não vai chegar perto da humildade do Ronaldinho porque ele é um cara espetacular", admirou.

Toda a fase de instabilidade antes do Atlético-MG passou após a chegada no clube. Já são sete anos e títulos de peso, como Libertadores e Copa do Brasil. Tempo mais do que suficiente para ter o respeito da torcida. "O Atlético-MG é sinônimo de gratidão, o clube que me abriu as portas, que me projetou, me deu sustentação no futebol brasileiro... Representa gratidão e um orgulho estar vestindo essa camisa".

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