Havia mais boxeadores conhecidos no passado? Daniel Fucs explica: “Fenômeno brasileiro”

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Daniel Fucs é um dos principais especialistas de boxe no Brasil (Arquivo Pessoal)
Daniel Fucs é um dos principais especialistas de boxe no Brasil (Arquivo Pessoal)

Árbitro internacional de boxe e comentarista no canal SporTV, o veterano Daniel Fucs é um dos principais conhecedores da nobre arte em território brasileiro tendo sido já Diretor de Boxe Profissional da CBBoxe (Confederação Brasileira de Boxe).

Em sua longa trajetória, Fucs é conhecido por abordar a modalidade por um prisma mais técnico evitando paixões e ufanismos; apontando problemas, mas também dificuldades que a modalidade enfrenta no país.

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Em abril, ocorreu uma das injustiças às quais os brasileiros, representantes de um país de pouca tradição na modalidade, estão expostos. No Mundial Juvenil AIBA de Boxe Masculino e Feminino, o brasileiro Isaias Ribeiro Filho estava indo para disputar uma medalha, mas a Ucrânia entrou com protesto e o lutador Illia Tohobytsky assumiu o posto, e o país tropical ficou fora das chances de subir ao pódio. Fucs foi um dos poucos a abordarem o caso no país.

Em exclusiva ao Yahoo Brasil, Fucs fala de suas origens no boxe, falta de cultura esportiva no Brasil que acarreta no esquecimento de ídolos e surgimento de novos talentos, o legado e respeito internacional que Eder Jofre mantém, como a nação esqueceu Valdemir Pereira, o “Sertão”, além de como é lidar com a realidade nacional.

Yahoo Brasil: Como se deu seu primeiro contato com o boxe?

Daniel Fucs: As lutas de boxe sempre me pareceram interessantes. Eu também assistia a ótimos filmes na TV com bons atores que ninguém comenta no Brasil. Lembro que a antiga TV Manchete tinha um programa de 10 minutos, aos sábados, no qual mostrava alguns momentos de grandes lutas do passado. Eu não perdia um. Certa ocasião, a extinta Federação de Pugilismo do Rio de Janeiro publicou um anúncio no Jornal do Brasil que ministraria um curso de árbitros, juízes e cronometristas de boxe. Era a chance que eu tinha para conhecer o regulamento e tirar as dúvidas. Mas eu tive um professor excepcional, Paulo Roberto Godinho, que me fez gostar mais ainda do boxe. Estreei meses depois como árbitro, isso há mais de 30 anos. Foi como uma cachaça. Fiquei viciado.

Você atuou como árbitro. Como fez para manter a ética e a imparcialidade durante os embates?

Primeiro, a educação familiar e os princípios que regeram a vida dos meus pais e avós, dos quais tenho alguns exemplos, foram fundamentais. Também nunca esqueci de um conselho do Godinho para os alunos no fim do curso. Disse que receberíamos convites para treinar e fazer ginástica em algumas academias. Explicou que aceitar tal convite era perigoso, pois poderíamos, numa luta equilibrada, sermos alvos de intrigas se apontássemos a vitória de um boxeador que pertencesse à academia em que treinávamos. Isso casou com a minha personalidade. Curto demais a imagem que carrego de correção e imparcialidade depois de tantos anos, inclusive com boxeadores, dirigentes e árbitros.

Porque o pugilismo tem uma imagem tão ligada à corrupção e outros desvios?

Eu sempre achei que alguns filmes muito antigos sobre boxe, com mafiosos fumando charutos nas primeiras filas, ajudaram a carregar uma imagem negativa ao boxe. Acredito que esta situação ocorresse mesmo, de forma menos exagerada. Atualmente, a incompetência de alguns juízes colabora para este pensamento. Quando dirigente, deixei de escalar oficiais, o que me fez ganhar algumas inimizades, e reprovei em curso que ministrei. Vejo inaptidão até em lutas internacionais, o que penso ser igualmente incompetência de quem escala continuamente determinados oficiais. Não acho impossível que ocorram atos condenáveis, como já vimos em outros esportes, inclusive no futebol, ou em qualquer atividade profissional. Mas eu nunca vi ou soube, nas lutas de títulos mundiais que trabalhei no exterior, qualquer indício de desonestidade ou de tentativa de corrupção. Admito que possam ocorrer, mas a realidade e o convívio no boxe mostraram-me que não é algo comum de acontecer e seriam casos isolados.

O boxe teve seu auge nos anos 1930 e 1940, e o último ídolo lembrado pelo grande público segue sendo Mike Tyson que encerrou a carreira profissional em 2005. Ao que se deve essa ausência de nomes?

Este é um fenômeno brasileiro. Existem diversos excelentes boxeadores que se tornaram ídolos após 2005. E não foram poucos. Acontece que no Brasil a falta de conhecimento do aficionado, a preferência por pesos pesados, e a má contribuição de grande parte da “imprensa especializada”, que por ignorância até hoje continua divulgando insistentemente Mike Tyson e Muhammad Ali, causam este distúrbio na mente do fã comum. O aficionado que se interessa em acompanhar o boxe internacional – e a internet está aí para isso – tem outro posicionamento.

No boxe contemporâneo há ao menos quatro entidades reconhecidas pelos especialistas da modalidade e dentro dessas há mais de um título mundial em jogo. Como essa fragmentação prejudica a modalidade e a produção de novos ídolos?

Neste ponto torna-se necessária uma explicação. A criação de mais organismos de boxe de certa forma democratizou a modalidade. A quantidade de bons boxeadores é tal que atletas de qualidade que não teriam chance numa disputa por título mundial possuem mais oportunidades para fazê-lo. Entretanto, como grande parte dos milhões envolvidos nos grandes eventos são oriundos das emissoras que transmitem as lutas, os promotores precisam sempre oferecer para os executivos da TV combates que chamem a atenção do público e dos patrocinadores.

Criou-se então o péssimo hábito, iniciado pela WBA (Associação Mundial de Boxe), a mais antiga das entidades em atividade, de estabelecer mais de um campeão mundial por categoria de peso. Eu já contei em alguns casos quatro campeões da WBA numa mesma categoria. Penso que isso seja prejudicial ao boxe, pois desprestigia os campeões e confunde o fã da modalidade. Há cinco ou seis anos que escrevo reclamando deste tipo de coisa e só a partir de 2019 percebi que alguns jornalistas estrangeiros começaram a falar sobre isso. Se os organismos não pararem, vão acabar matando a galinha dos ovos de ouro.

O Brasil é conhecido por esquecer sua própria história, em particular a de seus ídolos não sendo justo com suas trajetórias e esforços. O que observa deste quadro?

Penso que ocorre o mesmo com o boxe. E só não é pior porque tivemos poucos campeões mundiais nos organismos de credibilidade. Fala-se muito de Eder Jofre, nos últimos anos de Popó que procura estar na mídia, de Maguila pelo carisma, apesar de não ser campeão mundial nas entidades de maior prestígio, e recentemente de Rose Volantê e Patrick Teixeira que foram campeões há poucos anos. Mas grandes boxeadores brasileiros são esquecidos ou desconhecidos aqui no país. Um dos maiores exemplos é o Valdemir “Sertão” dos Santos Pereira. Campeão mundial em 2006, Sertão ficou de fora quando um investidor mandou fazer uma escultura com os bustos dos brasileiros que foram campeões mundiais. Apesar de Sertão ser um dos campeões mundiais mais recentes do Brasil na época, o baiano ficou de fora da homenagem. Não sei quem orientou e informou ao artista e ao investidor os nomes de Eder, Miguel e Popó, mas é imperdoável que alguém ligado ao boxe tenha deixado Valdemir Sertão à parte do tributo.

Entre tais nomes o mais brilhante é o de Eder Jofre. Quais são suas observações sobre o Galo de Ouro e como o mesmo é considerado fora do país?

Sempre senti orgulho nas viagens que fiz ao exterior pelo boxe, de pessoas até de gerações mais recentes falarem comigo sobre Eder Jofre. Mas um dos fatos mais marcantes que ouvi, me foi contado no Rio de Janeiro pelo piloto Emerson Fittipaldi. Fittipaldi é membro da Laureus World Sports Academy, entidade que premia anualmente os esportistas (atletas ou não) de maior destaque no ano anterior.

Emerson me contou de um encontro com Mike Tyson em um evento social. Os dois conversaram sobre automobilismo e boxe. Em certo momento, Tyson comentou que o Brasil tinha um grande campeão. Como Popó era campeão mundial, o piloto citou o seu nome. Tyson respondeu que Popó Freitas era um campeão fantástico, mas ele se referia a Éder Jofre. Por aí se tem ideia do que Jofre representa para o boxe mundial.

Como classifica o episódio ocorrido no Mundial Juvenil de Boxe da AIBA com o pugilista Isaias Ribeiro Filho?

Primeiro, é preciso dizer que não houve mudanças das regras na calada da noite, como eu vi escrito. Este tipo de “fake news” que acontece na internet, acaba levando as pessoas a um entendimento errado. Dias antes da competição, eu escrevi sobre como funcionaria o protesto de uma equipe caso não concordasse com o resultado. Conforme escrevi na ocasião, a luta foi equilibrada e o resultado de 3:2 foi o apresentado pelos juízes. Três deles marcaram 29-28 para o brasileiro – igual à minha pontuação – e dois apontaram 29-28 para o ucraniano Illia Tohobytsky.

Com o protesto, o resultado foi invertido de acordo com a decisão do Comitê de Júri, que analisa os protestos. Numa luta isso pode acontecer. Porém o que eu estranhei foi o fato de não haver justificativa para a mudança do resultado. Os responsáveis, a AIBA consequentemente, pela alteração do resultado não informaram o motivo do protesto e nem a razão pela qual a reclamação da equipe ucraniana foi aceita. Faltou transparência, e a informação à equipe brasileira, pega de surpresa com a comunicação e sem papel timbrado da AIBA, pareceu-me desrespeitosa.

Em seu blog todo mês há uma compilação de resultados de atletas brasileiros no exterior. Qual sua expectativa com tal lista? Acredita que com ela beneficia ou até mesmo prejudica o boxe nacional?

Na realidade, a compilação é informativa e muitas vezes analítica, quando assisto aos combates. Uma minoria não gosta que eu divulgue derrotas de brasileiros; apenas as vitórias. Isto seria falta de profissionalismo e uma enganação com os leitores. No entanto, quando percebo que quem critica a verdade da informação correta não está muito preocupado com a carreira do boxeador, entendo o motivo da irritação. Para mim é muito difícil saber que um brasileiro vai enfrentar um estrangeiro, fora do país, sem haver equivalência técnica. Às vezes até sem receber o pagamento combinado, como já tive oportunidade de divulgar. As minhas informações são benéficas ao esporte, a não ser para quem leva vantagem visando que as coisas continuem como estão.

Em sua história o Brasil teve a imprensa censurada, inclusive há poucas décadas. Os membros do universo pugilístico brasileiro respeitam a liberdade de imprensa?

Eu sempre publico o que quero e comento na TV o que vejo. A franqueza gerou credibilidade dentro e fora do Grupo Globo. Aconteceu uma vez de sofrer pressão de um agente de boxeadores, inclusive com ameaça de agressão, por me recusar a publicar um posicionamento que não tinha nada a ver comigo. Pelo contrário, minha opinião era inversa. E ficou por isso mesmo. Já me acostumei a ouvir que “fulano” ou “sicrano” disseram que não gosto de brasileiro porque divulgo as derrotas. Acho até engraçado.

Por outro lado, considera que a imprensa brasileira respeita o boxe, inclusive o boxe brasileiro e a sua história?

De uma maneira geral, não. Existem exceções, como você. Mas a maioria está mais preocupada com alguns atos que causem sensação, ou polegares para cima no caso de postagens na internet. No boxe, se alguém publica qualquer coisa sensacionalista, ou diferente, muitos copiam, independentemente de a informação ser verdadeira ou não. Eu mesmo já tive textos copiados, no meu caso eram informações verdadeiras. Percebo a preocupação de alguns para não correrem risco de perderem uma informação, sem preocupações de verificação de a mesma ser verdadeira. E se não for verdadeira, não vejo aqueles que a publicaram desmentirem. O exemplo de Valdemir Sertão é um, mas existem diversos outros. A verdade é que não temos muitos brasileiros que foram campeões mundiais. Esta é uma das razões de poucas publicações sobre boxe – mesmo havendo farto material para isso.

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