Há 30 anos, Telê Santana deixava de ser pé-frio

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TELE SANTANA, MANAGER, SAO PAULO  (Photo by Peter Robinson/EMPICS via Getty Images)
Mundiais do São Paulo com Telê Santana só vieram depois de quebrar a sina de pé-frio no Brasileirão de 1991 (Peter Robinson/EMPICS via Getty Images)

Há 30 anos, Telê Santana deixou de ser pé-frio. Pode parecer incrível para os mais jovens, mas o técnico da Seleção Brasileira de 1982, bicampeão da Libertadores e Mundial um dia foi considerado azarado. Pior do que isso, era visto como perdedor. A alcunha de “mestre” era usada às vezes como zombaria.

Tudo isso acabou em 9 de junho de 1991, no antigo estádio Marcelo Stéfani (hoje em dia Nabi Abi Chedid), quando o São Paulo empatou em 0 a 0 com o Bragantino e conquistou o título brasileiro.

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"Telê nunca foi de falar muito, mas a gente sentia que era algo que o incomodava pela maneira que encarou aquela final. Para todos os jogadores foi uma alegria enorme, mas para ele foi um alívio também", afirma Zetti, goleiro da equipe em 1991.

Ele não está errado. Ser chamado de azarado aborrecia profundamente o treinador, morto em 2006. Horas antes da final do Campeonato Mineiro de 1988, um apresentador da Band disse, ao vivo, que o Cruzeiro seria campeão porque “todos sabiam que Telê Santana (então treinador do Atlético-MG) era pé-frio.

O Galo ficou com o troféu e no dia seguinte o técnico respondeu, na emissora, à brincadeira que considerou ofensiva.

Primeiro campeão brasileiro da era moderna, em 1971, também pelo Atlético, Telê depois venceria o Gaúcho de 1977 e o Mineiro de 1988. Mas eram estaduais em que comandar um dos grandes garantia pelo menos o vice-campeonato.

"Era como se faltasse para ele um título de maior expressão", diz Antonio Carlos Zago, zagueiro titular do São Paulo em 1991.

A fama de pé-frio pegou porque Telê sempre marcou seus trabalhos pelo futebol ofensivo e bonito, mas que falhava na hora de decidir. Foi assim com a seleção nas Copas de 1982 e 1986. Mas esta é apenas uma parte da história.

O Palmeiras de 1979 enfiou uma goleada história de 4 a 1 no Flamengo, no Maracanã, mas não foi campeão de nada. O Atlético-MG de 1987 teve a melhor campanha da Copa União, mas caiu na semifinal para o Flamengo. O São Paulo de 1990 chegou à decisão do Brasileiro como favorito e perdeu para um Corinthians que jamais havia conquistado o torneio ou qualquer título nacional.

"O Telê gostava de jogar bonito, no ataque, mas naquele Brasileiro de 1991 ele mostrou que sabia segurar o resultado quando era preciso. O São Paulo jogou com o regulamento debaixo do braço", reconhece o zagueiro Ronaldão que na última partida, em Bragança Paulista, atuou como volante.

Não foi essa a única mudança pragmática do técnico. Ele preferia Cafu na lateral por ter mais vitalidade e ir à frente sem pudor. Mas na decisão, o colocou no meio-campo e escalou Zé Teodoro, especialista na marcação, na ala direita.

O São Paulo jogou pelo empate nas semifinais e dessa forma avançou. Igualou-se nas duas partidas diante do Atlético-MG. No primeiro jogo da final, no Morumbi, um gol de Mario Tilico foi o bastante para dar ao time tricolor a vantagem para ir a Bragança.

"Foi uma liberação para ele, jogadores e torcida. Mas também mostrou que o São Paulo poderia conquistar muito mais", constata Antonio Carlos.

Foi o que aconteceu. Se Telê Santana silenciou os críticos em 1991, o título brasileiro de 30 anos atrás foi a porta de entrada para o maior momento da carreira do treinador e da história do São Paulo. Nas três temporadas seguintes, o clube foi campeão paulista (1991 e 1992), da Libertadores (1992 e 1993), Mundial (1992 e 1993), da Recopa Sul-Americana (1993 e 1994), da Supercopa Sul-Americana (1993) e da Conmebol (1994).

"É incrível que um técnico como o Telê um dia tenha sido considerado pé-frio", constata Ronaldão.

Ele também se apaixonou pelo que conseguiu no Morumbi. Em 1994, chegou a aceitar oferta para dirigir a Lazio, na Itália, mas voltou atrás porque não conseguia imaginar abrir mão do que havia construído no São Paulo, onde permaneceu até 1996. Foi seu último clube. Depois disso chegou a fechar acordo com o Palmeiras no ano seguinte, mas adoeceu e ficou impossibilitado de cumprir a palavra. Aposentou-se em seguida.

Mas quando isso aconteceu, Telê Santana já era visto como um dos técnicos mais vencedores do futebol brasileiro e a fama de pé-frio caíra no esquecimento.

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