Há 30 anos, Brasil foi tratado como estrangeiro jogando a Copa América na Fonte Nova

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Durante uma semana no início de julho de 1989, os baianos estiveram em pé de guerra com a seleção brasileira. (Gazeta Press)
Durante uma semana no início de julho de 1989, os baianos estiveram em pé de guerra com a seleção brasileira. (Gazeta Press)

Na história do futebol nacional, São Paulo é conhecida como a cidade mais crítica à seleção. Dirigentes da CBF já confessaram a jornalistas o receio de levar partidas decisivas da equipe para a capital paulista. Sabem que se o gol não sair nos primeiros 30 minutos, começam as manifestações de descontentamento.

Mas entre todos os maus momentos do time com sua torcida, nada se compara ao que aconteceu em Salvador há 30 anos. Durante uma semana no início de julho de 1989, os baianos estiveram em pé de guerra com a seleção brasileira.

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"Olha, eu nunca vi nada igual àquilo. Parecia que a gente estava jogando no exterior", confessa o meia Silas, que fazia parte do elenco convocado por Sebastião Lazaroni para a Copa América daquele ano.

Três décadas depois, o Brasil volta a sediar o torneio continental. Em 18 de junho deste ano, o time entrará em campo na Fonte Nova para enfrentar a Venezuela, o mesmo adversário na estreia em 1989.

"A seleção foi vaiada logo no início do jogo com a Venezuela. O clima era péssimo. Difícil para a seleção jogar bem quando sua própria torcida não tem intenção de jogar junto", lembra Lazaroni.

O treinador era um dos "culpados" pelo ambiente bélico. Jogadores como Bebeto, baiano e que cinco anos depois seria campeão do mundo nos Estados Unidos, foram xingados. O hino nacional era cantado por poucos antes das partidas e alguns vaiaram. Adereços em verde e amarelo foram queimados nas arquibancadas, mas não a bandeira oficial, o que viraria lenda urbana nos anos seguintes. Um ovo atirado das numeradas acertou Renato Gaúcho.

"São índios não aculturados", atacou Eurico Miranda, ex-presidente do Vasco e que na época era diretor da CBF.

Foi declaração que jogou querosene na fogueira.

Pela tabela, o Brasil ficou em grupo com Paraguai, Colômbia, Peru e Venezuela. As três primeiras partidas foram na Fonte Nova. O Bahia havia conquistado, cinco meses antes, o título brasileiro e o consenso geral era que Charles, o artilheiro do campeão nacional, seria convocado. Foi, mas não ficou.

Durante uma semana no início de julho de 1989, os baianos estiveram em pé de guerra com a seleção brasileira. (Gazeta Press)
Durante uma semana no início de julho de 1989, os baianos estiveram em pé de guerra com a seleção brasileira. (Gazeta Press)

"Eu fui chamado entre os 23, então todos acreditavam que participaria da Copa América. Mas só podiam ser inscritos 20 jogadores e o Lazaroni me tirou. Eu não entendi muito bem a explicação que ele deu porque poderia colaborar com o grupo, ainda mais nos jogos em Salvador. A Fonte Nova era a minha casa. Aquilo gerou uma revolta muito grande", relembra Charles.

O corte do atacante causou indignação no povo baiano, não apenas na torcida do Bahia.

Na estreia contra a Venezuela, o público foi de apenas 13 mil pessoas. O futebol da seleção não ajudou a reconquistar as pessoas. Depois de ganhar na estreia por 3 a 1, houve os empates em 0 a 0 com Colômbia e Peru. Dois jogos que o Brasil poderia ter perdido. A seleção saiu de Salvador precisando derrotar o Paraguai na última rodada, no Recife, para se classificar. Bebeto fez dois gols e garantiu o resultado.

Os dias da seleção em Salvador há 30 anos foram dominados pela irracionalidade.

"Quando soube que eu havia sido cortado, o Paulo Maracajá [presidente do Bahia] me tirou da concentração. Estava revoltado. No final, eu acabei sendo personagem involuntário nessa confusão toda que se formou", completa Charles, que fez nove partidas pela seleção na carreira.

"Se a convocação fosse de 23 nomes, como é hoje, o Charles estaria na equipe. Mas com 20, a gente tem de fazer escolhas. E no final, ficou provado que a decisão foi correta. Sem desrespeito ao Charles", diz Lazaroni.

Ele conclui isso porque bastou a seleção sair de Salvador para encontrar o bom futebol. O quadrangular final foi disputado no Maracanã. O Brasil derrotou Paraguai, Argentina (com Maradona em campo) e Uruguai para ser levantar o troféu da Copa América pela primeira vez depois de 40 anos. Romário fez o gol do título. Foi o melhor momento daquele grupo que no ano seguinte falharia na Copa do Mundo na Itália e seria eliminada pela mesma Argentina nas oitavas de final.

“Pelo título que conquistamos, os dias em Salvador são lembrados mais como folclore, mas para quem estava lá foi bastante difícil. De certa forma, serviu para fechar o grupo que no ano seguinte iria para o Mundial”, analisa Silas.

Charles concorda. Ele vê o título continental, ainda mais depois da confusão causada pelos torcedores e a polêmica pela sua omissão, como o instante em que morreu sua chance de ser chamado para ir à Itália.

“Desta vez será bem diferente. Isso está no passado. A população do Nordeste sempre recebeu muito bem a seleção brasileira e nesta Copa América vai ter muito apoio. Aquele caso de 1989 foi algo muito atípico”, finaliza o ex-atacante.

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