Há 20 anos, Edmundo vivia o melhor ano de sua vida: ‘Estava no auge fisicamente’

O atacante que construiu a carreira com gols e polêmica, apelidado de “Animal” pelo narrador paulista Osmar Santos e ídolo de Palmeiras e Vasco (Foto: Gazeta Press)

Sandro Biaggi para o Yahoo Esportes

Há 20 anos, Edmundo teve um dos maiores desempenhos individuais da história do Campeonato Brasileiro. Maior astro do Vasco campeão daquele ano, ele fez 29 dos 69 gols marcados pela equipe na campanha. Como atuou 28 vezes, teve média superior a um gol a cada 90 minutos. Se a Fifa olhasse para o futebol sul-americano para escolher os melhores do mundo da temporada, não é difícil imaginar que o hoje comentarista dos canais Fox no Brasil estaria na lista. Talvez até como o melhor de todos.

O atacante que construiu a carreira com gols e polêmica, apelidado de “Animal” pelo narrador paulista Osmar Santos e ídolo de Palmeiras e Vasco reconhece que, se tivesse mantido a razão, talvez sequer tivesse vestido a camisa do clube de São Januário no ano que o colocaria definitivamente na história do futebol nacional. Mas admite que está na história também por causa do título nacional disputado há duas décadas.

Você foi o melhor jogador do mundo em 1997?

Não sei. Tem gente que diz que sim, mas eu não posso afirmar nada quanto a isso. Eu estava em um time que deu tudo certo, com uma série de jogadores que viviam o ápice ou tinham ali a última chance de um título de expressão nacional. Eu também estava no auge fisicamente e em uma fase esplendorosa.

Aquele Vasco foi o maior time que você jogou?

É difícil porque eu também joguei no Palmeiras que foi dois anos seguidos campeão brasileiro e paulista (1993 e 1994). E este time do Palmeiras foi o que me consagrou, me tornou um nome nacional. Mas aquele Vasco de 1997 foi uma das grandes equipes da história do Campeonato Brasileiro, sem dúvida.

Poucas vezes nós vimos um atacante tão produtivo quanto você foi naquele campeonato.  Foram seis gols em apenas uma partida (contra o União São João)…

Para te mostrar como era um momento que tudo dava certo, eu pedi para sair nesse jogo contra o União São João. Acho que eu tinha feito um ou dois gols e queria ser substituído.

Por quê?

Eu não estava me sentindo bem em campo. Sei lá… Pedi para o (Antonio) Lopes (técnico) me tirar. Mas ele não quis. O Luizinho (volante) também disse para eu continuar porque estava brigando pela artilharia. Fiz mais um, depois outro. Quando estava com quatro marcados, falei de novo para o Lopes me tirar. Ele me deixou na partida e depois ainda marquei mais dois.

O atacante que construiu a carreira com gols e polêmica, apelidado de “Animal” pelo narrador paulista Osmar Santos e ídolo de Palmeiras e Vasco (Foto: Gazeta Press)

Foi ali que você confirmou seu nome para a Copa de 1998?

Não sei se foi exatamente naquele campeonato. Mas ajudou, claro.

Em que momento sentiu que tudo daria certo naquele ano?

O time deu certo porque tinha uma energia muito boa. Fazia causas sociais. Ninguém pensava só em si mesmo. Com o prêmio do título, a gente comprou 12 carros populares e sorteou para os funcionários do clube. Foi um momento de reconhecer aquelas pessoas que trabalharam tanto. E as coisas quando têm de dar certo, dão mesmo. Para você ver… Talvez eu nem devesse estar no Vasco naquele ano.

Por quê?

Em 1996, eu estava no Corinthians e jogando bem. Mas alguma coisa estava errada. Na verdade, eu não estava legal de cabeça por causa do acidente (em 1995, ele se envolveu em acidente de carro em que morreram duas pessoas). Queria voltar para o Rio e forcei a ida para o Vasco. Mas naquele ano deu tudo errado, a gente não ganhou nada e eu fiquei pensando se não tinha tomado a decisão equivocada. Em 1997 deu tudo certo.

Você foi expulso no primeiro jogo da final (contra o Palmeiras), mas após julgamento no STJD um dia antes da segunda partida, foi liberado. Isso causou muita polêmica na época…

Eu tinha levado o terceiro amarelo no Morumbi. Estaria suspenso. Eu percebi que se fosse expulso, poderia acontecer um julgamento e eu ser absolvido. As pessoas no banco começaram a gritar para eu cavar a expulsão. Mas era algo que fazia parte do regulamento. Não era ilegal. (O Vasco empatou em 0 a 0 com o Palmeiras os dois jogos e foi campeão).

Aquele ano de 1997 foi o que definiu sua carreira?

Tive muitos momentos. Os títulos pelo Palmeiras foram muito importantes. Minha passagem pela Fiorentina poderia ter durado mais, mas foi boa. Pensando com a cabeça de hoje, eu teria ficado no clube (quando o time estava na briga pelo título italiano, ele abandonou o clube para passar o carnaval no Rio de Janeiro). Faltou um pouco de maturidade naquele momento. Mas eu estava jogando bem, marcando gols… Só faltou a seleção brasileira.

Por que a seleção não ficou marcada para você?

Faltou ganhar uma Copa do Mundo. Se a gente não tivesse perdido a final de 1998, talvez as coisas seriam diferentes. Eu poderia ter jogado melhor com a camisa da seleção. Sempre atuei melhor pelos clubes. Mas foram coisas que aconteceram. Não adianta ficar olhando para o passado.

Depois você voltou para o Vasco (em 2003, 2008 e 2012) mas não foi possível recriar um elenco vencedor como aquele de 1997.

Aquele time foi especial. É difícil juntar tantos jogadores em boa fase. Não tinha como.

O atacante que construiu a carreira com gols e polêmica, apelidado de “Animal” pelo narrador paulista Osmar Santos e ídolo de Palmeiras e Vasco (Foto: Gazeta Press)