Há 10 anos, Lille dispensava Aubameyang e fazia história com Hazard 'juvenil'

·5 minuto de leitura
Tulio De Melo levanta o troféu da Ligue 1 de 2011. Foto:PHILIPPE HUGUEN/AFP via Getty Images
Tulio De Melo levanta o troféu da Ligue 1 de 2011. Foto:PHILIPPE HUGUEN/AFP via Getty Images

Londres (ING)

O Lille pode fazer história neste domingo (16) ao conquistar o Campeonato Francês com uma rodada de antecedência, desbancando o milionário Paris Saint-Germain de Neymar e Kylian Mbappé e repetindo um roteiro inesquecível alcançado há exatos dez anos, quando o clube faturou a competição nacional após uma longa espera de mais de cinco décadas. Sob o comando de Rudi Garcia, os Les Dogues contavam com o jovem talento de Eden Hazard e ainda se deram ao luxo de descartar ninguém menos que Pierre-Emerick Aubameyang para erguer o troféu mais cobiçado do país na temporada de 2010/11.

Assim como pode acontecer na atual temporada, ninguém apostava em um título do Lille naquela oportunidade, nem mesmo os próprios jogadores do elenco, como contou Túlio de Melo, atacante brasileiro e peça importante do time na época, em entrevista ao Yahoo Brasil.

Leia também:

"Não tinha expectativa de ser campeão, isso não existia. A avaliação era sempre feita de maneira realista, de acordo com a situação financeira do clube. PSG, Olympique de Marseille e Lyon eram clubes que tinham um orçamento maior do que o nosso. Nossa meta era terminar em uma competição europeia, de preferência na Liga dos Campeões."

Além de Túlio, outro brasileiro fazia parte do Lille – Emerson Conceição, lateral-esquerdo revelado pelo J. Malucelli e titular durante boa parte de 2010/11. Ele recordou, também em entrevista ao Yahoo Brasil, o processo de crescimento da equipe, que ainda faturou a Copa da França daquela temporada, batendo o PSG na grande decisão.

"Nós sempre tivemos os pés no chão. Fomos crescendo com o Rudi Garcia, foi uma coisa natural, conquistando pontos dentro e fora de casa... E foi assim na Copa da França também, queríamos apenas ver até onde poderíamos chegar. E graças a Deus deu tudo certo, conquistamos dois títulos em uma semana. Foi uma coisa gigante, conquistar logo dois títulos depois de tantos anos."

Jovem Eden Hazard comemora o título de 2011 pelo Lille. Foto: PHILIPPE HUGUEN/AFP via Getty Images
Jovem Eden Hazard comemora o título de 2011 pelo Lille. Foto: PHILIPPE HUGUEN/AFP via Getty Images

EDEN HAZARD, O CRAQUE "JUVENIL"

Apesar de muita qualidade, o elenco do Lille era composto por atletas até então desconhecidos. Um deles, no entanto, era possível cravar que seria uma questão de tempo para que ele se tornasse uma estrela do futebol mundial: Eden Hazard.

Criado nas categorias de base do Lille, o jovem meia-atacante belga fazia sua terceira temporada completa e, com apenas 20 anos, já era a referência da equipe - ao lado de Gervinho, que depois jogaria por Arsenal e Roma.

"Eu lembro muito bem dele subindo, já que atuava com ele na equipe B. Peguei toda a transição para o profissional. Ele já fazia coisas inacreditáveis na equipe de baixo, era claro que ele não ficaria muito tempo no Lille. Ele sempre ficou à vontade com os profissionais. Ele treinava bem, mas era umas dez vezes melhor na hora do jogo. Não tinha nem o que falar", relembrou Emerson.

Quando perguntado sobre possíveis privilégios aos craques do time, Túlio de Melo não só negou, como também fez questão de lembrar como funcionava a hierarquia dentro do elenco. "Existia muito respeito em relação aos jogadores mais velhos de clube, e de idade. Isso era muito bacana. Os mais jovens tinham que buscar as bolas no fim do treino, pegar chuteira, juntar os cones. Ele [Hazard] era engraçadinho, né? Sempre foi brincalhão. Muitas vezes ele estava saindo de fininho, e a gente dava um 'pedala' na cabeça dele e falava: 'juvenil, volta lá. Vai pegar as bolas'. Mas, é claro, tudo na amizade e brincadeira."

"Ele era um grande amigo, mais novo, mas todo mundo o respeitava. Ele nunca teve um privilégio maior por ser o Hazard, a gente não deixava acontecer. Era tratado como os outros jovens da equipe, embora sabíamos que era um grande craque e que chegaria no nível que chegou", adicionou.

Pierre-Emerick Aubameyang em ação pelo Lille Foto: AMA/Corbis via Getty Images
Pierre-Emerick Aubameyang em ação pelo Lille Foto: AMA/Corbis via Getty Images

AUBAMEYANG DESCARTADO

O Lille terminou a temporada com 76 pontos, oito a mais que o vice-campeão Olympique de Marseille, e com 68 gols marcados em 38 jogos, o melhor ataque da competição. Essa última estatística, no entanto, poderia ser melhor, já que a equipe chegou a descartar Aubameyang - hoje uma das grandes estrelas da Premier League – antes da temporada começar.

Revelado pelo Milan, o atacante de então 21 anos havia sido emprestado pelos italianos para a disputa de 2009/10. A passagem, com apenas dois gols em 24 jogos, não agradou Rudi Garcia e a diretoria francesa, que descartaram uma compra definitiva, liberando o futuro craque.

"O Aubameyang era muito jovem e não tinha alcançado a maturidade que ele possui hoje. Ele não jogava de centroavante, era um ponta e não tinha a técnica que tem hoje. É um cara que merece tudo que está vivendo, porque ele foi muito persistente para chegar onde chegou hoje. Ninguém naquele momento poderia imaginar que ele se tornaria o que ele é hoje. Ele já era uma flecha, muito rápido, mas não tinha uma tomada de decisão boa, assim como a execução", avaliou Túlio.

Já para Emerson, o atacante merecia mais chances para brilhar, o que aconteceu anos depois no Saint-Étienne, Borussia Dortmund e Arsenal. "Ele até que se adaptou rápido e era o perfil que o Rudi Garcia queria - um outro jogador de beirada rápido. Eu acho que faltou oportunidade. Era rápido, com e sem a bola. Poderiam ter tido mais paciência com ele. Se ele tivesse ficado, talvez poderíamos ter conquistado mais coisas naquela época."

O Lille consolidou o título do Campeonato Francês de 2010/11 com uma rodada de antecedência, exatamente o que pode acontecer neste domingo. Na época, a conquista veio após um empate por 2 a 2 com o Paris Saint-Germain no Parque dos Príncipes. Hoje, a equipe comandada por Christophe Galtier precisa vencer o Saint-Étienne dentro de casa e torcer por um tropeço do PSG contra o Reims. Caso não aconteça, uma vitória simples sobre o Angers, fora de casa, na última rodada, bastará para que o troféu da Ligue 1 volta ao Stade Pierre Mauroy após 10 anos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos