Há 4 anos, ele estreou para enfrentar Seedorf. Hoje, faz curso de Medicina

Gabriel Carneiro

Lauro; Luis Ricardo, Gustavo, Valdomiro e Rogério; Willian Arão, Corrêa e Bruno Henrique; Jean Mota e Moisés; Bruno Moraes. Foi esta a escalação da Portuguesa dirigida pelo técnico Guto Ferreira que começou jogando contra o Botafogo, em 18 de agosto de 2013, no Canindé. Vários jogadores deste time hoje são badalados, defendem clubes como Botafogo, Flamengo, Palmeiras e Santos. Mas há um deles que nem sequer joga futebol profissionalmente após somente quatro anos daquela partida.

É o zagueiro Gustavo. Ou melhor, ex-zagueiro. E futuramente "doutor Gustavo Tabalipa". Há quatro anos, ele foi responsável por enfrentar a estrela mundial Clarence Seedorf em campo. Hoje, é estudante de Medicina e tem outros sonhos e projetos em relação aos ex-companheiros do futebol.

- Futebol é um mundo muito mentiroso. Agradeço por tudo o que passei, as pessoas que conheci, os lugares em que estive, jamais terei ingratidão. Mas eu pensei em mim e no meu futuro. A carreira é muito curta, com 30 e poucos anos você não serve mais. Então eu preferi garantir meu futuro. Na verdade, eu não desisti do futebol, eu simplesmente escolhi parar - conta, ao LANCE!, o ex-jogador de apenas 24 anos.

Há 4 anos, ele estreou para enfrentar Seedorf. Hoje, faz curso de Medicina


Natural da cidade rondoniense de Rolim de Moura, Gustavo foi morar na Bahia aos quatro anos e por lá começou a treinar em escolinhas. Aos sete, voltou para o estado natal e decidiu levar o futebol a sério. Aos 13, fez um teste de duas semanas nas categorias de base do Goiás, passou e assinou o primeiro contrato de formação. Em julho de 2009, ele foi com o Esmeraldino para a disputa da Copa 2 de Julho, que acontece na Bahia, e da qual a equipe foi eliminada somente nas quartas de final, pela Seleção Brasileira de Alisson e Wellington Nem.

- O pessoal do Internacional me viu jogando pelo Goiás e foi atrás, me contrataram. Em agosto de 2009, com 16 anos, eu já estava no Inter. Joguei 2009, 2010 e 2011 lá, mas aí no começo de 2011 acabei sendo transferido para o Santos - conta Gustavo, anos depois.

No Peixe, o zagueiro chegou com a intenção de disputar a Copa São Paulo de Juniores de 2012, mas sofreu com a falta de chances sob o comando do técnico Claudinei Oliveira, atualmente no Avaí. Pouco antes da competição, ele procurou o treinador para dizer que gostaria de ter mais espaço e ouviu um papo sincero: ele não seria titular e, se precisasse, ganharia referências para atuar em outro clube e buscar uma vaga na Copinha. Assim foi.

Após passagens por Goiás, Internacional e Santos é que apareceu a Portuguesa na vida de Gustavo. Ele fez o último ano de juniores no Canindé e em 2013 subiu para os profissionais da Portuguesa com Guto Ferreira. Nada mais que um velho conhecido.

- Eu sabia quem era o Guto, mas ele não lembrava de mim (risos). Na época em que eu estive no Inter ele era o coordenador da base. Quando me chamou na Portuguesa disse que meu nome não era estranho, aí comentei e ele lembrou: "Poxa, aquele menino que tinha vindo do Goiás...". Aí subi para os profissionais numa segunda-feira e fui relacionado para um jogo na quarta. Nosso zagueiro, Moisés Moura, foi expulso. Aí no domingo fiz minha estreia.

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- O Guto Ferreira me chamou na sexta-feira e perguntou: "E aí, dá conta de marcar o Seedorf?". Eu respondi para ele, super tranquilo, mas estava muito nervoso, nem dormi à noite. Era minha estreia, o Botafogo era líder, a Globo mostrando... Mas aí o Valdomiro me passou tranquilidade, o Guto também e joguei super bem.

O Botafogo derrotou a Portuguesa por 3 a 1 no Canindé, com gols de Bolívar, Rafael Marques e Elias. Seedorf não fez gols. E nem deu a camisa ao seu marcador...

- Tentei trocar a camisa com o Seedorf, mas ele tinha prometido a outro. Tudo bem. O Guto me deu os parabéns, agradeço muito a ele por ter me dado essa oportunidade. Dali para frente foi outra vida.

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Depois da partida contra o Botafogo, Gustavo voltou para o banco da Portuguesa e terminou assim o Brasileirão de 2013 - curiosamente, ano que marcou toda a polêmica sobre a escalação de Héverton e o rebaixamento nos tribunais, ocasião em que garante ter tomado conhecimento de poucas informações. Em 2014, Guto Ferreira deixou o clube logo no início da temporada e foi substituído por Argel, que deu sequência ao zagueiro no Paulistão e na Série B. Aí teve a parada da Copa do Mundo e Gustavo sofreu uma lesão de recuperação delicada.

Em 2015, Gustavo jogou a Série C com diversos técnicos na Portuguesa, mas o clube novamente não cumpriu os objetivos traçados e o contrato do jovem zagueiro chegou ao fim. O jogador tentou acordo pela renovação, mas não havia como permanecer para 2016.

- Eles me deviam 14 meses de salário, 13º, férias, não tinha como renovar. Tem até um processo hoje em dia - diz Gustavo, que vê a crise da Portuguesa como uma das razões de sua decisão de abandonar o futebol.

- Joguei toda aquela boa fase da Portuguesa, quando subi para o profissional o clube estava na Série A, uma perspectiva maravilhosa. Daí a pouco fiquei cinco meses seguidos sem receber, Série C, não recebe de novo... Comecei a pensar se valia a pena tudo isso. Até hoje me perguntam se tenho raiva da Portuguesa e digo que não. Na verdade eu agradeço. Fico triste com a situação, porque o clube não merece, a torcida não merece. É culpa das pessoas que trabalharam ali dentro. Foram essas coisas que me fizeram escolher outro caminho.

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Em 2016, Gustavo acertou com o Bragantino e foi titular durante a campanha da Série A2 do Paulistão, em que a equipe do interior paulista não conseguiu o acesso. No começo do Brasileirão da Série B, o clube passou por uma reformulação e o jogador foi dispensado. Gustavo permaneceu sem clube praticamente todo o segundo semestre. Houve ofertas de clubes regionais, mas ele não aceitou. A meta de jogar em clubes pelo menos do mesmo patamar não se concretizou. E a cabeça foi tomando outros rumos...

Em dezembro do ano passado, Gustavo viu a chance de recomeçar a carreira no Real FC, de Brasília, para jogar o Campeonato Candango. O zagueiro se apresentou, participou de dez dias de treinamentos, mas se sentiu desmotivado e pediu liberação.

- Tinha assinado contrato até maio, mas não estava me sentindo bem, futebol não me fazia mais feliz, ia treinar sem a cabeça boa. Aí cheguei e falei para eles que não queria mais jogar. Eles pensaram que eu estava de migué, que queria liberação para ir a outro time, mas eu queria a rescisão mesmo. Tive que assinar um documento me comprometendo a não jogar até maio e pronto. Estava feito - diz o ex-jogador, desmotivado por tudo o que passou no futebol.

- Meu pai sempre foi um cara muito correto, policial, um exemplo de homem. Ele nunca deixou que passássemos na frente de ninguém. E futebol é muita sujeira, cara. Interesses, empresários, pessoas que só pensam em dinheiro, dirigentes que querem receber por fora... acaba tendo muita mentira. E jogador é uma raça difícil também. Isso tudo eu pensei e pesei. Eu não queria perder tudo o que meu pai me fez acreditar por causa do futebol.

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Quando Gustavo informou as pessoas à sua volta de que não jogaria mais futebol, a reação não foi das melhores. Seu pai, Edilberto, não conversou com ele por um mês, enquanto a mãe tentava contornar. O empresário, Ricardo Santos, também não encarou da melhor maneira. Ele havia investido em Gustavo, cuja carreira administrava desde 2011. Pai e empresário tentaram mudar a cabeça de Gustavo, assim como a namorada, Thállita. E foi justamente na casa da namorada que os ponteiros começaram a se ajeitar.

- Meus pais são de Rondônia e foram até a casa da minha namorada, em Goiânia, depois de um tempo. Só lá que eu consegui explicar. Porque só sabe o que é o futebol quem vive ele. Como diz o Muricy, é muito bom, mas faz mal pra saíde. Quando expliquei isso, meu pai entendeu. Eu parei porque queria pensar em mim, no meu futuro, em ter uma perspectiva melhor de vida. Porque futebol é incógnita. Conversei com um amigo que joga, o Luan, e dissemos que se você faz um jogo bom fica lá em cima, e se faz um jogo ruim é lá embaixo. Ficar apostando no incerto não existe. Hoje eu e meu pai temos uma ótima relação de novo - diz Gustavo, que se recorda de um momento em especial como decisivo para a nova vida.

- Quando eu saí de casa aos 13 anos para jogar bola eu pedi a bênção e recebi. Quando decidi estudar eu pedi novamente a bênção. Se ele não me desse, iria do mesmo jeito. Ele ficou meio triste, mas tudo aconteceu como deveria acontecer.



Gustavo sempre recebeu estímulo para manter os estudos paralelamente ao futebol. Ele se formou no colegial aos 16 anos e depois disso é que focou 100% no futebol até o início de 2017. O ex-zagueiro tem pais e irmão mais velho formados em Direito e sempre pensou em fazer Direito ou Medicina, profissões que considera nobres. Quando tomou a decisão, pensou na perspectiva da Medicina a longo prazo. Ele hoje está no segundo semestre do curso em uma faculdade do Paraguai, onde Thállita também estuda.

- Se eu fosse fazer cursinho para passar em uma instituição brasileira estaria contra minha ideia de não perder tempo. Então vim para o Paraguai, que hoje é um pólo de atração de brasileiros que querem estudar. Minha decisão foi por ter 24 anos e quando me formar 30, 31. Aqui você faz inscrição e tem uma burocracia, mas não é como no Brasil. Então foi preço, custo de vida, não perder tempo, uma série de coisas. Estou no segundo semestre em seis anos de curso.

O ex-jogador gostava de ler, especialmente biografias de personagens como Michael Jordan, Bernardinho, Guardiola e Alex, mas não pegava firme nos estudos desde 2009, quando deixou o colégio. Por isso, a faculdade de Medicina foi um desafio imenso.

- Não é só estudar Medicina, né? É estudar Medicina em outra língua. Nos primeiros dias pensei que jogar bola fosse mais fácil, mas quando comecei a pegar as matérias eu me desenvolvi, passei em todas estudando muito e me encontrei. É algo que me faz feliz. Todos falam que eu tenho jeito de médico, então estou me dedicando. Não quero estar nas coisas por estar, fazer mais ou menos, quero ser bom no que faço. Por isso tenho disciplina, horários, cumpro regras. Trouxe isso muito do futebol. Meu sonho sempre foi jogar futebol e realizei meu sonho. Joguei até Série A. Agora tenho outros sonhos.

Há 4 anos, ele estreou para enfrentar Seedorf. Hoje, faz curso de Medicina


O Luan a que Gustavo se referiu anteriormente é o também zagueiro Luan Peres, revelação da base da Portuguesa e atualmente na Ponte Preta após passagens por Santa Cruz e Red Bull Brasil. Contemporâneo de Gustavo na Lusa, Luan teve pé atrás, mas hoje tem certeza do sucesso do amigo no futebol.

- No começo achei uma loucura da parte dele largar tudo assim, do nada. Ele sempre foi um cara mais estudioso, mais culto, mas nesse ponto não imaginei. Sempre o apoei e hoje vejo que ele tomou a melhor decisão, porque está feliz e realizado. Se ele for médico aqui em São Paulo vou dar essa moral e me consultar com ele - brinca o zagueiro da Macaca.

O futuro Dr. Gustavo Tabalipa deve se graduar em Medicina em 2022. Entre seus planos está o de trabalhar como médico de um clube de futebol futuramente.

- Quem sabe? Às vezes no futebol você tem uma dor que o médico não sabe exatamente e eu, como joguei, posso até saber quando é migué, quando não é. Eu mesmo já fiz muito disso (risos), vou saber quando o jogador está mentindo. Eu tenho vontade de estar em um clube, mas a vida é que vai me mostrar - diz Gustavo, que passa longe da frustração por não ter seguido no futebol.

- Eu quero srer um exemplo. Mostrar para todos que um atleta pode, sim, ser inteligente, culto, e que consegui estudar, me formar e quem sabe lá na frente ser um médico reconhecido. Meu pai disse que eu tinha chances de ser um cara frustrado por causa do futebol, mas acho que não. Tenho 24 anos e muita história para contar.

 

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