Guia Tático do Brasileirão – Parte 3

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Carille voltou ao comando do Corinthians em 2019 (Marcelo Endelli/Getty Images)
Carille voltou ao comando do Corinthians em 2019 (Marcelo Endelli/Getty Images)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

A competição mais importante do futebol brasileiro começa neste sábado, e aqui no Yahoo Esportes você ficará por dentro de todos os detalhes das 20 equipes do Brasileirão 2019. Dividido em quatro partes, o “Guia Tático do Campeonato Brasileiro’’ abordará as características coletivas dos times, apontará méritos, ponderará falhas, e o mais importante: contextualizará a realidade de cada um dos 20 clubes.

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Hoje é dia da terceira parte do especial e traremos tudo sobre: o Corinthians, que tem de novo Fabio Carille e reforçou o seu elenco; o Internacional, que busca repetir a ótima campanha do ano passado, agora com mais continuidade e solidez; o Fluminense, que apostou em Fernando Diniz e em Ganso; o Goiás, que volta para a primeira divisão; e a Chapecoense, que busca fazer um papel melhor que o dos últimos dois anos.

Como o Corinthians deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Corinthians deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Depois de um Campeonato Brasileiro bem irregular, o Corinthians volta a apostar no comando técnico de quem lhe deu o último título nacional. Fabio Carille retorna ao posto de treinador do Timão após passagem rápida pelo futebol árabe. Traz consigo o “modelo Corinthians’’ de futebol. Mais pragmatismo, segurança defensiva e competitividade. Tem desta vez um elenco mais encorpado. Há opções de qualidade em todos os setores basicamente. Alguém duvida que pode dar certo?

O Timão vem sendo um time mais direto para atacar. Na realidade alterna dois formatos de construção. Quando precisa controlar mais os jogos, tenta a saída curta. Roda a bola pacientemente entre os quatro jogadores da sua linha defensiva e sai pelos cantos quando abre algum espaço. A forma de progredir é a triangulação entre lateral, meia e ponta do setor da bola. Quase sempre a ideia é chegar à linha de fundo e cruzar para Gustagol, um colosso na bola aérea. Obviamente que se o adversário fechar o espaço, outro caminho pode ser a solução, mas a premissa básica é esta. Há também uma outra maneira. Quando quer ser mais agressivo, busca a bola longa, pelo alto, para Gustagol “raspar’’ ou ‘’aparar’’. A alternativa a isso é o passe, geralmente partindo dos zagueiros, para Vagner Love receber por baixo e fazer o pivô. É sabido a capacidade dele nisso. Clayson se destaca nas duas formas de atacar. Na primeira se mexendo e participando ativamente do último passe. Na segunda, sendo uma opção de inversão para pegar o lateral do seu setor no mano a mano. É importante também nos contra-ataques, muito rápido. Há, porém, muito o que evoluir na construção ofensiva.

Defensivamente, o “padrão Corinthians’’ voltou a aparecer com força com Carille. O time defende de forma muito compacta, tendo a bola como referência da altura do bloco de marcação. Não costuma sufocar perto da área rival, a não ser em situações específicas, mas a partir da intermediária ofensiva já demonstra intensidade na abordagem de marcação e coordenação entre os setores. Ralf é primordial nesse trabalho. Tem mais de 400 jogos no clube e comanda a ação defensiva. Acrescenta muito pouco em fase ofensiva com passes, mas é primordial no ganho das “segundas bolas’’ no meio e nas coberturas. Em transição defensiva, a prioridade do Timão é defender a última linha. O jogador mais perto da bola pressiona rápido para impedir o contragolpe adversário, mas logo após a perda, o movimento padrão de recomposição ao setor de origem. Consegue fazer isso com velocidade.

Como o Internacional deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Internacional deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Depois de uma terceira colocação e um campeonato muito acima das expectativas em 2018, o Colorado chega em 2019 também com um elenco mais qualificado, peças de reposição de respeito, e jogadores com maior capacidade de definição. Talvez a mudança no estilo de jogo da equipe, que foi tema de algumas entrevistas de Odair Hellmann, não aconteça. Mas que mal tem isso? O Internacional segue sendo um time de imposição física, de pressão forte na saída de bola adversária, de ganho da “segunda da bola’’ no meio-campo, de aceleração e potência na chegada à área após o roubo.

Nico Lopez deslanchou a fazer gols no Colorado (Buda Mendes/Getty Images)
Nico Lopez deslanchou a fazer gols no Colorado (Buda Mendes/Getty Images)

Logicamente que em determinadas partidas ainda falta mais poder de controlar as ações com a posse de bola. D’Alessandro talvez seja a principal peça do elenco pra isso, mas não suporta fisicamente as outras demandas que uma equipe como o Inter pede. Então nem sempre consegue ser decisivo em 90 minutos. Quando o adversário quer a bola pra atacar o Colorado, isso acaba não sendo um problema. O time de Odair reage muito bem ao estímulo oponente. Imprime velocidade nos contra-ataques. Tem em Patrick e Edenilson verdadeiros dínamos no setor de meio-campo, atacam e defendem com extrema desenvoltura. Em ataques mais pausados, o Colorado busca muitas bolas em profundidade ou inversões rápidas. Novamente a dupla citada acima é importante, bem como o apoio dos laterais, principalmente Iago pela esquerda. Nico Lopez vem sendo o homem mais decisivo e Paolo Guerrero vai enfim ter sequência para voltar a fortalecer o trabalho de pivô do time. Nos primeiros jogos já ficou claro como ele potencializa isso.

Na parte defensiva, o Colorado segue marcando por encaixes no setor. Há muita intensidade nesta abordagem, principalmente no centro do campo. Edenilson, Patrick e Rodrigo Dourado formam uma trinca que atrapalha muito quem gosta de ter a bola nesta faixa. Moledo e Cuesta seguem no nível do ano passado, defendem a área com extrema competência. As transições defensivas são muito voltadas para recompor a última linha. O jogador mais perto da bola faz pressão para atrasar o contra-ataque rival, mas os demais voltam aos setores. Um dos poucos problemas defensivos do Internacional aparece quando o posicionamento do time adversário não contempla os encaixes de marcação. Dificuldades de leitura de espaço já apareceram e podem ser resolvidas facilmente por Odair, seus atletas e a comissão técnica.

Como o Fluminense deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Fluminense deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

O Fluminense resolveu apostar num projeto fora do lugar comum em 2019. Sabe-se que é exatamente isso que Fernando Diniz entrega. O ex-jogador do clube é o comandante em mais um ano muito difícil financeiramente. Diniz sempre ressalta a relação humana que busca criar com seus jogadores. Esta gestão de pessoas precisará estar bem afiada para superar os atrasos de salários e os problemas administrativos. Dentro de campo, o estilo de jogo não é mais novidade, mas segue causando empolgação pela coragem e a busca pelo protagonismo com a posse de bola.

Fernando Diniz disputará a sua segunda Série A como treinador (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)
Fernando Diniz disputará a sua segunda Série A como treinador (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)

Seja qual for o estádio ou o adversário, o Fluminense de Fernando Diniz quer a posse pra jogar e insiste nesta ideia. Mesmo quando o oponente adianta a marcação, o Tricolor tenta sair jogando com passes curtos e movimentações bem coordenadas para progredir no campo e acelerar assim que um espaço surge. Com um elenco tecnicamente questionável, algumas vezes a execução deste modelo falha. O pouco tempo de trabalho também pesa contra. Por ter ideias mais complexas que o comum, pede-se um tempo maior de adaptação e aprimoramento. A ocupação de espaços quase sempre tem Everaldo e Gilberto dando amplitude, com Airton, Caio Henrique, Ganso e Bruno Silva trabalhando por dentro, atrás de Luciano e Yoni Gonzalez. Everaldo e o colombiano são os jogadores mais agudos deste sistema e geralmente dão a profundidade necessária. Há muitas diagonais por trás das linhas de marcação adversárias. O objetivo é dar sempre opção de passe em progressão.

Sem a bola, o principal problema reside nas transições. Pelo estilo intenso de movimentação para criar e o fato de atacar com muitos jogadores, é necessária uma reação sempre rápida após a perda da bola. Isso nem sempre é bem feito, e gera exposição à última linha. Em fase defensiva, o Tricolor sempre adianta o seu bloco de marcação, consegue mostrar coordenação entre os setores nesta movimentação, mas oscila novamente na intensidade do combate. Precisa aprimorar-se, mais pressão em cima do adversário com a bola é primordial. Já quando tem espaço para contra-ataques é muito perigoso. Everaldo e Yoni Gonzalez são muito rápidos. Luciano tem um bom passe, assim como Ganso e Caio Henrique.

Como a Chapecoense deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como a Chapecoense deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Depois de dois anos livrando-se do rebaixamento praticamente nos últimos minutos, a Chapecoense vai buscar um campeonato mais tranquilo em 2019. O clube segue o seu processo de reestruturação após o desastre de 2016. É inegável que o baque institucional e financeiro influenciou na continuidade do bom trabalho que vinha fazendo, tanto no campo e bola, na montagem das equipes e planteis, quanto no planejamento de uma forma geral. O técnico Ney Franco chegou recentemente e será o comandante do Verdão do Oeste, que conseguiu manter a espinha dorsal do elenco do ano passado, com o acréscimo de mais talentos na parte ofensiva.

Chapecoense quer fazer um Brasileirão mais tranquilo em 2019 (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)
Chapecoense quer fazer um Brasileirão mais tranquilo em 2019 (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Mesmo com poucos jogos comandados pelo novo treinador, já deu pra perceber que a proposta de montagem de equipe de Ney é bem clara. A Chapecoense será mais um time reativo neste Brasileirão. Até mesmo nos jogos que teve em casa, foi nítido o comportamento do time em recuar o bloco de marcação e ‘’dar’’ a bola ao adversário. A aposta é numa marcação por encaixes no setor e perseguições bem curtas. Como o time se apresentou de forma mais compacta, isso foi facilitado. Conta com Marcio Araújo e Elicarlos marcando bastante no meio-campo, e uma dupla de zaga experiente formada por Gum e Douglas, orientando o posicionamento da equipe. A intensidade na abordagem de marcação não vem sendo tão alta, mas a boa ocupação de espaços deve compensar bem.

Ofensivamente, o principal argumento é o contra-ataque. Ney Franco vem escalando Victor Andrade e Rildo como pontas. Muita velocidade e agressividade com a bola. No caso de Victor, mais habilidade e eficiência no último passe, além de uma boa finalização. Everaldo é o centroavante. Alvo de ligações diretas quando a equipe tem a bola desde a linha defensiva, mas de boa movimentação na intermediária também. Outra opção é a criação concentrada pelo lados, acionando os laterais para as jogadas individuais sempre que possível. Quando mantém a bola no campo de ataque, tem em Gustavo Campanharo um bom articulador e finalizador perto da área. Eduardo e Bruno Pacheco têm muita propensão ao ataque. Por mais que apoiem alternadamente, chegam com força ao fundo do campo.

Como o Goiás deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Goiás deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Clube de algumas ótimas campanhas nos últimos 30 anos na Série A, o Goiás está de volta a elite do futebol brasileiro em 2019. O maior clube do Centro-Oeste brasileiro apostava na juventude de Maurício Barbieri à beira do gramado, mas demitiu o treinador após a final do Campeonato Goiano, quando foi vice para o Atlético. A ideia era ter um time ofensivo, repleto de jogadores com passagens marcantes em grandes clubes brasileiros. A maioria deles, porém, não deixou saudades após pequenos momentos de brilho. O novo comandante é Claudinei Oliveira, o que causa uma verdadeira incógnita sobre o estilo de jogo da equipe.

Jogadores do Goiás durante treino antes de jogo do estadual (Goiás EC)
Jogadores do Goiás durante treino antes de jogo do estadual (Goiás EC)

Obviamente que o Esmeraldino pode adotar uma postura mais reativa diante de alguns adversários mais poderosos ofensivamente ou muito melhores tecnicamente. Em partidas assim, vai explorar a velocidade de Michael em rápidos contragolpes. Mas o estilo que imperava no time era a construção de jogadas através dos passes curtos. O primeiro homem de meio se infiltrava entre os zagueiros e liberava os laterais para dar amplitude no campo ofensivo. Os pontas tinham comportamentos diferentes. Michael é mais agudo e entra em diagonal buscando a área. Renatinho é articulador, flutua pro centro buscando a entrelinha e a aproximação com a dupla de apoiadores. Abre o corredor esquerdo para Marcelo Hermes, lateral que mais chega ao ataque na equipe. Quando havia impossibilidade na troca de passes curtos, a equipe utilizava a bola longa para Brenner brigar e se estabelecer no campo de ataque. Difícil saber, porém, o que Claudinei manterá.

Como acabava colocando muitos jogadores a frente da linha da bola, o Goiás tinha problemas com a sua transição defensiva. A ideia de Barbieri era fazer com que seus jogadores pudessem reagir rápido após a perda da bola. Mas nomes como Renatinho e Marlone têm dificuldade nisso. O miolo de zaga lento também acaba potencializando esse problema e a equipe sofria com os contra-ataques rivais. Em fase defensiva, o time se posicionava bem, sobretudo a linha defensiva. Mas novamente faltava mais pegada na marcação, principalmente quando Geovane e Léo Sena eram escalados no meio-campo. Gilberto ou João Afonso acabam dando uma cara mais combativa ao setor, por mais que tenham dificuldades nos passes. É de suma importância para o Goiás se manter na Série A ser mais competitivo sem a bola, e talvez Claudinei monte uma equipe mais voltada para a proteção da própria área.

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