Guia Tático do Brasileirão – Parte 2

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Gabigol e Bruno Henrique caíram rapidamente nas graças da Nação (Alexandre Vidal/Flamengo)
Gabigol e Bruno Henrique caíram rapidamente nas graças da Nação (Alexandre Vidal/Flamengo)

Por Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

A competição mais importante do futebol brasileiro começa no próximo sábado, e aqui no Yahoo Esportes, ao longo desta semana, você ficará por dentro de todos os detalhes das 20 equipes. Divido em quatro partes, o “Guia Tático do Campeonato Brasileiro’’ abordará as características coletivas dos times, apontará méritos, ponderará falhas, e o mais importante: contextualizará a realidade de cada um dos 20 clubes.

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Hoje, segundo dia do especial, vamos abordar como chegam: o Flamengo de artilharia pesada e Abel Braga no comando; o vistoso e reforçado Grêmio de Renato Portaluppi; o revolucionário Santos do mago Sampaoli e de Jean Mota brilhando; o Avaí, que aposta na continuidade do trabalho de Geninho e na solidez defensiva; e no Fortaleza de Rogério Ceni, que volta à elite depois de 13 anos.

Como o Flamengo deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Flamengo deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Depois do vice-campeonato em 2018, o Flamengo chega para o Brasileirão disposto a sua sétima conquista, caneco que não ganha desde 2009 e que serviria para amenizar bastante a cobrança por troféus importantes. Bem financeiramente, o clube trouxe quatro dos principais destaques do futebol brasileiro nos últimos anos, três para o setor ofensivo, e tem Abel Braga no comando da equipe. O Flamengo versão 2019 é um time mais agudo, agressivo. Demonstra menos meios de comandar um jogo através da posse, como aconteceu nos últimos três anos, mas aposta na capacidade de definição de seus atacantes.

O atual time não é inteiramente diferente do que vimos no ano passado. A ideia segue sendo ser protagonista com a posse de bola, mas esta condição passou a ser mais “negociável’’ de acordo com a realidade dos jogos. Com a bola, é vertical. Não troca tantos passes e não ocupa os espaços de forma tão elaborada como com Mauricio Barbieri e Dorival Junior. Mas imprime velocidade, tenta quase sempre as triangulações pelos lados e cruza para uma área bastante ocupada. Willian Arão e Diego (quando joga) vem sendo determinantes nisso, tanto no primeiro, quanto no segundo estágio de construção. Everton Ribeiro melhora a cada dia, e De Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol se adaptaram muito rápido.

Defensivamente, busca marcar por encaixes no setor e perseguições mais curtas. Ainda precisa de ajustes para ser mais competitivo em alto nível. A compactação da equipe não vem sendo a ideal, assim como a intensidade na abordagem de marcação. Por vezes falta uma pegada maior na linha de meias que joga à frente de Cuellar. Isso muda quando o time adianta a marcação. Aí sim tem mais intensidade. O ponto alto vem sendo o desempenho da dupla de zaga formada por Rodrigo Caio e Léo Duarte. Ambos defendendo bem a área e com o auxílio luxuoso do Cuellar. Os laterais também demonstram um bom senso de posicionamento e cobertura.

Como o Grêmio deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Grêmio deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Continuidade, futebol vistoso, comando e elenco identificados com o clube, histórico de títulos. Mesmo oscilando na Libertadores, o Grêmio chega para o Brasileirão com uma das bases mais consolidadas do futebol brasileiro. Se não possui o melhor elenco do país, ganhou reforços que podem equilibrar o ganho de pontos quando o time titular não for utilizado. Este foi o calcanhar de Aquiles nos últimos anos e Renato Gaúcho espera fazer o Imortal entrar de vez na luta pelo título da principal competição nacional. O estilo de jogo é o mesmo. A posse de bola para se impor é inegociável.

Diego Tardelli é a principal contratação do Grêmio para 2019 (Lucas Uebel/Grêmio)
Diego Tardelli é a principal contratação do Grêmio para 2019 (Lucas Uebel/Grêmio)

Um dos times mais ofensivos do país, o Grêmio mantém a mesma fórmula para criar. Aposta numa saída de bola através de passes curtos, mas não insiste caso o adversário sufoque essa ideia. Utiliza também a bola longa, mas sempre com o intuito de ter a posse na intermediária ofensiva e acumular jogadores pela faixa central. Os pontas flutuam pro centro, se aproximam do meia-central e dos volantes, estes mais na base da jogada, e se movimentam entre as linhas, visando receber a bola ali e acionar os laterais bem abertos. A figura do centroavante neste modelo gremista também é importante. Não fica só entre os zagueiros. Sai da área, ajuda na construção e abre espaços para infiltrações.

Na parte defensiva, é um time que segue ajustado também. Levou poucos gols na temporada, mesmo desfalcado em vários momentos. Marca por encaixes e perseguições. Isto é, quando os jogadores têm como referência um adversário que cai no setor e acompanham a movimentação dele por um espaço maior de campo. Para que isso dê certo, é necessário dedicação e concentração. Não se pode relaxar. E é preciso compensar os espaços que vão surgindo a partir das movimentações. Neste aspecto o Grêmio segue bem, assim como o tempo de reação após a perda bola. Costuma recuperá-la rápido e já no campo de ataque.

Como o Santos deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Santos deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Se o estilo de futebol baseado em contra-ataques é maioria nas equipes do Campeonato Brasileiro e vem desagradando muita gente, devemos agradecer ao Santos por trazer alguém que vai na contramão disso. Impossível falar sobre as expectativas sobre o Peixe e não citar Jorge Sampaoli. O argentino de 59 anos comanda o alvinegro neste Brasileirão e já deu mostras que sua equipe protagonizará jogos bem interessantes. A começar pelo estilo ofensivo. O torcedor santista traz isso no seu DNA, Sampaoli sabe, e o casamento de filosofias começa a acontecer.

Rodrygo ainda não despontou em 2019, mas no Brasileirão deve subir de produção (Ivan Storti/Santos FC)
Rodrygo ainda não despontou em 2019, mas no Brasileirão deve subir de produção (Ivan Storti/Santos FC)

O Santos é pura intensidade. Esta é a principal característica de uma equipe que quer a bola para jogar. Em alguns momentos até pode deixar a iniciativa com o adversário, mas sobe o seu bloco de marcação com agressividade na intenção de sufocar e roubar a bola o mais próximo possível do gol. Com a posse, a ideia é trabalhar com velocidade nos passes curtos e ter aproximação entre as peças. Sempre veremos a busca por superioridade numérica no setor da bola, além de uma ocupação de espaços regular. Ao menos um atleta bem aberto em cada ponta, jogadores entre as linhas de marcação do adversário, laterais atacando por dentro, e três na base da jogada: um volante e dois zagueiros. Outra característica é a utilização do “falso 9’’, geralmente Jean Mota e Cueva já fizeram isso. Derlis Gonzalez vem senso utilizado mais recentemente. A proposta é ter mais um atleta que possa se somar ao setor da bola, gerar mais uma linha de passe, e conseguir progredir no campo. As transições são muito rápidas também, um ponto alto da equipe.

Defensivamente o Peixe tem ajustes a serem feitos. Como Sampaoli pede que haja muita compactação entre os setores. A linha de defesa joga bem afastada da meta, basicamente grudada na linha de meio-campo. Então é de fundamental importância a manutenção da agressividade no combate ao adversário com a bola. Se ele tiver liberdade, qualquer passe coloca um jogador de frente com Vanderlei. Isso já aconteceu em alguns momentos e o alvinegro levou duas goleadas humilhantes no Paulistão. A bola aérea defensiva também requer mais cuidados. O sistema de marcação obedece a encaixes no setor e perseguições curtas, o que geralmente é bem executado pelos atletas.

Como o Fortaleza deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Fortaleza deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

O Tricolor do Pici está de volta à Série A, terreno onde não pisava desde 2006. O grande comandante desta retomada é o técnico Rogério Ceni, que integra de forma determinante o projeto de renascimento do clube. O ex-arqueiro do São Paulo vem sendo primordial não só no “campo e bola’’, mas também no fortalecimento do Fortaleza profissionalmente. Campeão inconteste da Série B ano passado, líder praticamente de ponta a ponta da competição, não alterou o modelo daquela equipe que tinha Gustagol como referência ofensiva. O Leão segue muito forte nas bolas alçadas na área, mas desta vez dobrou a artilharia aérea para ser mais competitivo na elite do futebol nacional.

Rogério Ceni vai para a sua segunda Série A como treinador (Gustavo Simão/Fortaleza EC)
Rogério Ceni vai para a sua segunda Série A como treinador (Gustavo Simão/Fortaleza EC)

A base do jogo da equipe de Ceni é a ofensividade. Por mais que finalize grande parte das suas jogadas com cruzamentos pelo alto para Junior Santos ou Wellington Paulista, não se trata de um time de ligações diretas. Há uma ocupação de espaços bem elaborada e notadamente pensada para chegar ao último terço do campo em condições de alçar boas bolas na área. A começar pelas saídas curtas. Raramente veremos o Fortaleza fazendo a bola chegar diretamente ao campo de ataque. Neste processo, o bom volante Felipe é essencial, recua entre os zagueiros e faz a “saída de três’’. Os laterais se projetam e os pontas/meias flutuam para o corredor. Não ficam exatamente na faixa central, mas por trás dos volantes adversários, entre os zagueiros e laterais rivais. A ideia é circular essa bola de pé em pé e acionar os laterais em profundidade para que façam os cruzamentos, ou encontrem os pontas em deslocamentos diagonais em cima da última linha defensiva oponente.

Em transição ofensiva é um time muito perigoso. Osvaldo, Edinho, Marcinho, Dodô... São jogadores rápidos em ação e raciocínio. Costuma marcar muitos gols em contragolpes. Na parte defensiva há melhorias consideráveis para um nível de Série A. A equipe marca por encaixes no setor e pequenas perseguições. O problema é a intensidade na abordagem de marcação. Nem sempre é alta, o que gera liberdade ao adversário em alguns momentos. Na retaguarda, com exceção dos laterais, não é um time rápido. Tem zagueiros mais pesados e volantes com dificuldade na mudança de direção em velocidade. Paulo Roberto talvez seja a exceção neste caso. As transições defensivas também podem ser aprimoradas. Esta já era uma questão a ser melhorada na Série B do ano passado.

Como o Avaí deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Avaí deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Outro que retorna de forma especial para a primeira divisão em 2019 é o Avaí. O Leão da Ilha mantém a ideia de jogo da temporada passada, quando fez uma campanha regular e abocanhou a terceira colocação na Série B. O time perdeu peças importantes. Renato, Judson e Guga deixaram o clube. O elenco não é tão encorpado para disputar uma Série A, mas o técnico Geninho aposta na sua experiência, na continuidade de um modelo, e em algumas peças do time-base: como a dupla de zaga formada por Marquinhos e Betão, Pedro Castro e Matheus Barbosa no meio-campo, e o trio de ataque formado por João Paulo, Getúlio e Daniel Amorim.

João Paulo é o jogador mais criativo do Avaí (Frederico Tadeu/Avaí FC)
João Paulo é o jogador mais criativo do Avaí (Frederico Tadeu/Avaí FC)

Trata-se de uma equipe bem direta para atacar. Não veremos o Avaí tendo longos períodos de posse e pacientemente trocando passes até encontrar o espaço. A principal jogada é a ligação direta a partir dos zagueiros para o centroavante Daniel Amorim ganhar a primeira bola pelo alto. Geralmente ele raspa para que João Paulo ou Getúlio ataquem o espaço por trás da defesa rival. A segunda opção é escorar para a participação de Pedro Castro e Matheus Barbosa vindo de trás, eles têm boa técnica e imposição física no meio. A variação de jogada mais vista é a associação entre ponta e lateral pelo lado direito, onde João Paulo joga. Ele veio do Atlético Goianiense e é o atleta com maior potencial de passe entre os titulares. Faz muitos cruzamentos da intermediária visando Daniel Amorim e Getúlio, que é rápido, mas bom também na bola aérea. Como percebemos, não há muito repertório e sofisticação, mas dentro da Ressacada é quase impossível não sofrer com o Avaí neste estilo direto.

Na parte defensiva, reside o grande trunfo para a permanência na Série A. Começando pela dupla de zaga: Marquinhos e Betão. Ambos ficaram marcados negativamente por passagens apagadas pelo Corinthians, numa fase ruim do clube. Mas evoluíram na carreira e hoje comandam um sistema defensivo duro! Que sabe defender bem a área e se destaca na bola área. Até pela lentidão dos dois, dificilmente o Avaí marca de forma muito adiantada. Geralmente espera o adversário em seu campo, onde aborda com muita intensidade a partir de encaixes e perseguições. Quando rouba a bola, imprime velocidade. Normalmente não tem problemas na transição defensiva, pois não coloca muitos jogadores à frente da linha da bola. Tem sempre o colombiano Mosquera, a dupla de zaga e um dos laterais fazendo o balanço defensivo.

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