Guia Tático do Brasileirão – Parte 1

Dudu com a taça do Brasileirão de 2018 (Alexandre Schneider/Getty Images)
Dudu com a taça do Brasileirão de 2018 (Alexandre Schneider/Getty Images)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

A competição mais importante do futebol brasileiro começa no próximo sábado, e aqui no Yahoo Esportes, ao longo desta semana, você ficará por dentro de todos os detalhes das 20 equipes do Brasileirão 2019. Divido em quatro partes, o ‘’Guia Tático do Campeonato Brasileiro’’ abordará as características coletivas dos times, apontará méritos e falhas, e o mais importante: contextualizará a realidade de cada um dos 20 clubes.

Na abertura do especial, vamos falar do defensor do título e milionário Palmeiras, do forte Cruzeiro do competente Mano Menezes, do Bahia, agora comandado por Roger Machado, da sensação Athletico Paranaense, o Furacão de bom futebol, e do Ceará, que começa como uma verdadeira incógnita.

Como o Palmeiras deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Palmeiras deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Atual campeão nacional e dono do melhor elenco do país, o Palmeiras chega para defender o caneco com poucas mexidas em relação ao que apresentou no ano passado. No time base, escassas mexidas. No modelo de jogo, praticamente nenhuma alteração, o que gera cobranças óbvias com mais tempo de trabalho de Felipão. O Palmeiras segue sendo uma equipe que faz muitas ligações diretas, tendo Deyverson como alvo inicial. E dependente dos brilhos individuais de seus ótimos jogadores.

Felipe Melo e Bruno Henrique são volantes com qualidade no passe. O problema não é esse. A questão é o pouco repertório coletivo no campo de ataque. O Porco não tem uma ideia muito diferente de buscar situações onde o talento de Dudu, Scarpa e Goulart vão gerar desequilíbrios na defesa adversária. Por isso é uma equipe que imprime velocidade na troca de passes, verticalidade, e tenta muitas jogadas entre pontas e laterais pelos lados do campo. Até por isso, os pontas quase sempre ficam bem abertos para receber a bola com mais espaço e “alargar’’ a defesa rival. Depois disso, “tome’’ bola no pivô e preparação para quem vem de trás. Esse trio de meias promove trocas de posição entre eles, e Dudu acrescenta bastante ao time quando pega a bola na região central.

Defensivamente, o Palmeiras é muito bem ajustado. Não ataca com tantos jogadores, tem sempre os laterais indo ao ataque quando há necessidade, e Felipe Melo no balanço defensivo. Sem a bola, costuma se posicionar em bloco médio e apresenta intensidade na abordagem de marcação. O sistema obedece a encaixes no setor, mas as perseguições não são tão longas, os jogadores não se afastem de suas áreas de atuação. A compactação acaba sendo mantida a na maioria das vezes. Em transição defensiva, se preocupa mais em recompor a última linha de defesa, mas tem sempre o homem mais próximo da bola retardando o avanço adversário. Já as transições ofensivas são muito perigosas. Imagine o estrago que Dudu, Scarpa e Ricardo Goulart podem fazer com espaço e campo pra correr.

Como o Cruzeiro deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Cruzeiro deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

O Cruzeiro chega ao Brasileirão com o trabalho mais longevo do país no banco de reservas. 2019 é a quarta temporada consecutiva com Mano Menezes à beira do gramado, e isso, somado a qualidade do elenco, além da capacidade do próprio técnico, colocam a Raposa entre os clubes favoritos ao título. Mano chegou a ser criticado pela pouca produção ofensiva da equipe até meados do ano passado. A continuidade, porém, fez com que o Cruzeiro evoluísse até hoje. Dá pra dizer que o time celeste é muito equilibrado. Cria jogadas de ataque e ao mesmo tempo não perde a solidez defensiva. A manutenção de boa parte do elenco, recheado com reforços importantes, soma forças neste contexto.

Fred novamente em forma é garantia de bola na rede (AP Photo/Alexandre Douglas)
Fred novamente em forma é garantia de bola na rede (AP Photo/Alexandre Douglas)

Não há uma movimentação ofensiva muito elaborada e ousada. O Cruzeiro se posiciona de forma bem básica em campo. Tenta sempre a saída através de passes curtos, baseando o início da construção em uma dupla de volantes com dinâmica e qualidade. Os laterais são importantes também neste processo, escolhendo a hora certa de “verticalizar’’ a jogada. Os pontas inicialmente ficam abertos, dando amplitude no campo ofensivo, mas ganham liberdade para flutuar pro meio a partir do momento que a equipe se aproxima da área adversária. O meia-central (Rodriguinho ou Thiago Neves) se comporta muito mais como um segundo atacante, faz muitas infiltrações em diagonal ou em linha reta em cima da defesa adversária. O time é extremamente técnico, o que propicia tabelas e triangulações, sobretudo pelos lados, tendo também a participação dos volantes na base da jogada. A qualidade de Fred no pivô em jogadas por baixo também é muito utilizada.

Defensivamente, a equipe tem o padrão Mano Menezes de organização. Marcação por zona e dedicação de todos os atletas para resguardar o setor com concentração. A intensidade no combate oscila um pouco de acordo com o desafio das partidas. Em jogos mais tranquilos, costuma ser mais frouxa. Lucas Romero melhorou esse aspecto depois que se tornou titular. O destaque é sem dúvida o miolo do sistema defensivo. Léo e Dedé defendem a área muito bem, e a dupla de volantes tem noção de posicionamento e cobertura. O posicionamento defensivo é basicamente o 4-4-2, com Rodriguinho (ou Thiago Neves) e Fred dando o primeiro combate a frente das linhas.

Como o Athletico deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Athletico deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Dizer que o Athletico mostra o melhor futebol do Brasil no momento é bem relativo. Há gostos e referências diferentes quando o assunto é preferência no esporte, mas considerando o “gosto médio’’ dos brasileiros, a afirmativa não é absurda. Desde que passou a ser dirigido por Tiago Nunes, o Furacão cresceu de tal forma, que o coloca no hall de favoritos à conquista do Brasileirão. Obviamente tem um elenco mais modesto do que alguns gigantes. Mas tem a seu favor o fato de não jogar o Estadual com o time principal. Quando todas as outras equipes estiverem em declínio físico, o Rubro-Negro estará na ponta dos cascos. Num calendário tão surreal, isso pode se somar ao grande trabalho de campo que o clube faz, e ser decisivo.

Jogadores do Athletico comemoram gol na Libertadores (Buda Mendes/Getty Images)
Jogadores do Athletico comemoram gol na Libertadores (Buda Mendes/Getty Images)

Tiago Nunes já se rotulou como um “ladrão de ideias’’, a exemplo do que Guardiola já disse. O que seria isso? Um treinador que bebe em diferentes fontes e coloca em prática vários aspectos aprendidos com outros profissionais ao longo do tempo. Sua equipe tem traços dos trabalhos de Fernando Diniz e Paulo Autuori, pra citar dois recentes comandantes do Athletico, mas é autoral. Construiu um time que gosta da bola e se posiciona em campo para fazer bom uso da posse. A circulação é rápida e varia bastante de um lado a outro da ‘’cancha’’. Os laterais ganham liberdade e dão amplitude em fase ofensiva. O primeiro homem de meio fica entre os zagueiros formando a primeira linha de passe. Os pontas variam pro centro e se alternam entre dar agressividade no último terço e flutuar entrelinhas. Os meias se movimentam a todo instante para serem opções de passe. Uma equipe muito bem ajustada e que cria pelos lados as principais chances de gol.

Defensivamente, segue o padrão bem executado de organização. Se fecha em duas linhas de quatro bem compactas, com um dos meias ao lado do centroavante à frente delas. Marca por zona, e tem intensidade na abordagem de marcação. O homem mais próximo da jogada está sempre tirando o espaço, tentando sufocar o oponente que tem a bola. Em transição defensiva, reage muito rápido à perda da posse, principalmente quando é desarmado no campo de ataque, recupera muitas bolas no campo ofensivo. A transição ofensiva é letal. Tem potencial de contra-ataque com Rony, Bruno Guimarães, Renan Lodi e Nikão.

Como o Bahia deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Bahia deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Nos últimos anos, o Bahia se estabeleceu como principal clube do Nordeste no que diz respeito a potencial de montagem de um bom elenco, organização financeira e estabelecimento da marca. O mais difícil vem sendo transformar isso em campanhas a altura no Brasileirão. Por mais que tenha conseguido ser semifinalista da Copa Sul-americana em 2018, chegou a flertar com a zona de rebaixamento. Em 2019, a irregularidade seguiu e derrubou o técnico Enderson Moreira. Roger Machado assumiu há três semanas com a missão de dar maior competitividade ao Tricolor de Aço e enfim fazer uma campanha de protagonismo na Série A. Tem um bom elenco nas mãos, talvez com menos peças de qualidade na criação, mas certamente com potencial de definição dentro da área.

Artur ganhou espaço e vem correspondendo após a chegada de Roger Machado (Felipe Oliveira/EC Bahia)
Artur ganhou espaço e vem correspondendo após a chegada de Roger Machado (Felipe Oliveira/EC Bahia)

Ainda é cedo para ter certeza dos detalhes do modelo de jogo que Roger quer implementar. Certo é que o time de Salvador terá a ofensividade como norte, que é o que geralmente pauta os trabalhos do jovem comandante. Nos primeiros jogos sob a batuta dele, vimos um conjunto preocupado em manter a posse e tentando construir jogadas através de passes curtos. A partir de um 4-4-2, tenta as triangulações entre meia, atacante e lateral no lado da jogada, e não força o passe se não encontra o espaço. É constante também a alternância de lados. Não insiste num flanco se não há condições para ser vertical. E é justamente isso que precisa ser mais bem assimilado pelos jogadores. Como há mais sofisticação nessa construção, não é raro ver o Bahia trocando passes de forma mais lenta, com dificuldades para penetrar. Uma boa opção pode ser a bola direta para Fernandão ou Gilberto. Em determinadas situações atuam juntos, mas geralmente disputam a posição de centroavante no Tricolor.

Defensivamente há muitos ajustes a serem feitos. O comportamento geral já era um problema com Enderson Moreira. O time do Bahia teve muitos momentos de desconcentração e baixa intensidade sem a bola em 2019. Isso foi responsável direto pela eliminação precoce na Copa do Nordeste. E sabemos que uma Série A competitiva passa por isso, principalmente tendo em vista o nível técnico de algumas equipes de maior poder aquisitivo. Este é o primeiro desafio de Roger, que também vem procurando adotar uma marcação por zona, diferente dos encaixes no setor e perseguições que pautavam este momento anteriormente.

Como o Ceará deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)
Como o Ceará deve jogar no Brasileirão de 2019 (Rodrigo Coutinho)

Depois de se livrar do rebaixamento em 2018 de forma heróica, o Ceará entra no Brasileirão 2019 buscando um outro patamar. Talvez beliscar a “primeira página’’ da tabela, o grupo dos dez primeiros. A continuidade do trabalho de Lisca e um elenco mais homogêneo para esta temporada poderiam indicar isso. Mas o rendimento não foi bom, os resultados decepcionantes e o outrora incontestável Lisca caiu após a final do Cearense. A ideia principal é não repetir o início catastrófico do ano passado. Enquanto o novo treinador se ambiente e implementa as suas ideias, o Alvinegro de Porangabaçu precisa pontuar. E aí, depois de algumas rodadas, mostrar-se mais competitivo.

Juninho é um dos jogadores mais regulares do Ceará nesta temporada (Fernando Ferreira/Ceará SC)
Juninho é um dos jogadores mais regulares do Ceará nesta temporada (Fernando Ferreira/Ceará SC)

Lisca começou a dar jeito no Ceará em 2018 ao organizar primeiramente o sistema defensivo. Montou uma equipe mais intensa sem a bola, que fechava espaços com contundência e não se expunha a contra-ataques. A defesa alvinegra em 2019 oscila mais. Segue com Luiz Otávio e Tiago Alves defendendo bem a área. Tem em Juninho e Fabinho uma ótima dupla de contenção. Laterais que sabem se posicionar e atacam “na boa’’, mas a intensidade do restante do time é irregular. Isso aconteceu até mesmo em jogos importantes e influenciou nos resultados abaixo do esperado até aqui. Ajustar será primordial para um Brasileirão mais competitivo.

Já com a bola, esperava-se mais evolução no que diz respeito ao repertório de jogadas. Em 2018 o nível de aceitação a uma equipe que explorava os contra-ataques e era forte com Samuel Xavier pela direita foi alto. A questão é que em 2019 pouca coisa mudou ofensivamente. Há até o recurso da bola direta para Roger ganhar pelo alto quando este é titular. Fernando Sobral e Felipe Baixola acrescentam mais em articulação, mas faltam ideias mais claras no âmbito coletivo. O ponto forte segue sendo as inversões buscando Samuel Xavier no lado direito, a aproximação de um meia ou um ponta por ali, e o cruzamento pra área. Já em transição ofensiva, o Ceará é mais perigoso. Principalmente com Leandro Carvalho, um dos jogadores mais regulares da equipe.

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