Guia Tático da Copa América – Grupo A

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Guia Tático - Copa América
Guia Tático - Copa América

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

A Copa América começa nesta sexta-feira, e o Yahoo Esportes mais uma vez te coloca por dentro de tudo o que as seleções mostrarão dentro de campo. O Guia Tático da competição se propõe a detalhar as características coletivas das seleções, os esquemas táticos, os destaques individuais. Cada texto representa um grupo de quatro seleções. E a estreia retrata a chave do Brasil. Mergulhe nas ideias da Seleção de Tite, dos peruanos comandados por Ricardo Gareca, da Bolívia em fase conturbada, e da emergente Venezuela de Rafael Dudamel.

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Brasil

Pressão, expectativa, críticas e o desfalque de seu principal jogador. Além do desafio natural de uma competição de bom nível, a Seleção Brasileira precisará superar os seus próprios ‘’fantasmas’’ para vencer a Copa América em casa. Tite, outrora unanimidade pelo bom trabalho que fez até a Copa do Mundo, viu a sua popularidade despencar pela cobrança insana por resultados existente no Brasil, mas também não conseguiu fazer o time jogar o futebol esperado no Mundial. A queda de produção pós-Copa e um processo de renovação bem controverso na equipe, contribuem neste cenário. A impressão deixada nos dois últimos amistosos, porém, foi positiva, e deixa a esperança que a recuperação pode ser iniciada.

Richarlison vem sendo o jogador mais regular do Brasil após a Copa do Mundo (Buda Mendes/Getty Images)
Richarlison vem sendo o jogador mais regular do Brasil após a Copa do Mundo (Buda Mendes/Getty Images)

Parte desta esperança vem de uma mudança conceitual na forma de atacar. Pouco antes da Copa do Mundo, Tite buscou implementar um ataque mais “posicional” na equipe. Isto é, menos liberdade de mudanças de posição, algo voltado para garantir sempre amplitude, aproveitamento do espaço entrelinhas e profundidade. A questão é que os atletas não assimilaram este conceito de forma contundente e isso influenciou diretamente na produção ofensiva. Nas últimas partida, um modelo mais funcional voltou à tona. Os homens de frente tiveram mais liberdade de movimentação, uma forma mais característica do futebol brasileiro, e as coisas parecem se encaixar novamente. A ideia de ter a bola, trocar passes curtos e triangular pelos lados segue.

Como o Brasil deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)
Como o Brasil deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)

Defensivamente o Brasil segue muito eficiente. Marca forte no campo de ataque, adiantas as linhas com muita coordenação, força o adversário a lateralizar o jogo e sufoca o oponente. A linha defensiva, mesmo a muitos metros do gol, consegue boas recuperação e raramente erra o posicionamento. A transição defensiva é outro ponto de destaque. O “perde, pressiona” é cada vez mais intenso e proporciona roubadas de bola em zonas avançadas, pegando a retaguarda rival em condições de exposição.

Equipe da Seleção Brasileira na Copa América (Rodrigo Coutinho)
Equipe da Seleção Brasileira na Copa América (Rodrigo Coutinho)

A principal incógnita do time é quanto ao substituto de Neymar, lesionado. Willian foi convocado e não parece ser um candidato forte a um lugar no time. Gabriel Jesus deslocado para esquerda, Paquetá ganhando um espaço no meio, ou Everton numa mexida mais natural são as principais opções de Tite. Seja qual for a escolha, a mudança do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 parece certa e tem a ver com o ataque “menos posicional” citado acima. Expectativa grande para ver como reagirão David Neres, Richarlison, Lucas Paquetá, Arthur, Éder Militão, Allan e Everton, que disputam a primeira competição oficial com a seleção principal.

Venezuela

Uma seleção em franca evolução! Alheio aos problemas sociais e econômicos que a Venezuela vive nos últimos anos, o futebol da seleção venezuelana vem subindo de produção a cada ano, e obtendo resultados que até bem pouco tempo pareciam impossíveis. Não se trata de uma nova força do futebol mundial, mas além de não ser mais o “saco de pancadas” de sempre, os ‘Vinotintos’ chegam à Copa América de forma bem competitiva e podendo sonhar com a melhor campanha de sua história. O principal responsável talvez seja Rafael Dudamel. Ex-goleiro da seleção e treinador do time desde 2016, implementou uma filosofia de jogo condizente com o tamanho venezuelano no futebol mundial. Com a equipe sub-20 conseguiu um inesquecível vice-mundial em 2017.

Savarino é um dos jovens valores venezuelanos que vai ganhando importância no plantel (Robin Alam/Icon Sportswire via Getty Images)
Savarino é um dos jovens valores venezuelanos que vai ganhando importância no plantel (Robin Alam/Icon Sportswire via Getty Images)

A cara da seleção da Venezuela é jogar no contra-ataque. Sempre postada em um 4-1-4-1 bem compacto, a equipe tem muita intensidade para pressionar a bola a partir da linha média em uma marcação que obedece ao sistema zonal. Quando cada jogador defende o seu espaço dentro do sistema. Individualmente, o time tem alguns problemas no lado esquerdo da sua defesa. O lateral Rosales por vezes falha no posicionamento e a dupla de zaga é um pouco pesada para fazer as coberturas. O centro do campo é sempre bem defendido por uma trinca de volantes de posicionamento correto. As transições defensivas têm como preocupação recompor rapidamente o desenho tático. O jogador mais próximo da bola até pressiona imediatamente, mas sem contar com o auxílio dos demais atletas. A intenção é atrasar o contra-ataque rival.

Como a Venezuela deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)
Como a Venezuela deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)

A seleção venezuelana quase sempre, quando tem a bola, joga em transição. Isso é, rouba e acelera, sobretudo com os pontas. Quer aproveitar erros dos adversários e surpreender com o potencial de definição de Rondón ou Josef Martinez. Os volantes têm boa capacidade de passe longo para explorar a profundidade que a velocidade de Murillo e Machís proporcionam. Em fase ofensiva, a ideia principal é o jogo direto. Até por isso, Rondon, pela imposição física e altura, acaba ganhando mais minutos que Josef Martinez como titular. A bola longa geralmente sai buscando essa referência pelo alto, e a partir do ganho da primeira bola, a equipe acelera ou trabalha pelos lados perto da área.

O elenco da Venezuela na Copa América (Rodrigo Coutinho)
O elenco da Venezuela na Copa América (Rodrigo Coutinho)

Tecnicamente o time também melhorou. Dos 23 convocados, apenas dois atuam no futebol venezuelano: o terceiro goleiro, e um volante reserva. São seis jogadores que estiveram no plantel vice-campeão no Mundial Sub-20 de 2017. O maior destaque é o goleiro Wilker Fariñez. Baixo para os padrões atuais do futebol mundial, mas dono de um reflexo apuradíssimo. Muito veloz também para chegar nas bolas. Há talento e experiência em outras peças. Tomás Rincón é o melhor exemplo. Joga no Torino, passou por Juventus e Hamburgo, e está há 11 anos no futebol europeu. Definitivamente a Venezuela deixou o “limbo” do Planeta Bola.

Peru

Depois de um “ciclo perfeito”, a seleção peruana entra na primeira competição pós-Copa do Mundo buscando repetir o sucesso que teve entre 2015 e 2018. Foram duas boas campanhas nas Copas Américas do período e uma classificação para o Mundial que não vinha há três décadas. O grande responsável por isso é o técnico Ricardo Gareca, que permanece no comando do selecionado e conta com a mesma boa geração de atletas já habituada ao seu estilo de trabalho. O principal desafio é ajustar os problemas defensivos que apareceram nos últimos amistosos, sobretudo no miolo de zaga.

Cueva e Guerrero seguem como referências técnicas da seleção peruana (Laurence Griffiths/Getty Images)
Cueva e Guerrero seguem como referências técnicas da seleção peruana (Laurence Griffiths/Getty Images)

O time peruano consegue se adaptar a diferentes cenários. O fato de ter o mesmo treinador e vários jogadores trabalhando juntos há quatro anos ajuda. A preferência, porém, passa por ter a posse de bola. Por mais que em jogos contra adversários mais fortes, principalmente Brasil e Argentina, isso seja mais difícil. Com a volta de Guerrero, o jogo direto se fortalece. E ele é utilizado quando o oponente adianta a marcação, mas o Peru consegue propor trocando passes curtos e tem uma série de movimentações padrão para executar bem. A proposta é acumular jogadores pelo centro do campo e deixar a amplitude a cargo dos laterais. Há sempre recuo do meia central ou de Carrillo, ponta pela direita, na linha dos volantes. Uma trinca para trabalhar a bola e acionar o atacante de referência entrelinhas ou os pontas em progressão.

Como o Peru deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)
Como o Peru deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)

Por mais que sejam jogadores de boa técnica, Yotun e Tapia, dupla de volantes que costuma ser titular, têm certa dificuldade num primeiro passe mais agudo. Então Cueva acaba sendo importante quando se aproxima da bola. É com o atual jogador do Santos na base da jogada, que os principais lances são criados. Com a flutuação de Guerrero para a intermediária, o time por vezes perde profundidade nesses ataques de troca de passes curtos. A ideia é que os pontas se projetem por trás da defesa adversária, mas nem sempre isso é feito no tempo correto. Ainda neste campo de profundidade, o lado mais agudo da equipe é sem dúvida o direito. Advíncula segue dando muita força e velocidade pelo setor, e quando ganha a companhia de Carrillo num segundo momento de construção, potencializa isso.

O elenco do Peru para a Copa América (Rodrigo Coutinho)
O elenco do Peru para a Copa América (Rodrigo Coutinho)

Defensivamente, Gareca tem tido problemas com a montagem da última linha defensiva. Trauco segue como titular na lateral-esquerda. Garante ótimos cruzamentos, bola parada de qualidade e passes longos precisos, mas tem dificuldade na abordagem de marcação e no posicionamento. Para completar, o miolo de zaga tem muitas indefinições. Christian Ramos não vive o seu melhor momento, Alberto Rodriguez se aposentou da seleção e Zambrano voltou recentemente de lesão. Santamaría, Miguel Araujo e Callens oscilaram bastante no pós-Copa. A seleção costuma marcar em bloco médio, com algumas subidas de linha de marcação utilizando encaixes e tendo intensidade. Já quando marca mais perto da área, o sistema é zonal, quando cada jogador defende o seu espaço e não faz perseguições fora dele. Neste segundo caso, falta intensidade, o que muitas vezes expõe essa linha defensiva problemática.

Bolívia

Não bastasse ter, ao lado do Catar, o plantel mais limitado da Copa América, a seleção boliviana chega para a competição com um imenso ponto de interrogação sobre a real capacidade do time. Tudo isso porque, mais uma vez, a federação local apresenta problemas para ter continuidade com um treinador. Nos últimos cinco anos, oito técnicos comandaram “La Verde”. O escolhido da vez é Eduardo Villegas, que dirigiu a equipe em apenas três jogos desde que assumiu no início do ano. Ele substituiu o venezuelano César Farias. Difícil acreditar em algo diferente de três derrotas para a Bolívia aqui no Brasil.

Eduardo Villegas é o novo técnico da Bolívia (Photo by Sebastien Salom-Gomis/AFP/Getty Images)
Eduardo Villegas é o novo técnico da Bolívia (Photo by Sebastien Salom-Gomis/AFP/Getty Images)

Nos 270 minutos que pudemos observar do trabalho de Villegas a frente do selecionado, foi bem claro a opção por um time que praticasse o futebol “reativo”. Deixa a bola com o adversário, tenta se defender com linhas compactas, e busca surpreender em contra-ataques. Há, porém, problemas de resolução urgente para que essa estratégia dê certo. O primeiro e mais urgente é fazer a equipe ter regularidade na “pegada” sem a bola. Por vezes os bolivianos conseguem ter intensidade, em outros momentos dão liberdade. E aí a proposta fica seriamente comprometida. Principalmente pela limitação individual da maioria dos defensores. O sistema de coberturas e compensações também não funciona a contento. Alguns erros bem básicos de posicionamento acabam acontecendo. O modelo de marcação é o zonal, onde cada jogador resguarda o seu setor.

Como a Bolívia deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)
Como a Bolívia deve entrar em campo na Copa América (Rodrigo Coutinho)

Na parte ofensiva, aquilo que foi possível acompanhar nesses três jogos, indica ideias que vão um pouco de encontro com o histórico do futebol boliviano. Principalmente atuando na altitude, a Bolívia sempre apostou no “jogo direto”, sem muita elaboração e troca de passes, explorando a velocidade dos atacantes ou um atacante alto jogando na referência. O centroavante continua lá. Marcelo Moreno é inclusive um dos melhores do elenco, mas não é um time de tanta velocidade. A ideia principal então é trabalhar a bola com mais calma. Tem em Chumacero e Raul Castro bons predicados para isso. Até há uma boa ocupação de espaços para trocar passes no campo de ataque, mas a iniciação das jogadas fica comprometida. Falta aos defensores e volantes mais qualidade no passe. Não conseguiu marcar sequer um gol nos jogos sob o comando de Villegas.

Elenco da Bolívia para a Copa América (Rodrigo Coutinho)
Elenco da Bolívia para a Copa América (Rodrigo Coutinho)

A impressão que passa é que o futebol boliviano segue numa bolha e não tem feito parte da globalização e evolução que atingiu até mesmo a Venezuela, mesmo diante dos problemas internos que vive. Para se ter ideia, somente quatro jogadores dos 23 convocados atuam fora da Bolívia. Dois deles no mesmo clube mexicano, e outros dois em centros bem periféricos. Há pouca renovação também. Os únicos destaques jovens deste plantel são o zagueiro Luis Haquin e o lateral-esquerdo Roberto Fernández.

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