Grupo DIS se diz traído por Neymar e vê jogador como exemplo de corrupção

Por Tatiana Ramil
Neymar dá entrevista coletiva na Arena Corinthians em São Paulo 27/03/2017 REUTERS/Paulo Whitaker

Por Tatiana Ramil

SÃO PAULO (Reuters) - O grupo brasileiro de investimento DIS, que move processo contra Neymar e o Barcelona por causa da conturbada transferência do jogador ao clube espanhol, disse nesta quarta-feira que foi traído pelo atacante e que ele não é exemplo para as crianças.

A DIS argumenta que investiu 5 milhões de reais quando Neymar tinha 17 anos para adquirir 40 por cento de seus diretos federativos, mas não recebeu o montante a que teria direito na negociação do Santos com o Barça em 2013.

"A DIS foi traída por Neymar Jr. e seus pais, com o uso de contratos simulados, pagamentos escondidos. A DIS foi vítima de um delito de corrupção privada e estelionato, segundo a lei espanhola", disse o sócio fundador da DIS, Delcir Sonda, em entrevista coletiva em São Paulo.

"Neymar Jr. não pode ser exemplo para nossos filhos. Nosso país está envolvido com uma corrupção imensa... não podemos tolerar. Quero justiça... Vestir uma camisa de Neymar é apoiar a corrupção", completou o empresário, que chorou ao ler uma carta para contar o envolvimento da DIS com Neymar.

O diretor-executivo da DIS, Roberto Moreno, chegou a comparar Neymar com o deputado federal cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso na operação Lava Jato sob acusações de envolvimento num bilionário escândalo de corrupção na Petrobras."Será que é legal a gente dar uma camisa do Cunha para nosso filho? É legal dar uma camisa da Odebrecht? Será que é legal a gente dar uma camisa do Neymar se ele está sendo processado criminalmente?", questionou Moreno.

Em nota, a assessoria de Neymar e sua família informou que não se pronunciaria sobre caso "por enquanto".

O Supremo Tribunal da Espanha reabriu no final de setembro a investigação por suspeita de fraude e corrupção relacionada à transferência de Neymar para o Barcelona em reação a uma apelação do promotor público. Inicialmente, um juiz da corte havia descartado as acusações contra Neymar, seu pai e agente, Neymar da Silva Santos, e dirigentes do Barça e do Santos.

A DIS e a promotoria da Espanha afirmam que a negociação frustrou o direito à livre concorrência, em 2011, quando a empresa N&N Consultoria, de propriedade do pai e da mãe do jogador, Nadine Gonçalves, recebeu do Barcelona 10 milhões de euros antecipadamente pela negociação do atacante, que acabou ocorrendo dois anos depois.

A empresa dos pais do atacante recebeu, no total, o montante de 40 milhões de euros pela transferência, que foi anunciada em 2013 como tendo ocorrida pelo valor de 17,1 milhões de euros, pagos pelo Barça ao Santos, sendo que a DIS ficou com 40 por cento desse valor.

"O que a DIS reclama é aquilo que deveria ter sido pago se a transação fosse regular, e no momento que a transação se operou a multa rescisória do jogador era de 65 milhões de euros, portanto a DIS não quer fazer parte de um negócio que ela julga ter sido feito com base em corrupção entre particulares", disse o advogado da DIS no Brasil, Paulo Nasser.

A DIS pede, ainda, cinco anos de prisão aos envolvidos na ação, e diz confiar que o julgamento na Espanha possa ser marcado em até um ano.

No ano passado, uma fonte ligada a Neymar disse à Reuters que um dos argumentos da defesa é que o jogador não recebeu os 40 milhões de euros, já que não é sócio da empresa N&N Consultoria, criada em 2006, quando ele tinha 14 anos, e que não há livre concorrência no futebol, uma vez que é o atleta que escolhe onde quer trabalhar.

Em junho, o Barcelona concordou em pagar uma multa de 5,5 milhões de euros às autoridades espanholas e disse reconhecer que cometeu erros na forma como lidou com os impostos da contratação de Neymar nos anos fiscais de 2011 e 2013.

As fortes acusações públicas da DIS contra Neymar ocorrem num momento em que o jogador brilha no Barcelona e na seleção brasileira. "O que a DIS está buscando é que a lei seja cumprida de maneira indistinta", declarou o advogado da DIS no Brasil.