Grupo da ‘reconciliação’ abre flanco e põe Assembleia de Deus sob disputa após apoio a Bolsonaro na eleição

“A igreja não é nem de direita nem de esquerda. Ela é do alto”. Com essa mensagem, o líder das Assembleias de Deus no Rio de Janeiro, pastor Celso Brasil, iniciou mais uma roda de conversa e oração de um grupo de evangélicos que se autointitulou Ministério da Reconciliação.

Com uma Bíblia debaixo do braço, ele convocou os cerca de 30 participantes — que se reuniram na última quinta-feira na histórica igreja da denominação em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio — a superarem suas diferenças ideológicas.

— Sabemos que as pessoas ficaram exaltadas em função do pleito, mas já cumprimos nossa missão como cidadãos e brasileiros. Agora estamos aqui com esse objetivo: Cristo nos confiou a palavra da reconciliação, e dela somos embaixadores — pregou o pastor Celso.

O grupo que quer pacificar a relação de pastores e fiéis rachados por divergências ideológicas durante a campanha abre um flanco na igreja que apoiou ostensivamente o presidente Jair Bolsonaro (PL) no pleito. Um de seus líderes mais proeminentes, o pastor Silas Malafaia segue insuflando o acirramento político do país ao atacar o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, e incentivar atos golpistas.

Por outro lado, outra importante referência da denominação — são várias ramificações —, o bispo Abner Ferreira vem orientando seu público nos cultos a não entrar mais em discussões sobre o resultado da disputa que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidente.

As pesquisas de intenção de voto para o segundo turno apontaram o segmento evangélico como uma das bases bolsonaristas no país. Em levantamentos do Datafolha, por exemplo, o atual chefe do Executivo marcou em torno de 60% , enquanto o então candidato do PT ficou no patamar de 30% nesse público.

No Ministério da Reconciliação formado no Rio, participam em maior número os assembleianos, mas evangélicos de outras igrejas também são incentivados a comparecer.

Nas primeiras reuniões, a grande maioria presente era de apoiadores de Bolsonaro — havia ainda alguns fiéis que se definem como de “centro”. Mesmo em minoria, a apoiadora de Lula e missionária Joana Raphael garante que é bem recebida no espaço.

— O Reino de Deus é muito maior do que as disputas terrenas. Quando a gente chegar no céu, Deus não vai perguntar quem é Bolsonaro e quem é Lula — apontou.

Apesar de achar que dificilmente a maioria de seus irmãos de igreja passará a apoiar o governo do PT — por conta do perfil conservador desse público em relação às pautas de costumes —, ela acredita que mesmo os fiéis mais radicalizados vão orar em prol do futuro presidente. E a fé da missionária encontra eco nos pastores bolsonaristas.

Sem pestanejar, o pastor Celso, que é apoiador do candidato derrotado, garante que vai rezar pelo futuro chefe do executivo. O mesmo diz o pastor e vereador de Niterói Fabiano Gonçalves ao puxar uma prece durante o encontro em São Cristóvão.

— Vamos orar pelo país. A despeito de quem está no governo. Toda autoridade é constituída com a permissão do Senhor — discursou Gonçalves com os olhos fechados, enquanto o grupo levantava as mãos em direção aos céus.

Um dos articuladores dos encontros é o antropólogo e fundador da ONG Viva Rio, Rubem César Fernandes. Atuando como espécie de mediador, ele busca dialogar com os religiosos sobre medos difundidos entre eles como o de que a volta do PT representaria a instauração do “comunismo” no Brasil.

Apesar da disposição de baixar a temperatura e aceitar o armistício, alguns evangélicos bolsonaristas ainda se mostram desconfiados com as intenções “do outro lado”.

— O comunismo pode até ter acabado no mundo. Mas o que mais se produz hoje é literatura marxista. Precisamos seguir batalhando porque nossa luta será cada vez mais apertada — retrucou um fiel no encontro.

Enquanto os pastores discursavam no microfone, um dos fiéis checava mensagens num grupo de WhatsApp e comentava uma postagem com ataques a Alexandre de Moraes. Em uma das falas mais aclamadas pelo grupo, o pastor João Neres resumiu o sentimento predominante:

— Não vamos ser hipócritas. A ideologia propagada pela esquerda levou ao nosso despertar e a uma eleição como nunca houve nesse país. Mas a Bíblia diz que o sangue de Cristo reconciliou judeus e árabes. O sangue de Cristo reconcilia vascaíno e flamenguista, os piores inimigos.