'Grêmio foi oportunidade que perdi', lamenta Renato Cajá em bate-papo com o 90min

Fabio Utz
·7 minuto de leitura

Renato Cajá foi um dos nomes de destaque do Juventude na campanha que levou o time gaúcho de volta à Série A do Campeonato Brasileiro. No entanto, optou por trocar de casa e, atualmente, disputa o Campeonato Paulista defendendo as cores da Ferroviária. Aos 36 anos, tem muita história para contar.

Além de passagens por equipes como Grêmio, Botafogo, Ponte Preta, Bahia e Goiás, também reúne algumas aventuras fora do Brasil, tendo jogado na China, no Japão, na Turquia e no futebol árabe. Nesta entrevista exclusiva ao 90min em parceria com a Federação Paulista de Futebol, ele recorda momentos importantes de sua trajetória, arrependimentos, dificuldades e, claro, alegrias e emoções.

O APELIDO "CAJÁ - RELAÇÃO COM A CIDADE DE CJAZEIRAS, ONDE NASCEU?

É que na época em que eu estava no Botafogo, no Flamengo tinha o Renato Abreu e o Renato Augusto, que está na China, e do nada apareceu "Renato Cajá, Renato Cajá". Me chamavam de Renato, até 2009 era Renato. Em 2010, inventaram esse "Renato Cajá" aí e pegou no Botafogo, ficou desde lá.

DIFERENÇAS DA FERROVIÁRIA DE 2006 (PRIMEIRA PASSAGEM) PARA AGORA

O time hoje está bem mais profissional, um time bem mais qualificado. Virou empresa, a Ferroviária está um clube muito organizado, dando condições de estrutura de você poder passar pelo lugar e falar coisas boas do clube. Na época que eu cheguei, o campo era horrível e hoje você vê um tapete o campo, a arena que está, você pensa 'meu Deus, que coisa linda'. Na época que eu cheguei, para você ter noção, não tinha nem cadeira pra sentar. Hoje não. Hoje cada um tem seu armário, cada um tem um vestiário bonito, academia do lado, o departamento médico...o clube se organizou, então está merecendo chegar a lugares melhores.

Atleta tem relação de carinho com a Macaca | Alex Menendez/Getty Images
Atleta tem relação de carinho com a Macaca | Alex Menendez/Getty Images

A RELAÇÃO COM A PONTE PRETA

É a maior torcida do interior, a torcida mais apaixonada que eu vejo no interior. A Ponte Preta peca nessa situação de não ter um título, né. E eu achei que em 2017 o time estava todo armadinho, todo certinho. E tem uma situação...eu estava saindo do hotel, e o presidente chegou para mim: 'E aí, Renato, o que você acha?'. E eu falei: 'Presidente, esse ano vai'. E o time estava muito organizado, meteu 3 aqui no Palmeiras, classificou lá na arena, aí veio o Corinthians, que não estava esse time todo, e mete 3 na gente dentro do Moisés Lucarelli. Aí acabou com o nosso sonho.

O ARREPENDIMENTO DA IDA À ARÁBIA

Eu vou te falar, pra mim foi um dos meus maiores arrependimentos, ter saído para a Arábia Saudita (em 2008, da Ponte). O empresário ligou. 'Olha, tem uns caras aqui da Arábia, tal, tal, se quiser tem que sair agora pra ir pra lá.'. Só deu tempo de eu ligar para a minha esposa: 'E aí, amor, quer ir, como é que vai fazer? Tal, tal, tal, ta'". Do nada assim. Peguei e decidi 'vamos embora'. Mas para mim foi uma das piores decisões minhas, porque era um clube que não pagava ninguém. Sofri muito, fizeram ameaças para mim lá, prenderam meu passaporte, não queriam me deixar sair do país...

A VOLTA AO BRASIL - PARA O GRÊMIO

O Grêmio foi uma oportunidade que eu perdi. Uma oportunidade que eu realmente perdi. O que acontece? Eu voltei da Arábia depois de ficar três meses parado. Eu não podia treinar em clube nenhum porque a Ponte me colocou na Justiça. Aí eu voltei, fiquei parado e resolvi ir para a Coreia do Sul e a gente brigou. A Coreia do Sul deu para trás porque a Ponte me colocou na Justiça bem na hora. Eu estava para fechar esse contrato com a Coreia do Sul. Aí os caras recuaram e eu tive que ficar três meses parado, resolvendo. Aí quando eu cheguei ao Grêmio, o time já estava num alto nível e eu fisicamente voltando. O time do Grêmio era muito bom, era Souza, Tcheco, Réver, Douglas Costa... Eu não consegui jogar. Mas foi uma experiência muito boa, um clube espetacular, um clube de muita estrutura e, de lá, eu fui para o Botafogo.

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A RECORDAÇÃO DO BOTAFOGO

Foi legal, no primeiro ano, em 2010, eu era banco do Lúcio Flávio. O time era bem organizado, não era um grande elenco, mas o time na mão do papai Joel engrenou e foi campeão carioca e da Guanabara seguido. O time tinha perdido três anos seguidos da época do chororô lá do Flamengo e em 2010 a gente quebrou isso aí e o time foi campeão seguido. Em 2011 eu já comecei jogando de titular, já fui o camisa 10 lá. Foi o ano que fiz mais gols, no carioca. Em 2010 eu joguei pouco, só o Brasileiro, mas só entrava. Mas 2011 foi um ano bem melhor, que eu pude ser titular.

FALANDO DO GUANGZHOU EVERGRANDE...

Ele ainda não era uma potência. O time não tinha estrutura nenhuma, treinava na praça, treinava no campo da praça, não tinha vestiário, levava muda de roupa. Os caras não deram carro pra gente, ia um motorista nos buscar e levava a gente. Foi num primeiro jogo meu de titular assim, o campo encharcado, o time empatando em 1 a 1, o cara me tira aos 25 minutos do primeiro tempo. Eu nunca tinha vivido isso, aqui no Brasil eu não saía assim, né. Só que lá para eles é normal. O cara vai, dá uma louca nele, tira. O cara era coreano, batia em todo mundo, queria pegar na orelha dos caras, batia nas costas... O jogador errava um passe, e ele chamava o cara e dava um tapa. Era maluco, era maluco. Eu saí, fui direto para o vestiário. Do vestiário nem fiquei no estádio, fui embora direto para casa. Aí no outro dia o presidente veio conversar comigo: 'Vou te multar'. Aí eles me deixaram uma semana treinando com o time da base, o sub-20 lá. Os caras fizeram de propósito, fizeram para me amassar. Parecia que eu estava no exército. Fazia uns treinamentos de exército. Uns caras malucos, doidos, me trancaram no hotel, comida horrível, a molecada, ninguém falava comigo, só chinês. Foi uma semana assim. Para você ter uma noção, uma semana que eu fiquei separado do elenco, chegou o final de semana e eu jogo de titular na equipe. Era loucura, os caras fizeram só pra me 'pirraçar'.

Cajá tem longa história de vínculo com a Ponte | Ricardo Nogueira/Getty Images
Cajá tem longa história de vínculo com a Ponte | Ricardo Nogueira/Getty Images

E O KASHIMA

Cara, o Kashima Antlers é um clube espetacular. Um lugar muito bom de trabalhar. É um Brasil dentro do Japão. Um clube brasileiro dentro do Japão. Chega lá e fala 'Zico" e eles batem continência.

JOGAR NO BAHIA DEPOIS DE GOLEADAS COM O VITÓRIA

No Vitória eu tive uma passagem muito especial, mas você chega no Bahia, o clima no Bahia é outro. A torcida te abraça, é algo bem legal. O clube montou uma equipe bem forte pra subir também. O ano começou difícil, mas o time foi engrenando, foi buscando e conseguiu o acesso.

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A FERROVIÁRIA E O PROTAGONISMO DO FUTEBOL FEMININO

É um clube que dá uma estrutura gigantesca para as meninas, é bom que a Ferroviária está assim. Há clubes grandes que não têm um elenco que a Ferroviária tem, pra ser campeã da Libertadores. A Ferroviária dá muita ênfase nisso, trabalha muito bem elas, então está de parabéns. Espero que elas cresçam mais, mais jogadoras na seleção e que a Ferroviária possa ser referencial no futebol feminino também.

OS MELHORES PARCEIROS DE CAJÁ

Eu vou ficar com o Jefferson, do Botafogo. Réver na zaga, o Leo Silva... De lateral-esquerdo eu vou colocar o Fábio Santos. Lateral-direito eu vou colocar o Edilson. Vou colocar o Elias como primeiro no meio, eu e Souza, que jogou no São Paulo. No ataque, Jonas, Loco Abreu e Maicosuel. (Guto Ferreira de treinador)

Meia viveu boa fase no Botafogo | Buda Mendes/Getty Images
Meia viveu boa fase no Botafogo | Buda Mendes/Getty Images

O MAIOR ARREPENDIMENTO

Meu arrependimento foi de não ter assinado com o São Paulo em 2008. Tem um arrependimentozinho de não poder ter jogado na capital.