GP de SP bate recorde de público na pandemia e vira propaganda política

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio à pandemia de Covid-19, que já deixou mais de 611 mil mortos no país, o GP de São Paulo registrou recorde de público com a presença de 181.711 espectadores ao longo dos três dias de evento, de sexta (12) a domingo (14). A informação foi divulgada pela organização da prova.

Na edição anterior, a de 2019, o autódromo de Interlagos havia recebido público total de 158.213, contabilizando também os três dias de provas. O recorde até então havia sido registrado em 2001.

Naquela temporada, diante da presença de 174 mil pessoas, a principal categoria do automobilismo reunia quatro pilotos brasileiros: Tarso Marques, Luciano Burti, Rubens Barrichello e Enrique Bernoldi.

Não há um número oficial dos presentes em cada um dos três dias de GP. Com capacidade para 60 mil pessoas, o autódromo na zona sul da capital paulista, com arquibancadas lotadas neste domingo, se tornou o evento esportivo com o maior número de pessoas no estado durante a pandemia.

Antes, a marca pertencia ao duelo entre Corinthians e Chapecoense na Neo Química Arena, no último dia 1º, pelo Campeonato Brasileiro, com 39.734 torcedores pagantes. O dia do jogo coincidiu com a autorização para estádios receberem sua capacidade máxima de público no estado.

Pela mesma competição, o jogo entre Alético-MG e América, em Belo Horizonte, no último domingo (7), reuniu 60.142 pagantes no Mineirão.

Em uma das corridas mais emocionantes da F1, na qual o piloto inglês Lewis Hamilton, da Mercedes, mostrou poder de reação para sair com a vitória e encostar no líder Max Verstappen, da Red Bull, o público pôde matar a saudade da modalidade. Em 2020, a etapa brasileira foi cancelada em razão da pandemia de coronavírus.

"Esse é o primeiro grande evento em São Paulo, praticamente, em dois anos, que nós estávamos promovendo junto à F1", afirmou o governador João Doria (PSDB), assim que chegou em Interlagos neste domingo.

O público só pôde entrar no autódromo com o comprovante de vacinação (duas doses ou dose única). Para quem tomou apenas uma dose, foi preciso apresentar teste negativo (inclusive crianças de 5 a 12 anos), sendo obrigatório o tipo antígeno, realizado até 24 horas antes de cada acesso ao autódromo, ou o exame RT-PCR, realizado até 48 horas antes de cada acesso.

Ao menos quatro tendas ofereciam a testagem nos arredores do autódromo -o exame de antígeno por um custo de R$ 80 e o RT-PCR, a R$ 280. Este último é acompanhado de um laudo e foi o preferido dos estrangeiros que, após a corrida, fariam viagens de avião para retornar aos respectivos países.

O uso de máscara era obrigatório, com flexibilização apenas durante as refeições. No entanto, houve quem ignorou a exigência em todas as circunstâncias.

O italiano Stefano Domenicali, chefe da FOM (Formula One Management), braço comercial da F1, revelou, em Interlagos, que a realização do GP esteve ameaçada e só foi confirmada em julho deste ano.

"Eu não esqueci que tivemos que tomar uma decisão muito complicada em julho, e o governador [João Doria] nos garantiu que a cidade estaria pronta para receber um grande público. Só assim conseguimos bater o martelo", afirmou Domenicali. "Há tanta energia em Interlagos, é possível sentir isso em cada canto do autódromo."

O encanto do italiano com o GP de São Paulo caiu como uma luva para o governador João Doria (PSDB), que tem se aproveitado da renovação de contrato assinada pela prefeitura com a FOM para garantir a permanência da principal categoria do automobilismo no Brasil pelos próximos dez anos.

O atual acordo entre a prefeitura e o braço comercial da F1 engloba as temporadas de 2021 a 2025, com possibilidade de renovação por mais cinco anos.

Antes isenta da taxa de promoter (fee), a Prefeitura teve que pagar à FOM no novo contrato US$ 25 milhões (R$ 138 milhões) por cada edição do GP. Desse valor, o governo estadual se comprometeu em depositar US$ 10 milhões (R$ 55 milhões). Em contrapartida, recebeu quatro placas de publicidade em Interlagos, e conseguiu embolsar R$ 18 milhões com a venda de três delas para grupos empresariais.

O Rio de Janeiro, com o empenho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), chegou a demonstrar interesse por sediar a corrida da categoria.

O consórcio Rio Motorsports inclusive fez uma proposta à FOM, mas quem fechou o negócio, no final das contas, foi a cidade paulista.

"Contrariei o presidente da República, e a F1 estará em São Paulo", disse Doria na última quarta-feira (10), no Palácio dos Bandeirantes. Horas antes de a prova começar neste domingo, o tucano voltou a alfinetar Bolsonaro. "Aqui no autódromo de Interlagos só podem entrar pessoas vacinadas e o presidente da República do Brasil, como sabem, não está."

A prefeitura também capitalizou com o evento ao propagandear sua campanha de imunização. Segundo o prefeito Ricardo Nunes (MDB), ao menos 96% da população paulistana acima de 18 anos recebeu a segunda dose.

Funcionários com uniforme da prefeitura circulavam pela região do autódromo com um pequeno cartaz e a seguinte frase: "São Paulo, a capital mundial da vacina".

Como forma de justificar o uso do dinheiro público para patrocinar a realização do GP de São Paulo, governador e prefeito dizem que é um dos eventos mais rentáveis para a capital --à frente, por exemplo, do Carnaval.

No entanto, ainda não está claro o tamanho dessa receita. Na quarta, Doria havia dito que seria de R$ 810 milhões. Neste domingo, ele subiu o valor para R$ 1 bilhão. Segundo o tucano, a FGV deverá auditar e apresentar esses dados nos próximos dias.

Já a prefeitura, além de pagar a maior parte do fee --US$ 15 milhões (R$ 83 milhões)--, repassará anualmente R$ 20 milhões à promotora da F1 em Interlagos, a MC Brazil Motorsport Holding. É ela quem se responsabiliza pela montagem da estrutura e organização da corrida.

Ainda para o GP deste ano, a gestão municipal gastou mais R$ 10 milhões para reparos em Interlagos.

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