Golpes entre parentes, ícone fashion e mistério: conheça a família real do Catar

Comandando a primeira Copa do Mundo num país árabe, a família real do Catar atua de maneira contundente na organização do evento desde a escolha – envolta em controvérsias – do pequeno país como sede da competição. A dinastia Al Thani, que governa o país desde 1825, é extensa. Estimativas dizem que sejam pelo menos 8 mil membros.

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O atual líder do país é o xeque Tamim bin Hamad Al Thani. O emir – título similar a comandante ou líder de um emirado – governa o país desde junho de 2013, após seu pai, xeque Hamad bin Khalifa Al Thani, ter abdicado em prol do filho. Ele tinha 33 anos quando assumiu o trono, mas foi escolhido pelo pai como príncipe herdeiro ainda aos 23.

Originalmente, o sucessor de Hamad era Jassim bin Hamad bin Khalifa Al-Thani, dois anos mais velho que o irmão, mas que abriu caminho ao abdicar do cargo.

Segundo filho do ex-emir com sua segunda esposa, Mozah, Tamin era subcomandante das Forças Armadas e presidente do Comitê Olímpico Internacional Local, entidade responsável pela organização da Copa do Mundo de 2022.

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Hoje com 42 anos, ele se casou três vezes e tem onze filhos. A primeira de suas esposas é sua prima de segundo grau, como determina a tradição do país de que o primeiro casamento seja entre parentes. Ele estudou em escolas particulares no Reino Unido e fez treinamento militar em Sandhurst, na Inglaterra.

Golpes e assassinatos

A chegada do atual emir foi mais, digamos, "pacífica" do que a dos líderes anteriores. Na época da posse de Hamad, a revista britânica "The Economist" listou a queda dos monarcas anteriores, desde a década de 1950: todos os 11 líderes foram derrubados, em golpes ou assassinatos, por sobrinhos, primos e até filhos.

Um levantamento feito pelo jornal chinês "South China Morning Post" apontou que a dinastia catári é a terceira mais rica do mundo, perdendo apenas para a família real da Arábia Saudita e do Kuwait: a fortuna estimada dos Al Thani é de US$ 335 bilhões, o que inclui riquezas a partir das abundantes reservas de petróleo e gás natural do país e também investimentos no exterior, como no arranha-céu Empire State Building, em Nova York, e na montadora Volkswagen. Além disso, a família é dona das grifes Valentino e Balmain.

Paixão por esporte

A posse do emir, um apaixonado por esportes, fortaleceu o processo do país de limpar a própria imagem através de diferentes modalidades, com ênfase no futebol. Em 2010, três anos antes da posse de Tamim, o Catar foi escolhido como cidade-sede da competição. No ano seguinte, a Qatar Sports Investments, comandada pelo atual líder, comprou por 50 milhões de euros o Paris Saint-Germain. Depois disso, o fundo de investimentos e a companhia aérea Qatar Airways se tornaram patrocinadoras de grandes clubes, como o Barcelona e o Bayern de Munique.

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De 2004 até agora, o país sediou 24 eventos esportivos regionais e internacionais, incluindo o Mundial, e sem contar provas de automobilismo, como MotoGP e Fórmula 1.

Ícone fashion e militante da educação

Mãe do emir, a xeica Mozah bint Nasser al-Missned é o rosto feminino mais conhecido da realeza do país. Aos 61 anos, a segunda esposa do ex-líder Hamad bin Khalifa Al Thani chama a atenção da mídia pela elegância e carisma e é vista mundialmente como um ícone de estilo do país árabe. Mas não apenas isso.

Segundo a versão árabe da revista "Vogue", Mozah é "reconhecida por seu senso de moda impecável". Fervorosa colecionadora de itens da grife francesa Chanel, a xeica costuma usar peças de alta costura assinadas por marcas como Dior, Jean Paul Gaultier e Yves Saint Laurent.

Formada em Sociologia pela Universidade do Catar, Mozah figurou como uma das mulheres mais poderosas do mundo pela "Forbes" em 2010. Mãe de sete filhos, ela é engajada em projetos de educação e desenvolvimento social mundo a fora e é Enviada Especial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) para a Educação Básica e Superior.

Irmão influente

Apesar de ter abdicado do posto de príncipe herdeiro, o sheikh Jassim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, um dos irmãos mais velhos do emir Tamin, é homem influente no governo catari. O pedido de proibição da venda de bebidas alcoólicas nos perímetros dos estádios durante a Copa, por exemplo, teria partido dele, que é considerado o membro da realeza mais ativo no planejamento do torneio.

Terceiro filho mais velho do ex-emir, Jassim integrou as forças armadas do país, como segundo-tenente. Aos 44 anos, ele é casado com uma prima e tem oito filhos.

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Atualmente, ele preside a Sociedade Nacional do Câncer do Catar (QNCS, na sigla em inglês) e do Conselho Supremo do Meio Ambiente e Recursos Naturais do país.

'Prima' montanhista

Membro da família real catári, Asma Al Thani é diretora de Marketing e Comunicações do Comitê Olímpico do Catar, mas é como montanhista que coleciona recordes: aos 33 anos, foi a primeira mulher do país a escalar o monte Everest, pico mais alto do mundo, em maio deste ano. Na ocasião, a Al Rihla, bola oficial da Copa de 2022, foi levada ao topo da montanha junto com ela.

A meta de Asma é se tornar a primeira mulher do país a completar o Explorers Grand Slam (escalando os Sete Cumes e alcançando o Pólo Norte e Pólo Sul) e escalar os 14 picos mais altos do mundo. Por enquanto, ela já alcançou outros grandes picos, como Monte Lhotse, K2 e Manaslu, ambos parte da Cordilheira do Himalaia, além de ter sido a primeira catári a esquiar até o Pólo Norte.

Ex-princesa morreu na Espanha

Ex-mulher de Abdelaziz bin Khalifa Al Thani, tio do emir Tamim, Kasia Gallanio, de 45 anos, foi encontrada morta no fim de maio na casa em que morava, em Marbella, na Espanha. Ela travava uma dura batalha judicial de dez anos com o ex-marido pela guarda das três filhas, "em um contexto de acusações de cunho sexual incestuoso", segundo informou, na época, o jornal francês Le Parisien.

De acordo com a publicação, uma das filhas do casal denunciou em meados de abril ter sido vítima de agressão sexual por parte do pai quando tinha entre 9 e 15 anos, acusações que o xeque do Catar nega, mas que levaram o Procuradoria francesa a abrir um inquérito.

Com dupla nacionalidade americana e polonesa, a morte da ex-princesa é envolta em nebulosidade. Os primeiros dados sugeriram que Kasia morreu por overdose de drogas. Dias depois, um relatório da polícia espanhola, divulgado pelo jornal "El Mundo", informou que garrafas vazias de vodca, remédios para tratar de alcoolismo e antidepressivos foram encontrados no banheiro da ex-princesa.

Dentro da luxuosa cobertura em Playa del Duque, onde Kasia morava, policiais e bombeiros encontraram ainda sangue e restos mortais nas escadas e nas plantas. Segundo o relatório produzido pelo Instituto de Medicina Legal de Málaga, Kasia também apresentava hematomas nos ombros, cuja causa ainda é desconhecida.

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Uma autópsia preliminar apontou para uma parada cardiorrespiratória como causa da morte, mas as autoridades locais aguardam os resultados do estudo toxicológico para chegar a uma conclusão definitiva sobre a causa da morte.

Nas redes sociais, ela costumava criticar o príncipe, chamando o de "bravo, ciumento ou rancoroso", e o acusando de não pagar "um centavo de pensão alimentícia há mais de um ano para ajudar a sustentar e criar nossas filhas".