Goleiro olímpico, Santos venceu a fome e o frio para se tornar jogador de futebol

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MACEIÓ, AL (FOLHAPRESS) - Eram 5h30 da manhã e Santos, ainda adolescente, já estava pronto para ir treinar. Tinha o dinheiro da passagem no bolso, um lanche para passar o dia e a vontade de se tornar jogador de futebol. Ele saía de Cabaceiras para Campina Grande. Mais de 130 quilômetros por dia. Às vezes, com fome na ida ou na volta, ignorando os roncos da barriga para seguir em frente. O treino era às 13h, sob sol forte.

Ao deitar a cabeça para sonhar, ainda dentro do transporte, ele imaginava que se tornaria um grande jogador. Àquela altura, aos 14 anos, já tinha passado por muita coisa.

"Eu sou o mais novo de oito. Meus irmãos e eu ajudávamos o meu pai nas plantações. Eu não pegava tanto no pesado por conta da idade, mas sempre soube o quanto o meu pai e a minha mãe se esforçaram para me dar as melhores condições que poderiam. Eu queria ser jogador e fui atrás do meu sonho", conta o goleiro à reportagem.

O sonho obrigou Santos a sair de casa muito cedo. Ele foi a Caruaru, em Pernambuco, para jogar no Porto, em 2006. A trajetória se assemelhava à do goleiro Dida, à época na seleção brasileira, nascido na Bahia e criado em Lagoa da Canoa, no interior de Alagoas.

"Sempre me inspirei muito no Dida. Ele sempre teve um posicionamento muito bom dentro de campo, pegava pênaltis e era um grande goleiro. Gostava muito do Taffarel também, embora o tivesse visto menos", disse.

Santos só ficou dois anos no Porto. Após uma boa Copa São Paulo de Juniores em 2008, ele foi visto pelo Athletico e levado a Curitiba. "Era tudo ou nada", lembra.

Longe de Severino e Amara, os pais, Santos encarou o frio da cidade, muito diferente daquele calor das 13h nos treinos em Campina Grande. Com paciência, estreou como profissional no Athletico em 2011 e soube aproveitar as oportunidades até se tornar titular absoluto em 2018, com a saída de Weverton-- campeão olímpico em 2016-- para o Palmeiras.

"Weverton e eu convivemos muito tempo. Temos essa história com o Athletico e agora com a Olimpíada. Ele jogava aqui na época, e eu sempre observava. Foi também a época em que eu consegui me mostrar como o goleiro que merecia a vaga quando ele saísse. Ele me ajudou a crescer, e devo muita coisa a ele. Até preciso pedir umas dicas sobre a Olimpíada. Ele é um campeão e sabe como é uma competição assim."

A primeira convocação de Santos para a seleção brasileira veio em 2019, para os amistosos contra Senegal e Nigéria. No dia 14 de maio de 2021, ele obteve uma das maiores conquistas da carreira: o nome na lista final para a Olimpíada de Tóquio. Por telefone, o goleiro falou com a mulher Franciane e com as filhas Isabela e Manuela.

"Liguei primeiro para elas só para ver a reação, né? Eu estava treinando na hora em que saiu a lista. Já no fim do treino, fiquei sabendo e liguei. Depois, falei com os meus pais, e é bom ver o quanto eles ficam felizes. A alegria deles é uma alegria humilde, de simplicidade e de orgulho. Acho que nem eles imaginavam que eu estaria aqui, indo para uma competição dessas", afirma.

Aos 31 anos, o goleiro do Brasil sorri ao revisitar alguns momentos de sua história. Não só por tudo o que passou, como as brincadeiras com os amigos de infância ou os perrengues que hoje parecem distantes, mas por saber que também é exemplo a cada vez que entra em campo. "Acredito que as pessoas precisam ver o que somos em nossa capacidade e não de onde viemos. Quando entro em campo e estou jogando, eu penso nas crianças que me veem. Atletas em geral são exemplos e penso muito nisso em cada jogo ou quando falo sobre mim. Hoje posso proporcionar aos meus pais o conforto, estou em um dos maiores clubes do mundo e defendo minha seleção", sorri.

Santos apostou todo o seu esforço em dar certo como jogador, e sua aposta foi premiada.

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