Gol há 70 anos virou marcha que marcou época de ouro do Corinthians

MARCOS GUEDES
Folhapress
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 10.02.2006: Baltazar no memorial do Corinthians. (Foto Fernando Santos/Folhapress)
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 10.02.2006: Baltazar no memorial do Corinthians. (Foto Fernando Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Alfredo Borba (1926-2012) estava no Pacaembu em 22 de janeiro de 1950, há 70 anos. O compositor viu o cabeceio de Baltazar que definiu a vitória do Corinthians sobre o Vasco e, entre a euforia pelo triunfo e a admiração pelo artilheiro, deixou o estádio com uma ideia para uma música.

"Gol de Baltazar, gol de Baltazar, salta o Cabecinha, um a zero no placar", diz o refrão da marchinha, que foi gravada pela cantora Elza Laranjeira (1925-1986) e virou símbolo de uma era das mais vitoriosas da trajetória alvinegra.

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Na primeira metade dos anos 50, época anterior ao Campeonato Brasileiro, o Corinthians ganhou três edições do Campeonato Paulista e três do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Rio-São Paulo. Levou também a Pequena Taça do Mundo, que não é tratada com grande importância histórica, mas serve para mostrar a força daquele time: em dois duelos com o Barcelona e em outros dois com a Roma, o aproveitamento foi total.

O marco inicial do reinado pode ser considerada a jornada em que Alfredo Borba viu o famoso "gol de Baltazar". Ao derrubar o então invicto Vasco e assumir a liderança, a equipe do Parque São Jorge arrancou para a conquista do Rio-São Paulo e uma sequência de troféus.

Naquela tarde chuvosa, o Corinthians não saiu na frente, como sugere a marchinha. Terminou o primeiro tempo em desvantagem, construída em chute de Tesourinha, empatou em cobrança de pênalti de Cláudio e buscou a virada aos 23 minutos do segundo tempo.

"Noronha, depois de lutar com Eli e Augusto, centrou a pelota com violência. Esta, desviada por Jorge, foi aos pés de Cláudio, que imediatamente centrou para a área. Jorge e Augusto saltaram, mas não conseguiram apanhar a pelota. Esta caiu na área, onde estava Baltazar, que, com um mergulho espetacular, mandou-a para o fundo das redes", relatou a Folha da Manhã.

Já a revista Esporte Ilustrado aclamou um novo herói: "Sim, aí está Baltazar, o 'Rei das Cabeçadas'".

O centroavante era realmente muito bom nas disputas pelo alto. Dos 269 gols que marcou, ao menos 71, na contagem do historiador Celso Unzelte, foram de cabeça. Daí o apelido Cabecinha de Ouro.

"Nunca fui muito bom com os pés", confessou várias vezes o atacante, que morreu em 1997, aos 71 anos. "Mas com a cabeça nem Pelé foi melhor do que eu", assegurava.

Ídolo da infância do próprio Pelé, que comemorou muitos gols de Baltazar no jogo de botão, o camisa nove era o artilheiro de um time que tinha vocação para ir à rede. Na conquista do Paulista de 1951, a equipe superou a marca dos cem gols em 28 jogos, e o centroavante chegou a marcar cinco vezes na vitória por 7 a 2 sobre o Juventus.

Ele contava com a ajuda de ótimos companheiros, em uma combinação que sempre funcionou aos olhos da Fiel.

Havia jogadores com a raça que a torcida tanto ama, como Idário, Homero, Olavo e Julião. Eles formavam uma forte linha de defesa e tinham a proteção do classudo Roberto Belangero --centromédio que hoje seria chamado de volante, mas jamais considerado um brucutu.

Esse grupo dava a sustentação para que Cláudio, Luizinho e Baltazar -tão importantes que até hoje estão no Parque São Jorge, em forma de busto-- resolvessem os jogos na frente. E havia um particular entrosamento entre o ponta-direita e o centroavante.

"O Baltazar ajudava muito, foi um jogador excepcional, um dos poucos cabeceadores que procuravam a bola. Ele não esperava a bola chegar à cabeça", afirmou Cláudio, em depoimento ao livro "Coração Corinthiano" (1992), de Lourenço Diaféria.

"De centro, de escanteio, eu também já sabia onde ele gostava do lançamento: na esquerda, atrás do beque central. Eu centrava, ele pulava e cumprimentava, fulminava. No escanteio, o Baltazar saía da grande área. Quando ela estava chegando, na direção da marca do pênalti, ele estava chegando junto. De braços abertos, dava a cabeçada. Dificilmente errava", acrescentou o Gerente, como era chamado.

A parceria funcionou justamente naquela tarde chuvosa no Pacaembu, que tinha em Alfredo Borba um de seus 54.429 pagantes. O relato, um tanto romanceado, fica novamente sob responsabilidade de Diaféria e de seu "Coração Corinthiano".

"O centroavante Baltazar veio lá de trás, de fora da área, correndo, subiu, como um anjo negro, abriu os dois braços, sua cabeça fez a bola mudar de direção em 90 graus. Indefensável. A torcida se levanta. Borba está cantando, sem quase perceber... 'Gol de Baltazar, gol de Baltazar'. Nasceu ali a marcha, como um foguete espocando no céu."

A verve criativa do cronista alvinegro Lourenço Diaféria não muda o fato de que Borba, de fato, contava que a ideia da marchinha surgiu naquela partida. Ele depois completaria o time, usando a base do Corinthians campeão paulista de 1951 e 1952.

"O Mosqueteiro ninguém pode derrotar, Carbone é o artilheiro espetacular; Cláudio, Luizinho e Mário; Julião, Roberto e Idário; Homero, Olavo e Gylmar; são os 11 craques que São Paulo vai consagrar", dizia a canção, antes de voltar ao cruzamento de Cláudio e chegar ao clímax: "Gol de Baltazar!".

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