Gerson quer ser voz ativa contra racismo, mas não quer mais falar sobre Ramírez

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após fazer uma denúncia de racismo contra Juan Ramírez, do Bahia , em uma entrevista ao vivo após o jogo do último domingo (20), e depor na delegacia de Crimes Raciais do Rio de Janeiro, Gerson, do Flamengo, não quer mais falar sobre esse caso. "Quem quiser ver, entra no YouTube", diz ele ao canal virtual do clube, a Fla TV. Gerson acusa Ramírez de ter dito "cala a boca, negro" durante confronto pelo Campeonato Brasileiro. Ele move ações contra o jogador colombiano na Justiça desportiva e também na criminal, na qual um inquérito foi instaurado para apurar o caso. O atleta do Bahia, por sua vez, foi afastado do clube temporariamente, mas nega as acusações. Afirma que não entende português e que no momento da confusão havia pedido que os atletas cariocas jogassem com seriedade. Disse, ainda, que também foi chamado de "gringo de merda". Gerson pretende não falar mais sobre o caso, mas não pretende ficar calado. "Já tomei todas as medidas. Espero ser uma das vozes ativas no mundo para que aquelas pessoas que às vezes se sintam acuadas e precisarem de uma ajuda minha, de um apoio meu para poder falar, ir à delegacia, prestar queixa. Eu estou à total disposição", afirmou. Ele disse ainda que não falou nada sobre o assunto para a filha de quatro anos, que não estava assistindo ao jogo no momento. Também contou que espera que sua denúncia pode ajudar seus familiares a não sofrerem o que ele sofreu. "Em pleno século 21, a gente não pode ver essas coisas. Pandemia, tantas outras coisas, famílias sofrendo, perdendo familiares e amigos, e a gente tendo que lidar com coisas assim. Acho que as pessoas tem que pensar... já falei tudo que tinha pra falar e fiz tudo que tinha pra fazer. Espero nunca mais passar por isso", completa. No inquérito policial também serão ouvidos o ex-treinador do Bahia, Mano Menezes, demitido após o jogo e acusado de ter sido conivente com a suposta injuria racial, e o árbitro da partida, que relatou a acusação na súmula, mas não testemunhou o fato. Segundo o vice-presidente jurídico do Flamengo, Rodrigo Dunshee, uma perícia de leitura labial contratada pelo clube identificou uma injúria racial por parte de Ramírez, mas direcionada a Bruno Henrique. Luis Felipe Ramos Barroso, Felipe Oliver e Mikel Vidal, especialistas em leitura labial consultados pelo GloboEsporte.com, afirmam que Ramírez diz a Bruno Henrique o seguinte: "Está falando muito, seu negro." Vidal é filho de colombianos e tem experiência em perícia na língua espanhola. Todos os especialistas ouvidos pelo site trabalham como tradutores no Ines, e Barroso acrescenta que Bruno Henrique também ofende Ramírez, ao chamá-lo de "gringo de merda" na discussão. A assessoria de Bruno Henrique afirma que o atacante não ouviu a ofensa de Ramírez. Presidente do Bahia, clube que se consolidou nos últimos anos, Guilherme Bellintani afirmou ao jornal Folha de S.Paulo ter visto mais de uma hora de gravações da partida e que as imagens são inconclusivas. "Não tenho dúvida de que a afirmação de Gerson é verdadeira, ele de fato ouviu aquilo, não tenho nenhuma dúvida. A dúvida é se Ramírez falou." O clube nordestino explicou em nota, publicada na noite de terça, que contratará uma perícia para apurar os supostos episódios de racismo e xenofobia dentro de campo.