Gays devem aceitar cultura do Qatar, diz organizador da Copa

ALEX SABINO
Folhapress
(Foto: Getty Images)
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DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - Hassan Al Thawadi, 41, parece estar pronto para qualquer pergunta. Secretário-geral do Comitê para Execução e Legado do Mundial de 2022, no Qatar, ele não espera nem um segundo para responder a cada questionamento.

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Talvez isso aconteça porque ele já tenha ouvido essas perguntas mais de uma vez. As dúvidas sobre a próxima Copa do Mundo continuam as mesmas: direitos humanos, capacidade do país de sediar o megaevento, como a cultura muçulmana vai receber torcidas de 31 países (além da nação sede), como pessoas LGBT serão tratadas".

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Advogado formado na Universidade de Sheffield, no Reino Unido, Al Thawadi é conselheiro do emir, o xeque Mohammed bin Hamad Al Thani, e responsável pelo órgão com orçamento de US$ 7 bilhões (R$ 28 bilhões) que terá de entregar oito estádios e dezenas de obras de infraestrutura pra viabilizar o torneio.

No dia 21 de dezembro, horas antes da final do Mundial de Clubes, entre Liverpool (ING) e Flamengo, em Doha, ele recebeu um grupo de sete jornalistas ocidentais.

PREPARATIVOS

Segundo o secretário-geral, o plano apresentado à Fifa em 2009 tem sido cumprido. Ele afirma que, um ano antes do início do torneio, os oito estádios estarão finalizados.

"Estamos prontos como esperávamos estar em 2019. Temos três estádios prontos, mais três ficarão em 2020 e mais dois em 2021", disse.

Das oito arenas planejadas, apenas o Khalifa International Stadium, onde o Liverpool derrotou o Flamengo, será preservado com a capacidade máxima. Os demais, após a Copa, serão reduzidos, porque não há demanda na liga nacional. O material retirado será doado para países em desenvolvimento ou usado em outros projetos no Qatar.

EMBARGO

Al Thawadi nega que o embargo (que ele chama de "bloqueio ilegal") sofrido pelo Qatar atrapalhe os preparativos para a Copa. A Fifa trabalha para acabar com as restrições impostas por Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein, Omã e Egito à nação sede do Mundial de 2022. A entidade crê que isso pode restringir a circulação de torcedores.

"Creio que viver em um bloqueio ilegal não é desejado. Mas nos últimos dois anos crescemos apesar do bloqueio. Sediamos o Mundial de Clubes, que recebeu torcedores de diferentes países. Antes tivemos a Copa do Golfo e recebemos fãs de todas as nações participantes, o que é uma mostra do poder do futebol de unir as pessoas", disse.

Em outubro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu com o emir e fechou acordo para compartilhar informações sobre a organização do torneio, que o Brasil sediou em 2014. Mas Al Thawadi não está certo sobre o que pode ser oferecido.

"O Brasil é uma nação esportiva. Não sei os detalhes da conversa [entre Bolsonaro e o emir]. Creio que teremos discussões sobre isso. Temos muito a aprender com o Brasil e queremos levar essas conversas adiante."

DIREITO TRABALHISTA

Uma das maiores críticas ao Qatar, desde o momento em que foi escolhido pela Fifa para sediar a competição, em 2010, é a situação dos trabalhadores imigrantes na construção. Há denúncias de jornadas exaustivas, condições precárias e pagamentos abaixo do mínimo estabelecido no país.

Há também a "khafala", denominação para a lei qatari segundo a qual o trabalhador estrangeiro só pode mudar de emprego se o dono da empresa que ele deseja deixar faça uma carta o liberando. Para ONGs de direitos humanos, a prática deixa milhares de trabalhadores em situação análoga à escravidão.

Al Thawadi afirma que desde 2009 a legislação do Qatar evoluiu, mas a "khafala" não foi abolida de maneira formal.

"A Copa do Mundo é catalisadora para mudanças positivas. Nos últimos dez anos, alterações significativas que aconteceram nas condições de trabalho fizeram nossos maiores críticos reconhecerem o comprometimento do Qatar e as mudanças que aconteceram", disse.

Segundo o secretário-geral, o comitê criou um fundo para reembolsar taxas que os trabalhadores pagam a agências para conseguir empregos no país. "Reembolsamos cerca de US$ 30 milhões [R$ 120 milhões] para 82% da força de trabalho e 18 mil desses trabalhadores não estão em obras da Copa do Mundo. Temos muito a fazer, mas ninguém pode negar nosso comprometimento com mudanças."

TORCEDORES GAYS

Al Thawadi afirma que todos os visitantes, a não ser os violentos, serão bem recebidos no Qatar, mas espera que eles também entendam e aceitem os costumes do país.

"Nós trabalhamos muito duro para educar as pessoas sobre a nossa cultura, que é conservadora progressiva. Há uma lista de regras que não são exclusivas do Qatar e são adotadas por uma porção do globo. Nós pedimos aos visitantes que apreciem e respeitem a nossa cultura. Ao mesmo tempo, que aproveitem a hospitalidade que oferecemos. Nem todos partilham dos mesmos valores, temos diferentes estilos de vida e há riqueza nisso. A paixão pelo futebol pode mostrar que podemos nos respeitar, é isso o que pedimos", afirmou.

"Exibições públicas de afeto, seja entre homem e mulher ou de outros casais, não fazem parte da nossa cultura, e pedimos que as pessoas respeitem isso. Não mostrem isso em público. Não estamos dizendo que não sejam elas mesmas. Mas é importante que tenham mente aberta, que aproveitem o diferente e não foquem o negativo."

TURISMO

A Copa de 2022 está inserida em plano de desenvolvimento do Qatar. Até 2030, o país pretende diversificar sua economia, que hoje depende basicamente de petróleo e gás natural. A estratégia é torná-lo um polo turístico.

Para o secretário-geral, o torneio deve servir para acabar com estereótipos que as pessoas possam ter a respeito do mundo árabe.

"A Copa do Mundo não é exclusiva de uma região. É um evento de todos, global. E todos têm o desejo de sediá-la e deveriam ter esse direito. Nós queremos fazer isso para o mundo árabe. Não creio que seja bom querer impor uma cultura sobre outra. Vocês viram o que Mohamed Salah conseguiu fazer em Liverpool a respeito da cultura muçulmana? Isso é quebrar estereótipo. É isso o que queremos", conclui, citando o atacante egípcio que é ídolo da equipe campeã mundial.

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