O ataque à Fundação Cultural Palmares fere todos os negros brasileiros

Zumbi, ao lado de Dandara e outros nomes, foi elemento central para a continuidade do Quilombo dos Palmares e a resistência negra durante o regime escravista. O ataque a Zumbi é um golpe ao histórico de luta do movimento negro brasileiro (Foto: Bruno Domingos/ REUTERS)
Zumbi, ao lado de Dandara e outros nomes, foi elemento central para a continuidade do Quilombo dos Palmares e a resistência negra durante o regime escravista. O ataque a Zumbi é um golpe ao histórico de luta do movimento negro brasileiro (Foto: Bruno Domingos/ REUTERS)

Texto / Pedro Borges e Lucas Veloso

A política adotada pelo governo de Jair Bolsonaro visa acabar com qualquer possibilidade de direito social adquirido no país. Cortes nas previdência, na previsão de salário mínimo para o trabalhador brasileiro, diminuição do peso do Ministério da Cultura, entre outras medidas.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

A bola da vez foi a Fundação Cultural Palmares, que ganhou nova direção, e deve retroceder nas políticas voltadas à comunidade negra.

Criada em 1988, a Fundação nasceu vinculada ao Ministério da Cultura. Extinta no governo Bolsonaro, a entidade passou a compor o Ministério da Cidadania. De modo geral, a organização tem a finalidade de promover e preservar a cultura afro-brasileira. Preocupada com a igualdade racial e com a valorização das manifestações de matriz africana, é papel da Palmares formular e implantar políticas públicas que potencializam a participação da população negra brasileira nos processos de desenvolvimento.

A Fundação também é o primeiro mecanismo de reconhecimento de qualquer território quilombola no país. Para ser titulado e reconhecido, é necessário que o órgão primeiro certifique a existência de uma comunidade quilombola. Com a nova gestão, a expectativa para esse segmento social não é das melhores.

Em 2011, o órgão firmou uma importante parceria como  Ministério da Educação para a criação de ações e políticas públicas em favor da cultura afro-brasileira e da promoção da diversidade religiosa. Um dos objetivos era a superação da desigualdade educacional entre negros e não negros, além de implementação da Lei 10.639/2003, que prevê a obrigatoriedade do estudo de história e cultura negras nas redes de ensino.

A nova direção também perpetua um histórico ataque à figura de Zumbi dos Palmares, o mais popular herói nacional negro. 

É chover no molhado, mas o momento em que vivemos muitas vezes exige afirmar o óbvio. Zumbi, ao lado de Dandara e outros nomes, foi elemento central para a continuidade do Quilombo dos Palmares e a resistência negra durante o regime escravista. O ataque a Zumbi é um golpe ao histórico de luta do movimento negro brasileiro. 

A luta antirracista no país teve papel central no fim do escravismo, na inclusão do negro no mercado de trabalho, possibilidade de voto desse grupo e tantas outras conquistas. A mais recente, a política de cotas, que almeja o fim de uma supremacia branca nas universidades brasileiras, mais brancas do que instituições de ensino superior da Europa.

É óbvio que o negro, assim como o branco, tem todo o direito de se posicionar à direita, esquerda ou ao centro. O negro também na esfera política deve ter o direito à mediocridade. O que não cabe ao sujeito negro é o não reconhecimento da importância de Zumbi, Dandara e outras figuras centrais da luta antirracista no país. O motivo é simples. Sem elas, estaríamos ou na condição de escravos, sem direito ao voto, ou mesmo mortos.

Diante de colocações feitas pelo atual representante da Fundação Cultural Palmares, também chama atenção a utilização da direita da política das identidades. Traz-se pessoas que negam discursos em que estão completamente amarrados. Explico. Hélio Bolsonaro, Fernando Holiday, Sérgio de Camargo são figuras centrais para combater o movimento negro, que rebatem a construção política desse setor, mas que não tem qualquer outra possibilidade de formulação, que não a no campo racial.

É impossível imaginar qualquer uma dessas figuras ocupando espaço central no momento de discussão de política macro. Nesse campo, um negro jamais terá o espaço para definir os rumos da economia, turismo, saúde, educação. Negro tem que falar sobre tema racial, mesmo que seja para negar aquilo cada vez mais óbvio, a centralidade do racismo no país.

O movimento social negro segue pautando a centralidade do racismo em nossa sociedade e a importância desse segmento populacional participar da vida política do país, em todas as esferas cotidianas.

Leia também