Francês que discutiu com Gerson tem fama de bad boy e busca estreia pela seleção

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O placar marcava 2 a 0 para o Lens. Matteo Guendouzi, 22, correu até Gerson e, insatisfeito com a postura do companheiro, questionou: "Quando é que você vai começar a correr?". O ex-flamenguista não gostou da cobrança e respondeu ao francês, e foi preciso que Dimitri Payet acalmasse os ânimos.

O Olympique de Marselha foi derrotado por 3 a 2 dentro de sua própria casa, o Vélodrome, a primeira derrota da equipe de Jorge Sampaoli na atual campanha da Ligue 1.

A discussão entre os atletas chamou a atenção da imprensa francesa e também reverberou nos programas esportivos do Brasil. Contudo, treinadores que trabalharam com Guendouzi em outros clubes não devem ter ficado surpresos com a imagem.

Talentoso e com passagem pela equipe sub-20 da França, o jogador nunca teve seu talento questionado pelos técnicos. Mas todos parecem concordar com a dificuldade de administrar tamanho ego em um ambiente coletivo.

"O problema de Guendouzi não é físico nem técnico. É sua atitude, que não é boa para o time", disse Bernard Casoni, que comandou o meio-campista em seu início de carreira, no Lorient, em entrevista recente ao Guardian.

"Eu o escalei para um jogo de copa contra o Nice, mas ele levou um cartão amarelo muito cedo. O árbitro me disse no intervalo para alertá-lo: mais uma falta e ele seria expulso. Não tive escolha a não ser substituí-lo. Quando ele deixou o campo, recusou-se a apertar minha mão."

Sucessor de Casoni no Lorient, o ex-goleiro Mickael Landreau, que atuou na seleção francesa, relatou problemas semelhantes no trato com Guendouzi.

"Ele me irritava profundamente, é muito difícil de comandar", afirmou Landreau. "Tem um ego gigantesco, mas certamente precisa disso. Precisa estar no centro das atenções, ser um líder. E isso significa que os companheiros também precisam aceitá-lo como ele é."

Formado nas categorias de base do Paris Saint-Germain, Matteo Guendouzi se transferiu para o Lorient em 2014, onde terminou sua formação. Em 2016, aos 17 anos, já atuava pela equipe principal do clube.

Na temporada 2017/2018, jogou 21 partidas na segunda divisão francesa. Convocado para a seleção sub-20 da França, chamou a atenção do Arsenal, que investiu 7 milhões de libras (R$ 52 milhões na cotação atual) em julho de 2018 para contar com o atleta.

Seu início em Londres foi positivo sob o comando do espanhol Unai Emery, que deu ao meio-campista minutos de rodagem na Premier League. Na temporada 2018/2019, disputou 48 partidas, o quinto que mais vezes entrou em campo no elenco.

O período de Emery à frente do time, no entanto, chegaria ao fim em novembro de 2019. Para o seu lugar, a diretoria contratou o também espanhol Mikel Arteta, uma mudança que teria consequências para a continuidade de Guendouzi.

Logo no início de seu trabalho, Arteta dava uma palestra na qual analisa imagens de um treino e viu que seu comandado, além de não prestar atenção, fazia piadas e brincadeiras com outros colegas. Foi o primeiro sinal de alerta.

Na intertemporada realizada pelo Arsenal em Dubai, um companheiro pediu ao francês que fosse mais profissional em um treino, e ambos precisaram ser separados pelo treinador, segundo o colunista David Orntein, do The Athletic. Ainda nos Emirados Árabes Unidos, também sofreu uma advertência do dirigente brasileiro Edu Gaspar, que alertou o atleta para um comportamento inadequado durante um evento.

A gota d'água para o espanhol foi a postura de Guendouzi na derrota diante do Brighton, por 2 a 1, em junho do ano passado, pela Premier League. O jogador do Arsenal teria provocado os adversários ao comparar seu salário com o deles.

Após o jogo, o francês pegou Neal Maupay pelo pescoço e iniciou uma confusão com o rival, autor do gol da vitória. Foi sua última apresentação com a camisa do time londrino.

Afastado da equipe, foi emprestado ao Hertha Berlim para a segunda metade da temporada 2020/2021. Na Bundesliga, recuperou terreno e somou 24 apresentações antes de retornar à Inglaterra.

Sem que Arteta tivesse a intenção de aproveitar o francês, a diretoria do Arsenal negociou Guendouzi com o Olympique por cerca de 10 milhões de libras (cerca de R$ 75 milhões) pelo empréstimo por um ano. O clube de Marselha, contudo, terá de comprá-lo ao final da temporada.

Ao menos nos primeiros jogos sob o comando de Sampaoli, o meio-campista tem se saído bem. Apesar da derrota para o Lille na rodada passada, foi capitão da equipe –titular, Gerson foi substituído no segundo tempo.

As atuações na Ligue 1 fizeram com que Didier Deschamps, técnico da seleção francesa, convocasse Matteo Guendouzi. O jogador já havia sido convocado pelo técnico anteriormente, mas ainda não estreou pela seleção principal.

A oportunidade poderá chegar agora, na semifinal da Liga das Nações, contra a Bélgica, nesta quinta (7), às 15h45 – transmissão da TNT, e do Estádio TNT. O vencedor enfrentará na decisão a Espanha, que venceu a Itália por 2 a 1 nesta quarta (6), no San Siro, e encerrou uma invencibilidade de 37 partidas da seleção italiana.

Deschamps, claro, precisou responder aos repórteres sobre a convocação do garoto-problema.

"Ele já esteve conosco antes, mas depois viveu momentos menos felizes. Agora ele está mais realizado, tem mais minutos de jogo [no Olympique], mais confiança em si mesmo. Traz agressividade, qualidade técnica e frescor ao grupo", disse o técnico, confiante de que não será mais um na lista de treinadores que não conseguiram domar Guendouzi.

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