Federação Paulista de Futebol cria curso de arbitragem exclusivo para mulheres e inscrições já batem recorde

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Curso/Divulgação Rodrigo Corsi/FPF
Curso/Divulgação Rodrigo Corsi/FPF

Por Stephanie Calazans

Atualmente, o quadro de árbitros da FPF (Federação Paulista de Futebol) é composto por cerca de quinhentos profissionais. Desse número, o que chama a atenção é que apenas 14 são mulheres: cinco apitam e nove são assistentes – e elas representam apenas 3% do total. A desigualdade foi notada pela entidade, que decidiu incentivar a participação feminina e criar um curso de arbitragem exclusivo para elas. A iniciativa mostrou, em pouco tempo, que foi extremamente bem aceita e já até bateu recorde de inscrições.

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O curso, na realidade, sempre existiu, mas era misto. Isso intimidava a presença das mulheres, que representavam apenas de 5 a 10% dos matriculados. Para mudar essa situação, a FPF decidiu, pela primeira vez, dividir as turmas por gênero, atraindo o público feminino. “Abrimos vagas exclusivas para elas e, em menos de um mês, 20 mulheres já estavam confirmadas e mais 70 demonstraram interesse”, disse Carlos Augusto Nogueira Júnior, diretor da Escola de Árbitros Flavio Iazzetti.

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Carlos ainda afirma que, apesar de acreditar que as turmas mistas sejam mais interessantes, é preciso incentivar a inclusão de mulheres no quadro de arbitragem. “Talvez essas mulheres já quisessem fazer o curso, mas ficavam em dúvida por ser misto. Agora o curso é exclusivo para elas”. E a iniciativa já mostrou resultados: 53 mulheres já estão inscritas no curso, sendo que nas edições anteriores, a média era de apenas seis.

Podemos dizer que as mulheres estavam apenas esperando uma oportunidade voltada para elas, para adentrarem o universo da arbitragem. A FPF entendeu isso e realizou uma campanha de comunicação totalmente direcionada a elas, utilizando de exemplos femininos nas redes sociais, como Tatiana Camargo, assistente que atuou no Mundial da França, para atrair o público selecionado. A criação de uma sala exclusiva para que elas realizassem o curso foi outro passo essencial para preencher a sala de mulheres.

Figuras femininas estarão presentes no curso para passar conhecimento e experiência de vida. Entre elas, estará Silvia Regina, que foi pioneira na profissão sendo a primeira mulher a apitar jogos da elite do campeonato brasileiro masculino, além de clássicos como São Paulo x Corinthians e competições internacionais. Ela foi convidada a trabalhar na FPF assim que se aposentou, em 2008, realizando cursos especializados pela FIFA para atuar como instrutora de árbitros.

Edina Alves que, em maio, se tornou a primeira mulher a apitar uma partida da Série A do Campeonato Brasileiro desde 2005, Neuza Back e Tatiane Sacilotti, que apitaram quatro jogos da Copa do Mundo Feminina, também farão parte do curso, dando aulas sobre práticas de jogo entre outras coisas.

A presença dessas mulheres serve como incentivo e também como alerta. É de senso comum que um erro pode custar a carreira e a credibilidade de um árbitro e, quando estamos falando de mulheres, essa cobrança é muito maior. Por isso, elas costumam adotar uma postura muito mais rígida para conseguirem impor respeito dentro de campo e, para isso, é preciso trabalhar, também, o psicológico dessas profissionais.

“Não podemos ter medo. É preciso uma força mental muito grande para não estragar o jogo e fazer com que todas suas decisões sejam justas e respeitadas”, declarou Silvia Regina. O mais legal – e importante – segundo ela, é que o curso vai ser, literalmente, “de mulher para mulher”.

SOBRE O CURSO

Com duração de um ano e meio, o curso é dividido em três módulos e conta com aulas práticas, teóricas, simulados físicos, palestras e, finalmente, o estágio. Segundo Carlos Augusto, a metodologia ainda inclui regras do jogo e “outros assuntos importantes inerentes à função da árbitra de futebol, como psicologia esportiva, noções específicas de preparação física, nutrição aplicada ao esporte, gestão financeira, mídias sociais e imagem do árbitro e treinamento físico de alta performance”.

Durante o estágio, a árbitra vai atuar em jogos do sub-11 e sub-13 por cerca de nove meses. Essa primeira turma, que se iniciou agora no final de setembro, vai estar formada no fim de 2019 e estará apta para trabalhar em 2020.

De início, as novas profissionais apitarão jogos do Campeonato Paulista Feminino. Depois, elas poderão atuar também no masculino, assim como os homens também poderão apitar jogos do feminino.

Vale lembrar que essa profissão não possui registro em carteira, sendo que os árbitros trabalham como autônomos e recebem remuneração por partida. Os árbitros da CBF ganham aproximadamente R$ 2.900 por um jogo da Série A e R$ 1.000 por jogos da Série D. Os assistentes recebem cerca de 60% da remuneração dos árbitros.

Isso significa que, depois de formadas, as árbitras ainda enfrentarão essas dificuldades já conhecidas dentro da profissão. O diretor afirma que se formar no curso significa “estar disponível para prestar serviço como autônomo aos clubes de futebol do estado de São Paulo”.

É um primeiro passo, muito importante, mas ainda há desafios a se vencer. A diferença é que, agora, as mulheres estarão muito mais preparadas e aptas a exercerem essa profissão e a lutarem por melhorias dentro dela.

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