Fofão analisa o governo Bolsonaro e fala sobre racismo no vôlei

Artur de Figueiredo
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Fofão, ex-jogadora de vôlei. Foto: Instagram/@fofaosete
Fofão, ex-jogadora de vôlei. Foto: Instagram/@fofaosete

Hélia Rogério de Souza Pinto, para o grande público, uma das mais talentosas levantadoras do vôlei mundial, simples, o codinome, Fofão. Recentemente, a ex jogadora foi anunciada como coordenadora técnica das seleções brasileiras femininas de vôlei, juntamente com outro campeão olímpico, Paulão, que comandará as seleções masculinas.

A ex-atleta que fez história como jogadora atuando no vôlei internacional e equipes tradicionais do vôlei brasileiro, como Minas Tênis Clube e Rio de Janeiro, especialmente, vestindo a camisa verde e amarela. Em entrevista para o Yahoo Brasil, a campeã olímpica falou sobre novos desafios, racismo, polarização política, democracia.

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Primeiramente, gostaria de saber sobre a nova função junto a CBV(Confederação Brasileira de Vôlei), como coordenadora técnica das seleções brasileiras femininas de vôlei. Qual a expectativa e o principal desafio atuando já nos bastidores de um esporte no qual você sempre foi tida como uma das mais habilidosas dentro das quadras?

FOFÃO - Vou acompanhar o trabalho das seleções, principalmente de base, estarei junto com as comissões técnicas, estarei observando os campeonatos brasileiros, taças, campeonato brasileiro interclubes, entre outros. Vai ser um trabalho de quadra sem tocar na bola. Me deixaram bem à vontade para criar, dar opiniões e acredito que o maior desafio será esse início, me adaptar a função e buscar trazer bons resultados para o fortalecimento da base.

Você sempre representou o talento dos negros no esporte brasileiro. Como você vê a questão do racismo no esporte, em especial no vôlei? Já sofreu algum tipo de ato racista dentro ou fora das quadras?

FOFÃO - Tenho muito orgulho de ter vencido sendo uma mulher negra no esporte. Tenho certeza que inspirei muitas outras a acreditarem que isso é possível, por isso dei o meu melhor sempre. Eu nunca sofri preconceito. Eu tinha um pai que me blindou muito talvez para que eu não enxergasse ou não sentisse algumas coisas. Mas sei que o racismo está muito presente no esporte e ele não escolhe cor de medalha. Isso é muito triste.

O vôlei sofreu alguns duros golpes por conta do corte de incentivos fiscais, casos do Sesc e Sesi. Quais são os principais desafios na otimização da imagem e marca do produto vôlei? Como você avalia o governo Bolsonaro no esporte, atualmente?

FOFÃO - Isso é um assunto bem complicado porque o vôlei sempre passa por esse tipo de situação e somos o esporte mais praticado no país. Quando pensamos que tudo vai melhorar as coisas não acontecem. Os principais desafios são a falta de recursos e incentivos para que uma marca queira ficar por muito tempo patrocinando uma equipe de vôlei. Eu sempre vou achar que pode ser feito mais, o dia que olharem pro esporte como uma ferramenta de transformação, será o dia mais feliz da minha vida.

Fofão pela seleção em 2007. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP via Getty Images
Fofão pela seleção em 2007. Foto: Kazuhiro Nogi/AFP via Getty Images

Finalizando, como você vê a temática ‘polarização’, em especial, entre Ana Paula Henkel, Solberg, Wallace? Pode se discutir política de forma abertamente? Como você vê o posicionamento de cada um na esfera do esporte? É válido? Direita, esquerda, liberal, conservadora, como você se define?

FOFÃO - As pessoas têm direito de se posicionar da maneira que as convém, dentro daquilo que eles acreditam. Quem sou eu pra julgar? Cada um luta por aquilo que acredita e eu espero que seja sempre para o melhor do nosso esporte. Eu me defino como uma pessoa apaixonada pelo vôlei, e que deseja que todos tenham boas condições de praticar, que todos tenham oportunidades iguais. Essa é a minha política.

Como está sendo o protocolo contra Covid-19 no vôlei? O vôlei feminino tem conseguido segurar as atletas. Em contrapartida, o masculino, a cada temporada, tem sofrido com a debandada de atletas. O que explica esse fenômeno? A realidade dos clubes brasileiros, em especial, do vôlei feminino, vive uma realidade mais animadora?

FOFÃO - Está difícil para todo mundo e isso afeta diretamente o esporte. Este ano conseguimos finalizar a temporada. E devido a indefinição desta temporada muitas atletas saíram do país. Acredito que o mercado aqui no Brasil esteja bom e espero que sustente para essa próxima temporada para que possa segurar as nossas atletas e trazer de volta as que saíram. Mas, muitas vezes, um bom contrato acaba levando as jogadoras(es) a saírem do Brasil e isso é normal de acontecer.