Fluminense: Grupo responde questionamentos do presidente à reforma de Laranjeiras e rebate rótulo de 'pé-frio' do estádio

O Globo
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O centenário estádio das Laranjeiras, que pertence ao Fluminense

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O centenário estádio das Laranjeiras, que pertence ao Fluminense

O grupo Laranjeiras XXI, que elaborou um projeto de reforma do estádio localizado ao lado da sede do clube, se pronunciou na tarde desta sexta sobre as declarações do presidente tricolor Mário Bittencourt. Há uma semana, o dirigente deixou bem claras suas restrições ao projeto. O cartola mostrou ceticismo em relação à viablidade financeira e pontuou que, no contexto de crise financeira vivido pelos tricolores, a empreitada não é prioridade. Para completar, ele ainda fez uma comparação do desempenho esportivo do time no local e no Maracanã, concluindo que nenhuma das maiores conquistas do tricolor foi alcançada lá.

O grupo respondeu a cada uma das contestações de Bittencourt. Inclusive a suposta fama de "pé frio" de Laranjeiras. A carta destaca um levantamento dos jogos do Fluminense no local no período entre 1986, quando foi reaberto, até 2003, quando deixou de receber jogos da equipe profissional por não cumprir exigências do Estatuto do Torcedor. O resultado é que o aproveitamento da equipe é melhor no estádio cenntenário.

"Cabe fazer um reparo à comparação entre o período de 1970 a 1985, quando não houve jogos nas Laranjeiras e o time ganhou dois títulos brasileiros e inúmeros campeonatos estaduais e o período de 1986 a 2003 em que o time jogou no Estádio de Laranjeiras, mas não conquistou títulos relevantes e ainda passou a pior fase de sua história.

Apenas para fazer justiça, mesmo na pior fase da sua história, os resultados dos jogos do Fluminense em Laranjeiras foram superiores aos do Maracanã, na melhor fase de sua história. É um equívoco colocar a responsabilidade dos maus resultados obtidos por jogarmos em Laranjeiras. O óbvio é reconhecer as péssimas gestões do clube ao longo desse período", rebate a nota, que inclui a seguinte tabela:

Ao lembrar que nenhuma das grandes conquistas do Fluminense foi em Laranjeiras, Bittencourt quis destacar que o retorno do time ao estádio não traria nenhum ganho de desempenho. Ele tem sido bastante cobrado em relação ao projeto de reforma.

— Eu fico vendo as pessoas nas redes sociais. Pessoas de 20 anos de idade, de 18 anos falando sobre a volta das Laranjeiras. Como se a volta das Laranjeiras fosse garantir um crescimento exponencial da instituição e como se a gente fosse passar a ganhar título porque vai jogar nas Laranjeiras. Aí eu vou dar um dado: o Fluminense ficou sem jogar em Laranjeiras de 1970 a 1986. Ganhou o Brasileiro de 70, dezenas de estaduais e o Brasileiro de 1984, jogando no Maracanã. Aí depois Laranjeiras reabre de 1986 a 2003. De 1986 a 2003, nós não ganhamos nenhum título nacional e fomos rebaixados, jogando em Laranjeiras. E, depois que Laranjeiras fecha, a gente ganha mais dois títulos nacionais e uma Copa do Brasil, e outros estaduais — ponderou o presidente em sua entrevista coletiva de uma semana atrás.

Na mesma ocasião, Bittencourt prometeu marcar uma reunião entre a equipe de gestão de estádio do Fluminense com os integrantes do Laranjeiras XXI. O objetivo seria mostrar a eles os dados que justificam sua posição cética em relação à viabilidade do projeto. Este encontro, no entanto, será apenas após o fim da necessidade de isolamento social.

O grupo Laranjeiras XXI também respondeu os questionamentos de Bittencourt sobre a viabilidade financeira do empreendimento, sobre a incompatibilidade com o plano de sócio-torcedor e sobre a politização do tema. Confira a nota abaixo:

"Prezado Mario,

Com relação às observações realizadas em sua entrevista coletiva, realizada dia 07/08/2020, o grupo Laranjeiras XXI gostaria de fazer alguns esclarecimentos, acerca da proposta de revitalização do Estádio de Laranjeiras:

- O senhor declarou que considera que o assunto da Reforma de Laranjeiras está sendo politizado. Gostaríamos, mais uma vez, de afirmar que a proposta de colaboração com a gestão não tem nenhum aspecto político. Inclusive, o grupo de sócios que apresenta a proposta já manifestou em diversas vezes que considera essencial a participação não só de integrantes da gestão, quanto de profissionais que colaborem nas suas diversas áreas de conhecimento.

- Lembramos que a motivação inicial da proposta foi buscar uma solução para reformar o Estádio existente, construído há 101 anos e praticamente não alterado desde então, encontrando-se em péssimas condições, por falta de manutenção ao longo das últimas décadas e pelas sucessivas gestões, que não tiveram visão nem respeito com o patrimônio do Clube.

- A proposta em questão não é a de construir uma nova arena, para 12 mil pessoas que se torne a principal sede para os jogos do Fluminense. Tampouco se resume a uma alternativa para jogos deficitários do time. Diferentemente dos estádios dos demais clubes do Brasil, o Estádio das Laranjeiras é tombado e possui importância histórica não só para o Fluminense, mas para o futebol e sobretudo a seleção brasileira.

- Reforçamos que o objetivo principal é possibilitar que a reforma seja realizada e que o estádio esteja disponível para o seu uso original: a prática do futebol, além de quaisquer atividades consideradas adequadas pela gestão, permitindo que deixe de ser um espaço ocioso e volte a ser um local ativo e de encontro dos tricolores, gerando novas receitas ou otimizando custos de atividades existentes.

- A proposta que está apresentada surgiu da análise das condições necessárias para adequar o espaço, de forma a atender às exigências do Estatuto do Torcedor e do Corpo de Bombeiros, dentro de um critério de custo x benefício.

- Com relação ao lance superior das arquibancadas, independentemente da sua condição estrutural, foram identificados problemas relevantes com relação ao acesso, incompatível com as normas de segurança e conforto; na ergonomia dos degraus (altos e estreitos), compreensíveis por ser um projeto de 100 anos atrás; de capacidade, segurança e dificuldade em disponibilizar os serviços de sanitários e bares, de acordo com as exigências do Estatuto do Torcedor. Neste sentido, identificamos que a solução de um lance único (conforme consta do Programa da gestão atual), remetendo ao modelo do projeto do Estádio de 1919, seria a solução mais simples, econômica e que traria mais benefícios, além de ampliar a capacidade.

- Todos sabemos das dificuldades financeiras que o Fluminense atravessa, consequência de gestões irresponsáveis, temerárias e incapazes de pensar novas receitas. Por isso, a proposta de Reforma sempre se baseou na possibilidade de conseguir recursos fora do orçamento corrente do clube, por meio de leis de incentivo, doações e parcerias. Infelizmente, diferentemente da sugestão feita por ocasião da entrevista de 07/08/2020, tais recursos não estariam disponíveis para outros fins, mas só com destinação para a reforma do Estádio e do edifício Sede, recuperando o patrimônio histórico existente.

- Desde o início da apresentação da proposta, o Grupo Laranjeiras XXI deixou claro que não se trata de um grupo de investidores, mas de sócios preocupados com o patrimônio do clube, que se propuseram a disponibilizar tempo, dedicação e conhecimento para ajudar o Fluminense a obter os recursos necessários. Dentro desta premissa, o ponto fundamental é que haja autorização oficial do clube para que possamos trabalhar com a devida segurança jurídica e institucional, o que não significa “carta branca” para que se trabalhe isoladamente. Um dos pontos fundamentais é que o projeto tenha a participação de pessoas designadas pela gestão, além dos profissionais em suas respectivas áreas de competência, havendo a necessidade de se organizar um sistema de prestação de contas acessível a todos os interessados.

- É louvável a preocupação com relação à viabilidade financeira das instalações após a sua realização, porém, cabe lembrar que, na verdade, já existe no local um Estádio e um Edifício Sede que há muito não recebem os recursos necessários para a sua manutenção. Com a realização da Reforma, as condições estruturais e de uso receberiam um caráter renovado, reduzindo os custos de manutenção e permitindo atividades, cujas receitas, atualmente, não são possíveis.

- Quanto à previsão de venda de cadeiras cativas e a capacidade incompatível com os atuais 40 mil sócios futebol, reforçamos que o planejamento deverá ser feito juntamente com a gestão, determinando as estratégias de captação de recursos, desenvolvimento do projeto e operação futura. É um equívoco supor que o objetivo principal da Reforma do Estádio das Laranjeiras seja o de substituir o Maracanã (ou um possível novo estádio) como palco principal dos jogos do Fluminense. Cabe à gestão determinar as ocasiões adequadas, seja do ponto de vista financeiro, seja do estratégico para a utilização do Estádio em jogos do time profissional.

- Neste sentido, cabe fazer um reparo à comparação entre o período de 1970 a 1985, quando não houve jogos nas Laranjeiras e o time ganhou dois títulos brasileiros e inúmeros campeonatos estaduais e o período de 1986 a 2003 em que o time jogou no Estádio de Laranjeiras, mas não conquistou títulos relevantes e ainda passou a pior fase de sua história.

- Apenas para fazer justiça, mesmo na pior fase da sua história, os resultados dos jogos do Fluminense em Laranjeiras foram superiores aos do Maracanã, na melhor fase de sua história. É um equívoco colocar a responsabilidade dos maus resultados obtidos por jogarmos em Laranjeiras. O óbvio é reconhecer as péssimas gestões do clube ao longo desse período.

- Finalmente, voltamos ao ponto original da discussão: é preciso uma solução digna para o Estádio das Laranjeiras e sua Sede, considerando as restrições de uso existentes e a importância histórica e afetiva deste local para os tricolores"