Abel e Jesus são diferentes, mas representam "padrão" do Flamengo

Colaboradores Yahoo Esportes
Jorge Jesus técnico Portugal
Jorge Jesus durante partida do Português com o Sporting (AP Photo/Paulo Duarte)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

Pelo oitavo ano consecutivo, o Flamengo troca de treinador em meio a uma temporada. Desta vez, a “vítima” foi Abel Braga, que de fato não vinha fazendo um bom trabalho, e pediu demissão nesta quarta-feira. O provável substituto é o português Jorge Jesus, que pela primeira vez na carreira comandaria um clube brasileiro. As constantes mexidas no comando não são particularidade do rubro-negro. O futebol brasileiro é recordista entre as principais ligas nesta ação. Reflexo da limitação dos dirigentes no entendimento do jogo, e de uma opinião pública, em sua grande maioria, despreparada para avaliar os processos de formação de uma equipe. Por mais que tenham estilos bem diferentes, as contratações de Abel e Jesus acabam convergindo no mesmo sentido.

Nos últimos 20 anos, só Carlinhos (já falecido) e Vanderlei Luxemburgo iniciaram e terminaram uma temporada como técnico do Flamengo (Rodrigo Coutinho)
Nos últimos 20 anos, só Carlinhos (já falecido) e Vanderlei Luxemburgo iniciaram e terminaram uma temporada como técnico do Flamengo (Rodrigo Coutinho)

Explica-se: o dito popular no final de 2018 dava conta que o elenco do Flamengo precisava de uma figura que “falasse grosso” no vestiário e fosse vencedor, uma “grife”. Muito por isso Abel Braga foi contratado. Pouco se falou no modelo de jogo que o treinador implementava nas suas equipes e no que fez nos quase 30 anos de trabalho à beira do gramado. A vinda de Jorge Jesus tem características próximas. Recentemente o treinador português visitou o Brasil. Foi alvo de negociações com Atlético Mineiro e Vasco da Gama. E a partir daí entrou em evidência para os cartolas rubro-negros. É um bom treinador, vencedor, mas até então o seu nome nunca havia sido especulado na Gávea.

Será que os dirigentes do Flamengo sabem as características de trabalho de Jorge Jesus? Como costuma montar suas equipes? Como lida com contratações e dispensas? Como administra egos de um elenco com diversas opções ofensivas? Este humilde colunista tem a certeza que não! Mais uma vez contrata-se o nome, a grife, e o conveniente para aplacar as muitas cobranças da torcida. Novamente pouco se fala daquilo que o português pode agregar no campo e bola.

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Tudo isso cria um ciclo vicioso que, especificamente no Flamengo, tem gerado decepções a cada ano. Começando no elenco com lacunas importantes, passando por um projeto esportivo acéfalo, e culminando num gasto exorbitante sem retorno de desempenho e títulos. A sensação é que o Mais Querido vive em eterno “looping”. Zé Ricardo e Mauricio Barbieri eram os “estagiários”. Dorival não tinha “pulso” para domar o elenco. Muricy e Abel estavam “ultrapassados”. Sem contar a perseguição promovida a alguns jogadores neste período. Com erros sendo superdimensionados e acertos relativizados. A cada temporada o alvo muda. Esse comportamento do torcedor é motivado justamente pelas decepções e a inabilidade da diretoria para lidar com os problemas. Contextualizá-los e explicá-los através de uma comunicação mais racional.

Jorge Jesus técnico Sporting
Jorge Jesus já foi campeão nacional três vezes em Portugal (AP Photo/Martin Meissner)

Sobre Jorge Jesus

Prestes a completar 65 anos, Jorge Jesus construiu toda a sua carreira como treinador no futebol português. Foram seis temporadas de bom trabalho no Benfica e outras três sem o mesmo sucesso no Sporting. Treinou outros nove clubes de menor expressão no país. Como jogador, foi um meio-campista de pouco destaque nas décadas de 70 e 80. Seu último trabalho como técnico aconteceu no Al Hilal da Arábia Saudita, clube que deixou em janeiro. Cabe ressaltar que tinha alto aproveitamento no campeonato local e o Al Hilal era líder, mas o comandante não aceitou um vínculo contratual longo oferecido pelos sauditas. À época, queria um contrato curto, pois mantinha a esperança de voltar ao futebol europeu.

Jesus tem estilo de trabalho mais disciplinador e, como todo o técnico que nunca trabalhou no Brasil, precisará de algum tempo para entender a dinâmica e a cultura do futebol nacional. Aqui, a relação entre técnico e jogador é bem diferente da realidade de Portugal, por exemplo. Sem contar outras questões, como calendário e política interna do Flamengo. Não costuma aceitar interferência em seus trabalhos. Fatores que podem indicar uma certa rota de colisão se considerarmos tudo o que aconteceu no rubro-negro em 2019. A boa notícia é o tempo de treinamento que terá durante a Copa América. Na espécie de “intertemporada” poderá fazer com que os jogadores do elenco assimilem as suas ideias.

Modelo de jogo

Neste ponto, Jorge tem características que casam muito bem com o DNA de futebol do clube. Desde que passou a se notabilizar em Portugal, montou equipes ofensivas, que buscam ter a posse de bola para controlar as partidas. Utiliza quase sempre um esquema tático muito pouco visto no Brasil: o 4-1-3-2, com apenas um volante, três jogadores mais ofensivos logo a frente, e uma dupla de ataque. Não que não possa montar o time de outra forma, há variações em seus trabalhos, usa também o 4-4-2 e o 4-2-3-1, mas o seu esquema tático predileto é esse.

A ideia é sair para o ataque através de passes curtos, trazendo o volante para fazer a saída de bola entre os zagueiros, projetando os laterais num primeiro momento, e utilizando os cinco jogadores mais ofensivos em constantes movimentos de apoio ao companheiro com a bola, ou atacando espaços em profundidade. Há sempre a preocupação de ter amplitude, dois jogadores abertos, e geralmente o último passe vem de um cruzamento, por baixo ou por cima. Eles podem ser os laterais ou os meias do trio que joga logo atrás da dupla de ataque. Não libera os dois laterais ao mesmo tempo. A dinâmica é atacar com seis atletas no terço final do campo e ter quatro atrás da linha da bola para o balanço defensivo.

Um provável time do Flamengo no segundo semestre montado no esquema que Jorge Jesus mais utilizou nos últimos anos (Rodrigo Coutinho)
Um provável time do Flamengo no segundo semestre montado no esquema que Jorge Jesus mais utilizou nos últimos anos (Rodrigo Coutinho)

Projetar um possível Flamengo montado por Jorge Jesus encontra a primeira grande dúvida ao pensar no momento defensivo. Suas equipes marcam sob um sistema de marcação por zona, o que deve ajudar na melhoria do posicionamento defensivo do Mais Querido, mas a postura cobrada por ele é de intensidade no combate. O Rubro-negro não tem tantos jogadores com este perfil sem a bola. Em muitos momentos adianta as linhas para marcar a saída de bola adversária. Inclusive já teve belos resultados na carreira desta forma, sempre obedecendo ao sistema zonal e contando com coordenação, intensidade e concentração dos jogadores nos movimentos necessários para fechar os espaços. Congestiona o meio, força o adversário a jogar pelo lado, e tenta um “sufocamento” para retomar a posse

Conclusão

Como de praxe em 90% dos casos de contratação de técnico no Brasil, o sucesso do trabalho fica dependente única e exclusivamente do treinador e dos jogadores. Não há um conjunto de ações e soluções pensadas para proporcionar as melhores condições visando o desenvolvimento natural do projeto. Mais do que nunca, inclusive pelos valores da negociação, o “ganhou, está bom” e “perdeu, é uma porcaria” pautará o dia a dia de Jorge Jesus no Flamengo. Será mais um a integrar o ciclo vicioso citado acima ou conseguirá superar isso? Só tempo vai dizer. O que podemos concluir é que o clube mais popular do Brasil, novamente, não pensa no projeto que quer para o seu futebol antes de pensar no nome que vai tocá-lo.

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