Uma vez Flamengo, outra vez Flamengo bicampeão brasileiro 2019-20

Mauro Beting
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Gabi, Gabriel Barnosa, Ga Buda Mendes/Getty Images

Desta vez não era só no gramado do Engenhão o rubro-negro Leonardo Moura ouvindo pelo Fox Sports o final de Olimpia x Emelec, como naquela última rodada da fase de grupos da Libertadores de 2012. Nesta quinta de TBT era todo o melhor elenco do Brasil desde 2019 vendo pelo celular o final de Inter 0 x 0 Corinthians no Beira-Rio; os últimos minutos do BR-20 que acaba em 2021. No dia com mais mortes pela COVID-19.

O Flamengo havia acabado de mais uma vez fazer pouco e perder para o São Paulo que enfim ganhou seu primeiro jogo desde dezembro. Depois de perder para o lanterna Bofafogo, o Tricolor conseguiu justa vitória (mesmo com mais uma arbitragem discutível) e terminou classificado para a fase de grupos da Libertadores. Perdeu um BR-20 que parecia ganho depois de abrir 7 pontos. Mas a pressão pela ausência de títulos pesou.

De novo.

O que dizer então no Beira-Rio campeão de tudo mas não do Brasil desde 1979?

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O Inter fez um gol impedido e anulado no primeiro tempo amarrado contra o Corinthians apenas 12o colocado no Brasileirão. Teve um pênalti desmarcado pelo VAR em lance que eu também não marcaria de bolada no braço de apoio de Ramiro (bem discutível). Teve falta marcada em Cássio de Abel Hernández (e erradamente apitada antes de a bola entrar) muito discutível em outro lance de gol anulado colorado. Lance que eu teria dado o gol ao Inter.

E teve aos 50min50s a bola chegando à canhota de Cuesta que tanta falta fez ao Colorado no Maracanã na derrota de virada para o Flamengo. O imenso argentino saiu desde seu campo com ela a galope como se trotasse em busca do espírito conquistador e libertador de Don Figueroa do gol iluminado do BR-75, naquela mesma goleira do Beira-Rio. Cuesta começou a correr como se fosse Mauro Galvão no tri invicto de 1979. E só chegou à área paulista em 2021. Tabelou com o talentoso colorado de berço Peglow, de infelicidade na Bombonera, que o deixou livre como se fosse Carlitos ou Lula na ponta-esquerda. O rolo compressor que foi Patrick no campeonato era agora Cuesta por ali. O zagueiro avançou e buscou o incansável ex-corintiano Edenilson para entrar de carrinho e aos 51 minutos exatos abrir o placar e a história. Enfim vencendo Cássio de defesa monstruosa no começo da segunda etapa, aos 4, em cabeçada do mesmo Edenilson à queima-luvas, e rebote que ainda Yuri Alberto mandou na trave esquerda.

No gramado do Morumbi, por 7 segundos até a transmissão do Premiere mostrar a bandeira de Fabrício Vilarinho corretamente levantada invalidando o lance por impedimento de Edenilson, o elenco rubro-negro, e alguns milhões de brasileiros, sentiram o que Leonardo Moura e outros tantos sofreram em 12 de abril de 2012. Quando depois dos 3 a 0 do Flamengo de Ronaldinho Gaúcho sobre o Lanús, o 2 a 2 maluco em Assunção classificava o Flamengo. Quando a bola parou no Engenhão, estava 1 a 1 até o Emelec desempatar, aos 43 minutos, no Paraguai. Flamengo eliminado. Mais 3 minutos e o empate do Olimpia, aos 46. Flamengo classificado. Mais 68 segundos, terceiro do Emelec. Quiñonez. Flamengo eliminado.

Consternação absoluta no gramado em 2012. Desespero total por 7 segundos no Morumbi em 2021 até o impedimento ser marcado pelo bandeira. Foram 39 segundos até o replay mostrar a clara posição irregular. Levou 1min43 até Wilton Pereira anular o lance de gol para alívio carioca. Ao menos até o escanteio a seguir que levou Lomba à área. Quando aos 54, depois de uma jogada que teve até dividida entre Cássio e Lomba (!?), a bola sobrou para Lucas Ribeiro quase emular o Chico Spina inesperado do Maracanã em 1979, ou o Adriano Gabiru impensável de 2006. Mas o tiro saiu por cima. Como havia passado rente à trave uma cabeçada do zagueiro minutos antes que parecia gol.

Como parecia que o Inter seria o campeão brasileiro depois de arrancada sensacional com 9 vitórias com Abel. Até aquela derrota com 10 para o Sport. Naquele gol maluco da bola que parecia que sairia e não saiu.

Como o Flamengo parecia que não tinha mais chances quando perdeu para o Ceará no Maracanã. Iria repetir as quedas repentinas na Copa do Brasil no mesmo Morumbi. A dor dos pênaltis perdidos na Libertadores contra o Racing. Quando parecia que estava ainda mais perdido quando perdeu Dome depois de outra goleada no Mineirão. Quando parecia que o mais favorito dos clubes nos pontos corridos antes de a bola rolar iria ficar pelo caminho.

De novo.

De modo quase tão melancólico como aquela eliminação de 2012 pela TV.

Tão maravilhoso como acabou sendo o bi-octa no gramado do Morumbi. (NOTA: EU considero Sport e Flamengo campeões em 1987; mas a Justiça determinou à CBF reconhecer só o clube pernambucano).

O BR-20 que parecia que ninguém queria ganhar. O mais fraco Brasileirão no início dele também pela pandemia. Mas não só por ela. O campeonato que terminou de modo mais emocionante depois de muitos jogos intermináveis e fracos. Também dos melhores times do campeonato.

Mas que acaba na história pelo lance do capitão Edenilson que merecia melhor sorte. Como todo o Inter. E pra sempre Abel.

Mas pontos corridos, com tantas falhas em campo, erros de apito tecnológicos ou não, é um perde lá derrota cá que a conta fecha e o campeão tem seus méritos. Ainda mais com esse time e esse elenco. E essa camisa que mesmo só assumindo a ponta esperada na penúltima rodada, mostra que o que vale mesmo é ser líder na última delas.

O Inter foi gigante como o Beira-Rio. Durante o BR-20 perdeu logo de cara Guerrero por lesão. Como ficaria sem Boschillia, Saravia, Moledo. D'Ale partiu. Galhardo se lesionou em momentos importantes. Mesmo recuperando Dourado, lançando gurizada ótima com Abelão, não deu para recuperar.

Ou daria. Não fosse o rival este Flamengo. Que abusou do "deixaram chegar" na reta decisiva.

Chegou mesmo. Como Flamengo. Como Rogério Ceni mais uma vez. Agora treinador. Pra sempre no Morumbi onde viu ainda sub-20 o São Paulo campeão de 1991. Depois como ídolo, craque e artilheiro da temporada campeã em 2006. Goleiro e craque da defesa histórica de 2007. Tri em 2008 com recuperação espantosa de 11 pontos para o líder. Campeão nacional de campo e banco, como atleta e treinador, como também foram Ênio Andrade, Carpegiani, Carlos Alberto Torres, Pepe, Leão, Mário Sérgio, Márcio Bittencourt, Muricy e Ceni. Gente que deu volta olímpica como atleta (ou fazendo parte do grupo) e foi campeã depois no banco - mesmo que não terminando como treinador a temporada campeã.

Se muitas escolhas e trocas e mesmo o desempenho com Rogério se questionam, Arão na zaga, Diego mais atrás, e a retomada rubro-negra passam pelo seu comandante vitorioso. Como Diego, que há 19 anos ganhava o Brasil pela primeira vez protagonista no Santos que saiu da fila em 2002. Como o ainda jovem vovô garoto no meio de feras como Gabriel Barbosa. Gabigol. Gabi.

Mas é Gabi mesmo sinônimo de gol. De título.

De Flamengo.

O time que até tentou perder ou não ganhar várias vezes o BR-20.

Mas de novo não deu nem pro cheiro para quem torceu contra ou o nariz.