Fisio que corrigiu físico de Hulk provoca: “Calou a boca de todo mundo”

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Hulk comemora gol na Libertadores (Foto: BRUNA PRADO/AFP via Getty Images)
Hulk comemora gol na Libertadores (Foto: BRUNA PRADO/AFP via Getty Images)

Quando o Atlético-MG anunciou a contratação de Hulk, em janeiro deste ano, houve muitas dúvidas e uma desconfiança generalizada: seria um jogador de 34 anos, vindo de quatro temporadas na China, capaz de ser competitivo no futebol brasileiro? Sete meses depois, os números de Hulk não deixam dúvidas: 19 gols e 11 assistências em 43 jogos, ajudando a colocar o Galo como uma das grandes forças nas três frentes que disputa. Essa realidade pode surpreender boa parte da crítica esportiva, que duvidou que Hulk pudesse ser tão decisivo no Brasil – mas não o fisioterapeuta Eduardo Santos, diretor do departamento médico do ex-clube do atacante, o Shanghai SIPG FC (CHI). Eduardo foi o responsável pelo físico de Hulk nos últimos sete anos, mudando uma trajetória que antes era marcada por lesões e vendo sua própria carreira ser alavancada pelo sucesso que teve no tratamento do atacante. Ele conversou com a reportagem e contou como tudo isso aconteceu.

Eduardo tem 42 anos e é formado em fisioterapia pela PUC/MG, com pós-graduação em medicina esportiva e mestrado em engenharia biomédica. Começou no futebol em 2011, no Vitesse (HOL), clube-satélite do Chelsea, coordenando o setor de fisioterapia e reabilitação. O Tottenham, à época comandado pelo técnico André-Villas Boas, passou a mandar alguns atletas para se recuperarem sob os cuidados de Eduardo – e foi quando ele chamou a atenção do Zenit (RUS), que o convidou para chefiar seu departamento médico. Eduardo assumiu o cargo em 2014, mesmo ano em que Hulk chegou ao clube russo e fisioterapeuta e atleta começaram a trilhar uma trajetória que durou até 2021.

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“Quando eu conheci o Hulk, ele tinha um histórico de lesões muito grande na musculatura posterior da coxa, por ser um atleta muito explosivo e com capacidade de velocidade e de chute muito fortes. Uma das minhas missões era fazer com que o Hulk se lesionasse menos – ou seja, um trabalho preventivo”, conta Eduardo. Foi então que ocorreu o “turning point” na carreira do atacante. “A gente identificou que ele tinha uma potência muscular na frente da coxa muito maior do que nos posteriores. Foi quando a gente começou a equilibrar esses déficits de força que ele tinha, para gerar um equilíbrio muscular entre os quadríceps e os isquiotibiais. Fizemos esse trabalho, e o índice de lesões dele diminuiu drasticamente. Os resultados foram incríveis, e ele se valorizou ainda mais como atleta”, conta Eduardo.

A partir desse sucesso no Zenit, Hulk atraiu os olhares do Shanghai, que o comprou em 2016 por 55 milhões de euros (R$ 340,7 milhões), transação mais cara do futebol asiático até então. No entanto, em julho daquele mesmo ano, o atacante teve uma lesão em um tendão muscular, e o departamento médico do Shanghai não estava conseguindo resolver esse problema. Então, o clube o mandou para o Zenit para fazer o tratamento. “Conseguimos recuperar essa lesão em tempo recorde. O Shanghai ficou muito interessado em meu trabalho, e acabou me fazendo uma proposta. Foi quando vim da Rússia para a China para trabalhar no Shanghai”, explica Eduardo, evidenciando a ligação entre os rumos de sua carreira e o êxito em cuidar do físico de Hulk.

O trabalho de correção muscular para diminuir o risco de lesões foi mantido por Eduardo junto a Hulk no Shanghai, com o objetivo de que o atleta continuasse jogando bem mesmo ficando mais velho. “Ao contrário do que todo mundo pensava, de que ele iria envelhecer e ficar pior, foi o contrário: ele foi ficando cada vez melhor, cada vez mais adaptado. Como um bom vinho, foi envelhecendo e ficando melhor”, resume o fisioterapeuta.

Eduardo está há cinco anos trabalhando na China e afirma que, diferentemente do que muitos pensam no Brasil, o futebol chinês é sim competitivo – cumprindo, assim, papel importante na maturidade física de Hulk, ajudando-o a chegar no Atlético-MG em ótimas condições. “Os dados de GPS de jogos são extremamente equivalentes aos jogos que são feitos no Brasil: distância máxima, sprint, velocidade, atuações dos jogadores. É muito parecido. Mesmo. A gente tem médias de 11 km percorridos por jogador, em alta velocidade, acima de 25 km/h, que são as mesmas que acontecem no Brasil. Quem normalmente comenta ‘ah, o cara está jogando na China, vem de uma outra competição, que não é competitiva’ não tem conhecimento do futebol chinês, do que está acontecendo aqui. São três competições por ano, temos jogos praticamente a cada três dias, com intensidade e viagens longas”, comenta.

Mesmo estando longe fisicamente de Hulk, Eduardo acompanhou atentamente as críticas que foram feitas ao atleta quando ele chegou no Brasil. “Falaram que ele não estava jogando bem, que ele veio da China e que, por isso, não tinha capacidade de jogar. O Hulk calou a boca de todo mundo, mostrando que não tem nada disso. Ele está em uma de suas melhores fases”, avalia.

Para Eduardo, o “segredo” para Hulk estar tão bem atualmente vai além da massa muscular diferenciada, do trabalho de correção muscular feito por sua equipe ao longo dos anos e do cuidado que o atacante tem com sua alimentação: passa também e principalmente por sua mentalidade e inteligência emocional. “O que me chama a atenção no Hulk, que eu acho fantástico, é a cabeça que ele tem. Ele sabe usar as dificuldades à sua volta para se fortalecer. Essa é a sua grande força, o seu ‘superpoder’. As críticas deixam ele ainda mais motivado, para mostrar em campo que as pessoas estão erradas. Ele sempre foi assim. O Hulk tem a capacidade de superação, de um brasileiro mesmo, como vários outros brasileiros que são super-heróis. O Hulk para mim é um super-herói dessa forma”, opina. Outro detalhe que, na visão de Eduardo, vem fazendo toda a diferença para o bom rendimento de Hulk é a proximidade que ele tem da família estando no Brasil. “Ele está muito feliz na vida pessoa dele. Está próximo dos seus filhos, do pai, da mãe. Isso é um fator muito importante para ele”.

Na opinião de Eduardo, a evolução da medicina vem ajudando a prolongar a carreira dos jogadores de futebol, mantendo-os em alto nível em uma idade que, antigamente, significaria o fim da carreira. Para ele, Hulk é um desses atletas diferenciados, com muito tempo de futebol e muita coisa ainda para mostrar. “Não vejo atacante como ele no Brasil. Sem dúvida nenhuma, tem chance de seleção brasileira”, projeta.

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