Filha de ex-sparring de Popó, Bia Ferreira quase largou boxe, superou drama e agora é favorita a ouro

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Bia Ferreira é favorita ao ouro no boxe olímpico de Tóquio. Foto: Buda Mendes/Getty Images
Bia Ferreira é favorita ao ouro no boxe olímpico de Tóquio. Foto: Buda Mendes/Getty Images

Bicampeão brasileiro, tricampeão baiano e sparring do campeão mundial Popó, Raimundo Oliveira Ferreira, conhecido como Sergipe, havia transformado a garagem de sua casa no bairro de Nova Brasília, periferia de Salvador, em uma academia de boxe improvisada para jovens carentes.

Do alto do segundo andar do imóvel, a sua filha, Bia Ferreira, muitas vezes ouvia os golpes nos sacos e descia correndo para acompanhar os treinos.

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Ela tinha apenas quatro anos, mas, na próxima madrugada, quando entrar no ringue do outro lado do mundo, para fazer a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio, ela terá atingido o auge dessa caminhada aos 28 anos. Será, ainda assim, o primeiro passo de um sonho que não somente ela, mas muita gente ao seu redor espera que acabe com a medalha de ouro.

O otimismo é mais do que justificado.

Não apenas pelo histórico de seus conterrâneos: nas últimas quatro Olimpíadas, foram 17 baianos entre os 30 convocados no período, com o ouro para Robson Conceição em 2016 e o bronze para Adriana Araújo em 2012. Ele passa também pelo sucesso estrondoso de Bia, que, desde que se profissionalizou, ocupou o topo do pódio nos Jogos Pan-Americanos de 2019 e no Mundial do mesmo ano.

Ao longo dos cinco anos de ciclo até a viagem para o Japão, a pugilista não ficou nos três primeiros lugares em somente uma competição que participou. Não surpreende, portanto, que exista quem se refira a ela como “a medalha mais garantida do Brasil” nesta edição.

Uma pressão gigante, mas que não é nada para quem viu adiada a sua arrancada na modalidade ao ser suspensa por dois anos após denúncia de que participava simultaneamente de campeonatos de muay thai, algo que era proibido pela Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA).

Naquele instante, ela foi da euforia pelo nocaute em 30 segundos em sua luta de estreia pela possibilidade de encerrar até mesmo a carreira de forma precoce.

“Antes do Campeonato Brasileiro de 2014, saiu uma regra que dizia que não podia fazer outra arte marcial”, afirma.

“Não acredito que tenha sido injustiça a minha suspensão, porque a regra estava estabelecida. Não dei sorte por ter feito as aulas de muay thai e logo depois ter competido. Fiz sem saber. Se soubesse, talvez não teria feito. Mas eu não almejava ser uma atleta de alto rendimento no boxe. Praticava por causa do meu pai e gostava, mas não pensava em Jogos Olímpicos. Acho que tinha que acontecer”, completa.

O seu potencial era tal que, mesmo assim, os dirigentes brasileiros resolveram aguardar pelo fim de sua pena, a incluíram como sparring nos últimos Jogos no Rio de Janeiro e, então, em 2017, deram a ela a vaga de titular na categoria até 60 kg na seleção brasileira. A baiana radicada em Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais, não parou mais.

“Eu me vi perdida no momento da suspensão. Não sabia o que faria. Logo quando achava que tinha encontrado um caminho para minha vida, acontece isso. Mas pensei com calma que não deveria desistir. Minha família nunca teve dinheiro, mas me ajudou. E eu trabalhei. Dei aulas de boxe, tomava conta de crianças e ia desenrolando”, relembra.

Bia não precisa ficar mais ouvindo o som da trocação do andar de cima de sua casa. É ela agora a responsável por subir aos ringues para desferir os golpes que podem levá-la ao ouro.

“Estou muito feliz. Já imaginei e sonhei muitas vezes com este momento, e agora estou podendo aproveitar e vendo que é real, que está acontecendo”, conclui.

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