Filósofo deixa presidência de clube paulista e vira seu treinador

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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - "Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura."

A frase do pensador grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) é carregada como uma espécie de mantra pessoal para Geraldo Márgelo de Oliveira, 61, conhecido como Dado. O dirigente é um caso nada ortodoxo no futebol.

Presidente da Academia Desportiva Manthiqueira, time de Guaratinguetá que joga a quarta divisão paulista, o filósofo de formação resolveu largar o cargo máximo do clube para se aventurar como treinador à beira do campo.

"Por aqui sempre me chamaram de louco. Agora me chamarão de burro também. Podem falar à vontade porque, se tem uma coisa que não sinto é pressão. Faço algo em que acredito", diz à reportagem.

Para iniciar a nova aventura, Dado transferiu a gestão do clube temporariamente para seu filho Márgelo, 33. A ideia surgiu por dificuldades em contratar um nome com o perfil desejado para 2022.

"Praticamente trabalhamos sem técnico [no Paulista da Segunda Divisão, nome da quarta divisão], e estava muito difícil achar alguém que se adequasse ao nosso jeito. Consultei a federação sobre a possibilidade de troca na presidência. Eles deram o aval, então resolvi assumir", conta.

"Eu tenho conhecimentos e ideias bem claras, mas é só na prática que vou saber o que de fato sou capaz de entregar", acrescenta.

Não há impedimentos nos regulamentos da FPF (Federação Paulista de Futebol) para treinadores que não possuam licenças na última divisão do estado e na Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Ele conta com um auxiliar contratado neste ano, que diz ter trabalhado alguns anos com Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho (1939-2019), folclórico treinador com passagens por São Paulo, Corinthians, Ponte Preta e outros grandes clubes.

Dado ganhou projeção nacional ao apostar na contratação de uma treinadora mulher, Nilmara Alves, em 2012, e a bancou por longos anos no cargo. Ela não pôde assumir o posto desta vez.

No mesmo período, abriu ao público uma cartilha de bom futebol com requisitos obrigatórios para quem deseja atuar pelo clube. Ela proíbe o jogador de simular faltas, reclamar com o árbitro ou se beneficiar de qualquer outro lance duvidoso.

"Malandragem proibida", diz no primeiro de sete itens fundamentais. "Quando ocorrer falta (mão na bola), o atleta deve avisar o árbitro da intencionalidade do fato."

O time que veste laranja tem como inspiração o Carossel Holandês de 1974, de Rinus Michels, e a seleção brasileira de 1982, dirigida por Telê Santana. Os treinadores que trabalham com Dado não cantam jogadas à beira do gramado para não inibir a criatividade dos atletas. O capitão da equipe veste a camisa 1, e o goleiro, a 11.

"A minha ideia é simples: faço com os outros o que gostaria que fizessem comigo. Essa é a ética de [Immanuel] Kant. Não quero perder nem ganhar com um gol de pênalti roubado", explica.

"Eu sou romântico, não tem essa de time de operários. Futebol é feito para artistas, precisa ter arte mesmo não sendo no mais alto nível. E, para isso, você precisa dar liberdade técnica ao atleta", acrescenta.

O primeiro teste oficial como treinador ocorrerá a partir desta terça (4). A equipe estreará na Copa São Paulo contra o XV de Piracicaba. Também estão na chave, com sede em Guaratinguetá, o Vitória e o São José-RS.

Já nos primeiros treinos, ele conta ter surpreendido os jogadores ao fazer um trabalho coletivo pouco usual: sem bola. "Platão dizia que o nosso pensamento é perfeito, não erra. Os erros vêm das nossas atitudes."

Dado dividiu duas equipes de 11 jogadores, com coletes verdes e vermelhos. Os jogadores fingiam estar com a bola e, quando passavam, gritavam o nome do companheiro como se recebessem. Houve até a marcação de gols e bolas roubadas.

"Fiz isso para levantarem a cabeça, olharem e perceberem melhor os espaços. Jogadores nesta divisão em que estamos têm a mania de só olhar para o chão", afirma.

O trabalho foi alvo de brincadeiras da própria esposa, psicóloga de formação e hoje cozinheira da equipe. Ela comparou a atividade a uma cena do filme "Bicho de Sete Cabeças", protagonizado por Rodrigo Santoro, que narra a trajetória de um jovem internado em um hospital psiquiátrico.

"O Dado é um cara incrível, mas nada convencional. Ele traz o que acredita que é certo e é muito respeitado por todos. Tem coisas engraçadas, nunca tinha visto nada parecido com esse treino. Isso já ajudou a melhorar muito a qualidade de passes da equipe", diz o zagueiro Guilherme Figueiredo.

Oliveira afirma que sua loucura já deu à equipe um acesso, em 2017, quando conquistou o título da divisão e subiu para a Série A3.

"Sou tido como maluco, otário, ingênuo, mas vou acreditar até o fim que podemos montar um time vencedor e praticar futebol limpo. Subimos sem cai-cai, jogando limpo", insiste.

No último ano, o presidente também virou cozinheiro. Entregou a casa em que morava por dívidas para morar junto com a esposa no centro de treinamentos do clube. Com a dificuldade, precisou dispensar a cozinheira que estava contratada e assumiu o posto.

"Para mim, o importante é ser feliz dentro do meu universo. Virar treinador é uma necessidade de momento e mais uma realização", conclui.

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