Como encarar as festas de fim de ano em meio a uma pandemia?

Marcela De Mingo
·7 minuto de leitura
Woman with cup of coffee using laptop and headphones at Christmas time
Entre videoconferências, o receio da segunda onda e as incertezas, como lidar com as festividades de fim de ano em um ano marcado pela pandemia de coronavírus? (Foto: Getty Creative)

Com a chegada do mês de dezembro, uma das primeiras coisas que vem à mente são as festas. O Natal e o Ano Novo, agora, estão a apenas algumas semanas de distância; o recesso de fim de ano também, e, com ele, o merecido descanso depois de mais um ano de muito trabalho. No entanto, vivemos um momento absolutamente atípico, afinal, a pandemia de coronavírus trouxe muitas incertezas, tantas outras novidades e novos formatos, e, no meio de tudo isso, o questionamento sobre como lidar com eventos como as festas de fim de ano pairam no ar.

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Provavelmente, muita coisa será diferente dessa vez: talvez a reunião em família seja menor, só os parentes mais próximos. É possível também que o Ano Novo não aconteça na praia, pé na areia, mas em um lugar mais remoto, com alguns poucos amigos, em um sítio no interior do estado. Há quem siga pensado que o pior já passou e que a vida já "voltou ao normal" (o que nós não recomendamos, muito menos apoiamos), mas é fato que as festas de fim de ano em 2020 serão diferentes das que vivemos até agora.

É certeza que os convites para encontros familiares e de amigos vão acontecer durante essa fase, por isso, é importante saber também como lidar com eles. De acordo com a Dra. Maria Francisca Mauro, psiquiatra e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o primeiro passo é se certificar da sua saúde. Se necessário, faça os testes de coronavírus para garantir que você está livre da doença ou que, no mínimo, já a teve e, portanto, está com o sistema imunológico reforçado (porém, não completamente imunizado, vale o lembrete).

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Vale também fazer um check-up dos pré-requisitos básicos: ser ou não grupo de risco, os cuidados cotidianos que estão sendo tomados, a quantidade de interações sociais que ocorreram nas últimas duas semanas… Enfim, a lista básica do que determina a possibilidade ou não de adquirir e carregar o vírus - lembrando que a doença não afeta apenas quem a contrai. A grande questão da pandemia é a disseminação rápida do COVID-19 entre as pessoas, o que significa que você pode não conter sintomas, mas passar o vírus para alguém que, por ser do grupo de risco, tenha sérias complicações médicas.

De que maneira, então, lidar com esses convites tranquilamente? "As formas de tranquilidade dependem do quanto a pessoa se coloca no cenário atual e ainda se este 'convite' vai ser uma reunião mais cuidadosa – com número reduzido de pessoas, em espaço amplo – ou simplesmente uma reunião, sem que qualquer cuidado ou precaução esteja sendo levado em conta", explica a Dra. Maria.

Atente-se à sua sensibilidade

Com informações tão confusas e a incerteza sobre o que vai acontecer daqui para a frente, é normal que as pessoas se sintam divididas sobre o que fazer. No entanto, caso a melhor opção, considerando os pontos apresentados acima, seja passar as festas de fim de ano em resguardo, o mais importante é considerar alguns pontos.

"A pessoa que já tomou esta decisão precisa ver o quão se sente confortável diante disso", explica a médica. "Algumas pessoas ficam mais sensíveis no final de ano e, se estão tristes ou com problemas mais sérios em suas vidas, o ficar 'sozinha' pode ser um confronto muito duro para suas questões emocionais. Outras já estão habituadas a este convívio com si mesmo de forma mais harmoniosa e não se sentem pressionadas a 'ter que' criar cenários de convívio social para se perceberem mais amparadas."

Por isso, a Dra. Maria explica sobre a importância de considerar o que você sente ao passar datas comemorativas como essas sozinho. Se essa solidão for considerada um marcador de fracasso, um problema, algo de ruim, então, vale a pena reconsiderar a decisão e buscar a forma mais confortável para celebrar essas datas na companhia das pessoas que você ama.

"Faço referência aos que, para suportarem este lugar próprio e solitário, passam a abusar de remédios, comida, uso de álcool e drogas, ou mesmo alguns comportamentos nocivos como o abuso de pornografia ou jogos on-line", explica ela. "Previna-se para não criar uma armadilha que o prenderá numa condição emocional que não suportará, e tente perceber se já não esgotou seus recursos emocionais para driblar os desafios atuais e necessita de suporte profissional da saúde mental."

O período de fim de ano é de atenção justamente porque questões de cunho emocional, como solidão, sensação de fracasso, burnout ou até desesperança ficam mais evidenciadas. Não à toa, é um momento em que os números de tentativa de suicídio costumam crescer no mundo inteiro e profissionais da área de saúde mental, alertam para essa possibilidade. O CVV, Centro de Valorização da Vida, costuma notar um aumento de 15% nas ligações recebidas durante o período de Natal e Ano Novo. Isso não significa que esse será o seu caso, mas é importante observar a si mesmo para evitar chegar a extremos, se possível.

"Aos que já conseguiram se sentir mais confortáveis mediante os desafios que atravessaram ao longo destes meses, estão satisfeitos com as interações virtuais e criando em suas rotinas estratégias – hábitos que os acalmam - ou não tem o final de ano cristão como uma tradição, podem tomar esta decisão de uma forma mais segura", continua a médica.

Desenvolva o otimismo

Um comportamento muito comum das pessoas é esperar que a virada de ano automaticamente traga uma visão melhor, mais otimista e promissora sobre a vida. No entanto, a psiquiatra atenta para o fato de que o otimismo não funciona assim. Segundo ela, ele é um marcador emocional de pensar em perspectiva, com uma projeção positiva do que se espera, criando planos para que possa se sonhar e ter capacidade de olhar a situação de uma forma mais generosa.

"Não existe um portal mágico para que a pessoa 'ranzinza' ou 'rabugenta', com seu pessimismo, atravesse o ano e olhe o cenário de forma positiva. Precisa-se desenvolver o otimismo, fazer um exercício diário de conseguir perceber o que se tem ao invés de apenas lamentar o que tem falta. A ausência também precisa estar presente, para que não criemos 'ufanias subjetivas', à parte da realidade", explica ela. "Seu otimismo deve estar cercado de entusiasmo, sem que se deixe seduzir pela ilusão."

Não ignore os sinais

A conclusão, no entanto, é simples. Se 2020 foi um ano complicado para você, se você sente que já está em crise e que não tem recursos emocionais o suficiente para lidar com o período de festas, o momento é de atenção máxima e, principalmente, de aceitar buscar ajuda profissional.

Vale a pena também buscar compreender se o que você anda sentindo é apenas um desânimo em relação ao curso do último ano e um cansaço por conta do estresse e dos efeitos da pandemia - o que pode ser administrado cada um consigo mesmo com descanso, conversas com a sua rede de apoio, exercícios físicos e alimentação balanceada -, ou se o seu estado emocional atingiu um ponto em que pensamentos suicidas e de autoflagelação, de desesperança, medo e desânimo atingiram um nível de descontrole - nesse caso, não hesite em pedir ajuda.

Vale lembrar que é possível encontrar apoio discando 188 para falar com um dos atendentes do CVV (ligação gratuita a qualquer hora do dia ou da noite) e que existem lugares em grandes capitais como São Paulo que oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito. Acima de tudo, mantenha apenas uma coisa em mente: buscar fazer aquilo que deixa você totalmente confortável.