Fernando Martinho: Os olhos enxergam o que se quer enxergar

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Aquilo que alguns chamam de épico pode ser enxergado somente como um resultado histórico. O placar elástico da vitória de 6 a 1 do Barcelona sobre o PSG foi sim, por uma questão matemática, histórico. Mas épico não. É uma maneira de querer enxergar as coisas.

Os olhos escolhem aquilo que se quer enxergar muitas das vezes. Quase sempre é uma escolha. Isso passa pela discussão Pelé e Maradona, ou Pelé e Messi. Existe boa ou má vontade com qualquer coisa. Um feito costuma pesar mais pra um do que pro outro dependendo da benevolência.

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O pênalti no Neymar, por exemplo. Só vê pênalti quem quer ver. Ele claramente toca com seu joelho na nuca de Meunier e não o contrário. O lateral belga já estava caído e Neymar provoca sua própria queda após o toque que ele deu no defensor. Futebol é um esporte de contato, e dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Não é porque há um contato que há falta. Nem falar do pênalti em Suárez.

O mesmo lance, se fosse a favor do Real Madrid e em cima de Cristiano Ronaldo, haveria uma comoção mundial. Se houvesse, então, no mesmo jogo um pênalti sobre Sergio Ramos, toda a antipatia histórica contra o Real Madrid desabaria e provocaria um escândalo global. Já os catalães contam com a benevolência de grande parte da opinião pública por ser a oposição ao Real Madrid, clube associado historicamente com o franquismo. O Barça é a esquerda. É o separatismo. É ser contra o poder.

Por se tratar justamente de Barcelona, e nele estarem Messi, Suárez e Neymar, sim, um dos melhores ataques que o futebol já reuniu, há uma licença poética para que o feito seja maior do que os fatos.

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O grande feito do Barcelona foi um: o de acreditar. E isso talvez se atribua a dois jogadores: Mascherano e Neymar. Esses foram os dois únicos que acreditaram quando a vaca já tinha ido pro brejo. Mascherano salvou um gol de Di Maria que sacramentaria o jogo, correndo o risco de cometer o pênalti, e acreditou naquela jogada até o fim. Neymar pegou pra bater uma falta que deu esperanças quando parecia não haver mais. E pingou uma bola com o peso certo no local certo para que alguém só desviasse pro sexto gol.

A fraqueza psicológica do PSG não pode ser esquecida jamais. Começando pelo seu treinador, Unai Emery, que se mostrou pequeno para jogos dessa hierarquia. Passando por seu capitão, Thiago Silva, que já havia demonstrado uma instabilidade emocional que os capitães não podem transmitir: seja chorar ou colocar a mão na bola em momentos chave. Isso contagiou negativamente o resto do time que afrouxou diante de um adversário que foi para matar ou morrer. O PSG morreu. 

NÚMEROS DO JOGO

A arbitragem foi a liga que faltava pra fazer esse bolo crescer. É verdade que os melhores times tendem a ser mais beneficiados que os piores times por uma questão óbvia: eles atacam mais. Se atacam mais, mais jogadas na área rival existirão e portanto, mais pênaltis mal marcados poderão ser assinalados. É uma triste verdade. Mas este caso foge totalmente às estatísticas, o que agrava ainda mais os fatos e diminui sim o feito.

Se o feito fosse maior do que os fatos, não haveria a perpetuação do assunto. Não haveria a discussão e somente a contemplação. Se a atuação do Barça fosse épica, os lances capitais seriam jogadas, dribles e gols, e não bate-rebates ou pênaltis inexistentes que derivaram em gols. Portanto, basta fazer o seguinte exercício. E se fosse a favor do Real Madrid. Existiria a mesma benevolência? Seria épico, ou seria um escândalo galático?