Felipe Neto sob ameaça: JN mostra os estragos da engrenagem de fake news

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O youtuber Felipe Neto durante evento em 2018. Foto: Mauricio Santana/Getty Images
O youtuber Felipe Neto durante evento em 2018. Foto: Mauricio Santana/Getty Images

Levada ao ar na quinta-feira 30, a reportagem do Jornal Nacional sobre as ameaças contra o youtuber Felipe Neto serve como roteiro para entender os impactos, sob o ponto de vista da integridade física, das campanhas de ódio e difamação promovidas por milícias criminosas do mundo virtual.

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No caso do influencer, o esgoto produzido nas redes desembocou com um carro de som e intimidações na entrada do condomínio onde mora no Rio de Janeiro.

O material pode ajudar as autoridades a ligarem os pontos das engrenagens movidas entre financiadores e disseminadores de fake news, que não produzem estragos apenas no campo virtual.

Felipe Neto se tornou alvo de milícias políticas desde que se tornou um player do debate político.

Enquanto dizia o que pensava nas redes, ou promovia brincadeiras em seus vídeos com milhões de visualizações, ele podia entrar e sair de casa quando e como bem entendesse. Bastou, porém, ganhar status de formador de opinião para se tornar o alvo preferencial da esgotosfera.

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Em maio, o youtuber criou celeuma nas redes ao afirmar que quem cala perante o fascismo é fascista. 

Não demorou para ser convidado a falar em programas de prestígio, como o Roda Viva, no qual não poupou críticas ao governo de Jair Bolsonaro

Ele ganhava ali a credencial de ator político relevante, não apenas um youtuber com 60 milhões de seguidores, a maioria jovem, e pouca coisa a dizer.

Pais de adolescentes relatam que, desde que o youtuber passou a se posicionar politicamente, os filhos também passaram a se questionar sobre temas que antes não os mobilizavam. Os riscos à democracia, por exemplo.

É tudo o que o entorno do presidente, engajados no culto à personalidade de Jair Bolsonaro, não querem. Uma população que pensa é uma população que não engole mitos, ainda mais os mequetrefes que se aboletaram no Palácio.

Há duas semanas, Felipe Neto chegou ao auge da nova fase ao publicar um artigo em vídeo no site do New York Times dizendo que Bolsonaro era o pior líder político do mundo na condução da pandemia

Foi um petardo. No Brasil, há pelo menos cem analistas políticos que poderiam escrever testes e mais teses sobre a conjuntura pandêmica da ignorância governamental ao longo da crise. Mas poucos, como Felipe Neto, conseguiriam resumirir tudo, com sacadas e frases de efeito, num vídeo de apenas seis minutos. O rapaz, poucos duvidam disso, tem talento.

A reação dos bolsonaristas mais apaixonados, que poderiam responder com dados e contrapontos, foi a de sempre. A violência virou pauta do Jornal Nacional, o jornalístico com maior audiência da TV aberta. A reportagem mostrou as ameaças ao youtuber chegaram à porta do seu condomínio com discurso de ódio promovido por um homem identificado como “Cavallieri, o guerreiro de Bolsonaro”. Cavallieri é desses que postam fotos nas redes segurando fuzil. Ele gritava ao microfone que Neto era um “pilantra pedófilo disfarçado de apresentador de crianças”. 

“É um nível de perseguição que eu não imaginei”, afirmou Felipe Neto ao JN. 

Ele se referia a uma montagem que falsificou o seu perfil em uma rede social e induzia os leitores a acreditar que ele fazia apologia à pedofilia. Um site de checagem mostrou que a imagem era falsa, mas o estrago estava feito.

“Nunca dei qualquer margem ou qualquer suspeita, ou levantei qualquer tipo de insinuação que pudesse levar qualquer pessoa a me associar com esse crime tão perverso, tão odioso”, disse o youtuber, que recebeu notas de apoio de entidades como a Associação Brasileira de Imprensa, o Instituto Igarapé e o Instituto Vladimir Herzog. “Não seja manipulado por essa orquestra, por essa articulação”, ele pediu na entrevista.

O episódio acontece no momento em que o Supremo Tribunal Federal está mobilizado em desmontar a rede de desinformações que correm pelas redes e ameaça a integridade dos membros da corte. 

Felipe Neto pode disponibilizar um material e tanto para as autoridades identificarem os delinquentes que não temem dar o rosto para difamar, ameaçar, fazer blitz na frente das casas de quem não está disposto a dobrar a espinha para seu líder máximo.

Uma punição exemplar é o mínimo que se espera.

Felipe Neto ainda tem uma multidão, além das atenções dos principais veículos de imprensa do país, como testemunha da tragédia que se anuncia como ameaça.

Nem todos têm a mesma repercussão.

Basta lembrar o que acontece com os ativistas ambientais que atuam, geralmente, longe das atenções dos grandes centros.

Segundo a ONG internacional Global Witness, o Brasil figura em terceiro lugar no ranking que contabiliza o número de assassinatos de ativistas ambientais e defensores dos direitos humanos pelo mundo. Só em 2019 foram 24 mortos, entre os quais dez líderes indígenas.

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