Febre da Copa não faz o futebol do Catar evoluir

Akram Afif é o principal jogador do Catar na Copa de 2022, mas no futebol de clubes só conseguiu um período curto no Sporting Gijón, da Espanha. Foto: Juan Luis Diaz/Quality Sport Images/Getty Images
Akram Afif é o principal jogador do Catar na Copa de 2022, mas no futebol de clubes só conseguiu um período curto no Sporting Gijón, da Espanha. Foto: Juan Luis Diaz/Quality Sport Images/Getty Images

Em 12 anos, o Catar investiu na Copa do Mundo e em seu futebol local. Apenas para construir a estrutura do torneio foram US$ 200 bilhões. A academia Aspire, a poucos metros do Khalifa International Stadium, tornou-se um centro de pesquisa e de revelação de jogadores. Há a ideia de, vácuo do torneio da Fifa, incrementar a liga nacional e torná-la mais popular.

Há esportes mais populares no país, com corrida de camelos e a caça com falcões, a ave mais popular da região.

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Depois de mais de uma década de tentativas, o Catar ainda não produziu nenhum ídolo no futebol nacional. Mesmo com a contratação de um técnico espanhol, Félix Sánchez, formado na base do Barcelona, as coisas não aconteceram. A seleção local foi a pior da Copa do Mundo: perdeu suas três partidas (para Equador, Holanda e Senegal) e só fez um gol.

“O que as pessoas precisam entender é que se trata de um processo. É preciso criar uma cultura não só do torcedor, mas da formação de atletas. Se insistir, os resultados devem vir”, disse Sánchez.

O time teve momentos encorajadores nos últimos anos. Venceu a Copa da Ásia de 2019. Ficou em terceiro na Copa Árabe de 2021.

O melhor que o país conseguiu produzir de jogadores foi o meia-atacante Akram Afif, que teve uma rápida passagem, por empréstimo, no Sporting Gijón, da Espanha.

Andar pelas ruas de Doha é se deparar com cartazes e outdoors em que nomes importantes do Mundial aparecem em imagens individuais. Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Memphis Depay e Kylian Mbappé são alguns deles.

Prédios de Doha com craques da Copa. Foto: KARIM JAAFAR/AFP via Getty Images
Prédios de Doha com craques da Copa. Foto: KARIM JAAFAR/AFP via Getty Images

Quando a divulgação é para a seleção do Catar, é sempre um conjunto de jogadores. Jamais um deles sozinho.

O principal ídolo do futebol do Catar não foi para a Copa do Mundo. Mohamed Salah, maior nome muçulmano, a religião oficial do país, do futebol, caiu com o Egito no playoff das eliminatórias. Foi eliminado por Senegal do também craque que representa o islã, Sadio Mané. Ele também não atuou no torneio, mas por estar lesionado.

No Mundial de Clubes de 2019, disputado em Doha, a presença de Salah salvou a média de público da competição. Apenas nos jogos em que ele esteve presente houve lotação máxima e o atacante foi eleito o melhor jogador da competição, mesmo sem tê-lo sido.

“Você precisa colocar os cataris para jogar. Pode até naturalizar alguns jogadores, contratar estrangeiros para o campeonato local, mas o princípio é o mesmo que valeu para os Estados Unidos no passado. Você precisa ter jogadores do país em campo. Só assim você pode criar um ídolo nacional”, afirma o brasileiro Evaristo de Macedo.

Ele levou a seleção sub-20 ao vice-campeonato mundial em 1981, um feito não repetido até hoje.

Evaristo de Macedo já treinou o Catar. Foto: Action Images / Juha Tamminen
Evaristo de Macedo já treinou o Catar. Foto: Action Images / Juha Tamminen

Há um problema cultural e político. Das cerca de três milhões de pessoas que formam a população do Catar, apenas 350 mil são cataris. A massa restante é formada por imigrantes. A maioria, especialmente a da mão de obra de infraestrutura e serviços, encontra dificuldades intransponíveis para levar a família para morar no país. As exigências de documentação e renda tornam isso inviável.

Sobra pouca gente para representar o Catar em campo.

“A gente tem colocado uma semente. Vai vir uma nova geração e espero que se inspirem nesta equipe”, almeja Afif.

O consenso é que isso pode acontecer se o Catar continuar a disputar torneios com bons se resultados e se obtiver classificação para as Copas do Mundo. É preciso também criar uma torcida da seleção. A massa imigrante prefere quase sempre Brasil e Argentina. Não há ligação sentimental com o país em que moram, mas não nasceram. Também não há grande esforço de cataris para que isso aconteça.

Imigrantes que participaram da construção de estádios receberam ingressos para a partida da seleção local contra o Senegal, a despedida da Copa. Poderia ser uma recompensa pelo esforço mas serviu para mostrar que a arena em Al Bayt estava com uma lotação maior que a real. Tanto que eles só puderam ficar no anel inferior, o que aparece nas câmeras de televisão.