Por que Jair Bolsonaro deveria se preocupar com a prisão de Fabrício Queiroz?

Yahoo Notícias
Fabrício Queiroz chega de helicóptero ao Rio após ser detido no interior paulista. Foto: Allan Carvalho/NurPhoto v(ia Getty Images)
Fabrício Queiroz chega de helicóptero ao Rio após ser detido no interior paulista. Foto: Allan Carvalho/NurPhoto v(ia Getty Images)

Se Fabrício Queiroz tivesse sido preso no escorregador do Jotalhão em um conhecido resort temático de Atibaia, no interior de São Paulo, o cometa previsto pelo amigo e ex-assessor da família Bolsonaro não faria tanto estrago, como fez, na rampa do Palácio do Planalto, a 990 quilômetros dali.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

O fato é que, a despeito das negativas de que soubessem o paradeiro do aliado tóxico, Queiroz estava na casa do advogado do presidente e sua família.

A essa altura, quem não se informou apenas pelo grupo de WhatsApp dos apoiadores fanáticos do presidente já percebeu que Queiroz é um homem encrencado.

Leia também

O pedido que embasou a sua prisão, assinado pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, dá uma amostra de quem era, como vivia e como se alimentava o ex-PM empregado até 2018 no gabinete de Flávio Bolsonaro, hoje senador, na Assembleia Legislativa do Rio.

Algumas suspeitas levantadas pelo Ministério Público:

-Queiroz teria recolhido R$ 2 milhões em rachadinha, parte em dinheiro vivo, enquanto trabalhava para Flávio Bolsonaro;

-Ele era destinatário de um depósito de R$ 400 mil feito por Adriano da Nóbrega, miliciano morto em uma ação policial na Bahia e seu amigo de longa data em churrasco e outros objetos pontiagudos;

-Sua mulher, Márcia Oliveira Aguiar, agora foragida, encontrou com a mãe do miliciano para discutir um plano de fuga orientado pelo marido;

-A mulher pagou R$ 174 mil em dinheiro vivo ao hospital onde Queiroz realizou tratamento contra um câncer;

-Ele elaborou com o pai de uma ex-assessora um plano para fraudar o ponto de controle de entrada e saída de funcionários na Alerj;

-Sua própria filha dizia que o pai não cansava de “ser burro” por seguir fazendo articulações políticas, mesmo à distância.

Segundo a decisão judicial, Queiroz orientava testemunhas em seus depoimentos no caso das rachadinhas, mantinha influência sobre milicianos e políticos em nomeações em Brasília. Sua mulher chegou a comparar a sua situação à de um bandido preso “dando ordens” e “resolvendo tudo” do lado de fora. Isso apesar de não ser oficialmente, até então, um foragido da Justiça. Apenas um aliado indesejado repentinamente desaparecido. 

A prisão dos investigados, segundo o juiz, deveria ser decretada para “asseguramento da aplicação da lei penal, haja vista que foi exaustivamente demonstrado pelo Ministério Público que ambos estão se escondendo, recebendo auxílio de terceiro, que possivelmente detém autoridade sobre os referidos investigados”.

Quanto mais se sabe sobre Queiroz, mais se complica a situação de Flávio Bolsonaro, que já tentou se desvencilhar do aliado, em outros tempos, dizendo que seu erro foi confiar demais no ex-PM.

Por confiar demais leia-se deixar que o auxiliar mordesse parte do salário dos funcionários, alguns deles supostamente fantasmas e com ligações com a milícia, caso da mãe e da mulher de Adriano da Nóbrega, que até ser capturado levava uma vida nababesca, financiada sabe-se lá como ou por quem, na Bahia.

Sabe-se, por exemplo, que Queiroz pagou até a mensalidade dos filhos do senador. Quem observa as ironias da história pode ver ali o Fiat Elba versão 2020, numa referência ao automóvel e outras contas particulares do então presidente Fernando Collor pagas pelo tesoureiro tóxico de sua campanha, PC Farias.

Ah, sim: um dos alvos da ação policial é funcionário de seu gabinete em Brasília, o que pode indicar o esgarçamento do elo até o Senado.

Flávio é suspeito de ser o real beneficiário da caixinha movimentada por Queiroz. São indícios os faturamentos, até onde se sabe irreais, de uma loja de chocolates e o lucro acima do valor de mercado com a venda de imóveis no Rio.

Em outras palavras, o filho do presidente está encrencado.

Mas, antes que alguém grite “eu votei no pai, e não no filho”, é bom lavar as mãos com cuidado.

Queiroz era amigo do pai antes de ser funcionário, ou sócio, do filho. A amizade vem dos tempos de militar, nos anos 1980.

E o dono da casa onde estava abrigado era um advogado com trânsito no Planalto. Uma espécie de porta-voz da família em casos de incêndio. 

Na véspera da prisão, Frederick Wassef havia prestigiado a posse de Fábio Faria no Ministério das Comunicações.

Era ele quem, até outro dia, dizia ser advogado de Bolsonaro, não de Queiroz, ao ser questionado sobre o paradeiro do ex-funcionário.

A sombra de Queiroz se expande para além dos gabinetes de Flávio, de quem esteve ao lado durante a campanha, conforme uma selfie-confissão do primogênito, e chega ao Planalto. Quando deputado, Bolsonaro empregou em seu gabinete uma filha do amigo, Nathalia Queiroz. Ela batia ponto em Brasília enquanto trabalhava como personal trainer no Rio de Janeiro.

E até hoje é mal explicada a razão de um depósito de Queiroz para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Bolsonaro pai e Bolsonaro filho precisam explicar por que pai e filha foram exonerados em outubro de 2018. Algo a ver com a suspeita, levantada pelo empresário Paulo Marinho, de que foram avisados ilegalmente de que uma investigação da polícia chegaria a eles?

Ao ser detido, Queiroz queria saber se as filhas também tinham sido presas. Não foram. Mas sua mulher, que ele temia ser alvo, poderá ser levada à carceragem em breve.

Há muito a ser esclarecido.

Queiroz poderá em breve dizer o que sabe.

Se agiu sozinho, como uma ilha que trai a confiança dos seus superiores, ou se obedecia ordens. Pode contar também o que fazia numa casa do advogado da família presidencial quando precisou submergir.

Entre Atibaia e a Bahia, o sobrevoo das investigações sobre rachadinhas, contatos e negócios com a milícia tem uma escala obrigatória em Brasília.

Parceiro de Queiroz, Adriano da Nóbrega morreu em confronto com a polícia no dia 9 de fevereiro deste ano.

Cinco dias depois, Bolsonaro nomeou o general Braga Netto para a Casa Civil e reforçou de vez o cinturão militar em torno do seu governo, que passou a flertar cada vez mais com a palavra “golpe” enquanto outras outras bases de sustentação presidencial perdiam espaço, como Onyx Lorenzoni e Sergio Moro. 

A reforma administrativa conta agora com a aderência do Centrão, que passou a ser agraciado e poderá barrar um eventual processo de impeachment relacionado a supostos crimes de responsabilidade, funcionamento de gabinetes do ódio, fábricas de fake news e ataques a Outros Poderes.

Esta milícia informal de bases eletrônicas têm uma obsessão: viver num mundo sem juízes, sem polícia independente, sem parlamentares ou governadores desconfiados e com apoiadores armados.

Neste mundo ninguém bate à porta de aliados para esclarecer o que tanto havia a esconder.

Leia também