Exibições de jogos sem cerveja frustram trabalhadores migrantes na periferia do Qatar

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - "Assistir ao jogo é sobre se reunir, relaxar. Queria poder beber." Assim como turistas, Peter Kaname, 34, de Gana, também está frustrado com as restrições do regime do Qatar sobre os locais em que é permitido beber na Copa do Mundo.

Kaname queria consumir cerveja enquanto assistia com amigos a Dinamarca e Tunísia, nesta terça-feira (22), na Fan Zone perto de sua casa, mas não é permitido. O espaço disponibiliza o produto apenas na versão sem álcool.

Assim como seus colegas, ele vive em Asian Town, bairro na periferia de Doha conhecido por abrigar homens estrangeiros que estão no Qatar para trabalhar com construção e infraestrutura. Grande parte deles são oriundos de países como Nepal, Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka, Índia e Gana.

Kaname viajou ao Qatar, sem familiares, para trabalhar. Por isso, valoriza momentos de lazer com os amigos, como quando assistia, em uma tarde com clima quente, ao jogo que terminou em 0 a 0.

"Mas tenho que respeitar [as regras sobre álcool], porque tenho que trabalhar, não tenho escolha. Como não posso perder meu trabalho, melhor me acalmar", conta.

Na última semana o regime qatariano, por meio do Comitê Supremo para Entrega e Legado, decidiu banir a venda da bebida dentro dos estádios e em seus arredores.

Após a decisão, um comunicado oficial da Fifa afirmou que a venda de cerveja aconteceria em outros locais.

"Após discussões entre o país anfitrião e a Fifa, uma decisão foi tomada para focar a venda de bebidas alcoólicas no Fan Festival, outros destinos turísticos e pontos autorizados, removendo pontos de venda de cerveja dos perímetros da Copa do Mundo de 2022", disse a entidade.

A bebida é uma das preferidas do office boy Shiva, 22, que trocou o Nepal pelo Qatar para trabalhar há cerca de um ano. "Eu gostaria de ter uma cerveja enquanto eu estava assistindo ao jogo", diz.

A festa em que estavam Kaname e Shiva foi montada para trabalhadores assistirem às partidas sem precisar sair da região. Grande parte mora em um complexo construído exclusivamente para os homens que atuam em construção e infraestrutura.

É por isso também que, ao olhar para a grande arquibancada da quadra de críquete do bairro, ocupada em parte pela Fan Zone, não se via mulheres.

Os assentos, que davam a volta na maior parte do campo, eram tomados por homens. Reservada, a pequena área dedicada às torcedoras estava praticamente vazia -durante o jogo, o espaço estava ocupado por homens que organizaram o evento..

Menos de dez mulheres passavam pelo local -e chamavam atenção, em meio a cerca de mil homens.

Em dados momentos, a música era silenciada e os telões colocados para os jogos indicavam que era hora da oração. Quase ninguém seguia o ritual.

A Fan Zone de Asian Town tem decoração simples e atrações um tanto decadentes, diferentemente daquelas montadas na região central de Doha, que têm grandes espaços de convivência e várias opções de lazer.

Na periferia da cidade, foi organizada uma competição de drible e chutes a gol, além de outros jogos.

O suficiente, porém, para que os trabalhadores se divertissem. Cada jogo formava filas longas e, a cada drible, um "olé", cada qual em sua língua. O gol do colega desconhecido era comemorado, e o espaço parecia capaz de garantir diversão durante o Mundial.

Também havia mais tranquilidade no espaço. A zona não parecia projetada para receber turistas, do cardápio à organização. Os atendentes dos bares eram do Nepal e da Índia e não falavam inglês.

As opções do menu eram mais simples do que aquelas oferecidas nas Fan Zones mais centrais, e as filas, inexistentes. A cerveja sem álcool não fazia sucesso.

O segurança Tesh Mutuku, 25, por exemplo, é mais chegado em drinques fortes. Aceitaria, porém, a companhia de uma cerveja -com álcool- durante os jogos. Ele fica no país apenas por três meses e depois volta para Gana, sua terra natal.

"Para mim, qualquer bebida seria suficiente", diz.

À reportagem o Comitê Supremo para Entrega e Legado declarou que as bebidas alcoólicas só são vendidas no Fan Festival, da Fifa, e em bares e hotéis autorizados. A Fifa disse que toda a responsabilidade pelas Fan Zones é do Qatar.