Ex-funcionária brasileira detalha situações de assédio sexual sofrido em time da NFL

Artur Rodrigues
·5 minuto de leitura
LANDOVER, MD - JULY 07: A Washington Redskins helmet logo adorns a window on the outside of FedEx Field on July 7, 2020 in Landover, Maryland. After receiving recent pressure from sponsors and retailers, the NFL franchise is considering a name change to replace Redskins. The term "redskin" is a dictionary-defined racial slur for Native Americans. (Photo by Drew Angerer/Getty Images)
Washington Football Team vive uma época de polêmicas, com as acusações de assédio e a troca de identidade da franquia (Drew Angerer/Getty Images)

O escândalo de assédio sexual no Washington Football Team está longe de ter um fim. Após a primeira reportagem do Washington Post, publicada em 16 de julho deste ano, com relatos de 15 ex-funcionárias que alegaram terem sido assediadas sexualmente, outras mulheres que também trabalharam na franquia resolveram se abrir sobre o que acontecia no escritório do time da capital americana. Entre elas há uma brasileira, Alicia Klein, que trabalhou na equipe em 2010.

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Alicia é jornalista e fez mestrado em gestão esportiva na Universidade de Georgetown, em Washington. A cidade é uma das poucas dos Estados Unidos que tem ao menos um time em todas as cinco principais ligas esportivas do país (NFL, MLB, NHL, NBA e WNBA) e esse foi um dos motivos para a brasileira optar por um mestrado na cidade. Ela começou o curso em janeiro de 2010 e em março conseguiu um estágio na franquia de Washington da NFL, à época ainda com o nome de Redskins.

Alicia foi inicialmente contratada para trabalhar na área de marketing, mas o seu chefe na época, Larry Michael, citado na matéria do Washington Post como um dos assediadores, acabou transferindo-a para a produção de conteúdo em espanhol.

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A infraestrutura do escritório da franquia foi uma das primeiras coisas que impressionou a brasileira negativamente. "Os computadores não funcionavam. Eles tinham acabado de assinar um contrato de 100 milhões de dólares com o Albert Haynesworth (ex-jogador), mas o meu computador não funcionava, sabe?”, conta ela em entrevista ao Yahoo Esportes.

Aos poucos Alicia descobriu que a infraestrutura precária do escritório não era o maior dos problemas. Logo em sua primeira semana de trabalho as suas colegas já lhe alertaram para tomar cuidado quando fosse trabalhar de saia. “Disseram para não ficar parada no topo da escada porque os homens olhavam e faziam comentários”, diz.

Ela relata que havia algumas regras que corroboravam com um ambiente hostil e desconfortável, como a proibição às mulheres de frequentarem a área operacional de futebol, onde teriam contato com jogadores, treinadores, entre outros.

“Se precisasse chamar algum jogador para uma entrevista no estúdio, eu precisava pedir para algum colega homem ir chamá-lo. Isso era institucionalizado, tinha e-mail do RH dizendo que as mulheres não podiam frequentar a área de operações de futebol”.

Conforme a vivência de Alicia dentro da franquia aumentou, as situações de assédio passaram a acontecer diretamente com ela. “Dois dos personagens que estão na matéria do Washington Post faziam comentários sobre o que eu estava vestindo, sobre minha aparência. Eu pedia uma ajuda com algo do trabalho e me chamavam para tomar café, diziam que iam me levar para jantar”, relata a brasileira.

Ainda houve uma situação em que ela foi perseguida por um jogador da equipe, que a chamava para sair insistentemente. “Um dia saí do trabalho e ele estava me esperando em frente ao meu carro”, conta ela.

A cada assédio sofrido, Alicia percebia que não tinha para onde correr. Não poderia fazer uma denúncia, pois o seu chefe era um dos notórios assediadores e uma das pessoas mais poderosas da empresa. Também não se sentia segura para fazer uma queixa na universidade, pois entre esta e a franquia havia uma parceria de muito prestígio. Receava não ser ouvida.

“A partir do momento que o RH manda um e-mail dizendo que mulheres não podem frequentar determinados ambientes, isso está institucionalizado. É afastar as presas dos predadores, a gente era um objeto”, diz.

Quando percebeu que não poderia fazer uma denúncia ou conversar com alguém para que essas situações não se repetissem, a brasileira começou a considerar deixar a franquia. Mas, isso não seria uma decisão fácil. Tratava-se de um cargo muito cobiçado em uma das ligas esportivas mais ricas do mundo. Dizer “não” para isso sem que ninguém soubesse o real motivo deixou inúmeras dúvidas em sua cabeça.

Alicia chegou à equipe para trabalhar apenas durante a pré-temporada. Depois, teve seu contrato estendido até o fim do training camp, que são os últimos treinos antes do início do campeonato. Ela recebeu uma oferta para ficar no cargo durante toda a temporada quando esta estava prestes a começar, mas recusou e optou por deixar a franquia. Foi difícil, segundo ela, aceitar essa decisão. Foram anos de dúvidas sobre se isso foi a coisa a certa a se fazer, até que vieram à tona as notícias dos assédios na equipe. “Só fiz as pazes com a minha decisão quando eu li a matéria do Washington Post. Ali pensei que sair foi realmente a melhor coisa que eu fiz”.

Passados dez anos de sua experiência na NFL, Alicia faz uma reflexão sobre o sistema de franquias que a liga tem e diz que esse sistema proporciona ambientes diferentes entre um escritório e outro. “Cada franquia é o reflexo de seu dono”, diz ela. “Quando você tem um sistema como o do Green Bay Packers, que não tem um dono, ou quando você tem um dono mais progressista, o ambiente é melhor. Tudo isso vem de cima para baixo. Da mesma forma que isso pinga da liga para o resto. Se a liga permite que donos tenham esse tipo de comportamento, se permite que atletas que foram filmados agredindo uma mulher cumpram cinco ou seis jogos de suspensão e depois voltem a jogar como se nada tivesse acontecido, isso acaba permeando para dentro dos escritórios”.

Em casos como os relatados pela brasileira ou de alguma situação de violência doméstica que envolva algum jogador, há muita cobrança em cima do comissário da NFL, Roger Goodell. Mas, Alicia lembra que ele, apesar de ser a pessoa que toma as decisões, é apenas um funcionário dos proprietários das franquias.

“Ele trabalha para os donos. Ele toma a decisão que afeta todos, mas quem paga seu salário são os proprietários dos times. Então essas pessoas têm muito poder sobre as decisões que são tomadas.”

Depois de concluir seu mestrado, Alicia Klein voltou ao Brasil para trabalhar no Comitê Olímpico Brasileiro. Ainda trabalhou em agências de marketing esportivo, na Federação Internacional de Atletismo e hoje é professora de MBA em gestão esportiva.

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