Exemplo do Pacaembu une atletas contra concessão do Ibirapuera

JOÃO GABRIEL
·7 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 09.08.2018 - Estádio do Pacaembu, na região central de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 09.08.2018 - Estádio do Pacaembu, na região central de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda que seja cada vez mais comum a presença de atletas concorrendo em eleições ou transitando pelos corredores das casas legislativas do Brasil, não é corriqueira uma audiência pública repleta de judocas, saltadores e corredores, alguns deles medalhistas olímpicos.

Foi o que aconteceu em junho de 2019, numa audiência convocada pelo deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para debater o futuro do Complexo do Ibirapuera, quando o governo João Doria (PSDB) já planejava a concessão do local.

Desde então, nomes como Maurren Maggi, André Domingos, Hortência, Henrique Guimarães e Diego Hypólito, entre outros, foram a público para tentar evitar que o local caminhe na mesma direção de outro dos mais importantes pontos do esporte paulista, o Pacaembu.

"Foi uma perda muito grande [a concessão do Pacaembu], mas talvez porque não tivemos atletas com voz ativa envolvidos. No caso do Ibirapuera, mexeu com o esporte olímpico, esportes que ganham medalhas treinando dentro do complexo", afirma Maurren, ouro na Olimpíada de Pequim-2008 e que por anos viveu no local.

"A gente vê uma mobilização de atletas olímpicos em prol da não concessão do complexo, coisa que a gente não viu no Pacaembu. Foram poucos jogadores falando, não algo uníssono como tem no Ibirapuera", concorda Sergio Livovschi, da associação de moradores Viva Pacaembu.

Ele enfatiza que não é contra a concessão do estádio em si, mas sim que ela acabe com uma de suas finalidades: a prática esportiva pública.

O Pacaembu foi concedido pela prefeitura à empresa Allegra por 35 anos. O projeto prevê a construção de cadeiras em todas as arquibancadas, estacionamento, restaurante, lojas e um prédio comercial. De acordo com a Allegra, o clube municipal localizado atrás do estádio seguirá aberto aos moradores da cidade.

Para parte dessas mudanças acontecerem, o tobogã, que não faz parte do projeto original, terá que ser demolido. A Justiça, porém, entendeu em janeiro que a arquibancada não pode ser destruída, pois isso iria contra o tombamento aprovado do estádio. A decisão liminar é tida como uma vitória dos que discordam do projeto, porque pode prejudicar os planos da vencedora da concessão.

É justamente pelo tombamento que o movimento contra a concessão do Complexo do Ibirapuera atua. Há algumas possibilidades para tal: no Conpresp, no Condephaat e no Iphan, os órgãos que cuidam do patrimônio histórico na cidade de São Paulo, no estado e no Brasil, respectivamente.

Há processos em andamento nas entidades municipal e nacional. A estadual negou um pedido de tombamento, o que atendeu à vontade do governador João Doria, propositor da concessão.

Apesar de não impedir a concessão em si, o tombamento pode afetar projetos da iniciativa privada, por exemplo de demolição da pista de corrida e das piscinas, ou ainda de transformar o Ginásio do Ibirapuera em shopping.

"[Os atletas] procuram esses politicos alegando que o equipamento precisa ser tombado porque é um patrimônio histórico e cultural, mas na verdade é só sentimentalistmo", afirma Aildo Rodrigues, secretário de Esporte do estado.

Ele diz que o governo concluirá uma parceria com a Prefeitura de São Bernardo do Campo para realocar os atletas de alto rendimento do Ibirapuera e acrescenta que o estado abriu 20 centros de formação no último ano e promete mais 80 para 2021.

Um dos argumentos dos atletas é de que a importância do complexo como berço esportivo está justamente na reunião de modalidades variadas, algo que não acontece com o Pacaembu, por exemplo.

"Eu reconheço que essa destinação o Pacaembu nunca teve, de alto rendimento olímpico. Muitos atletas fizeram carreira treinando no Ibirapuera. E muitos de origem humilde que talvez não teriam conseguido praticar se lá não funcionasse de forma publica", afirma Sergio Livovschi.

"A concessão não ameaça apenas o Centro de Excelência, mas sim todo um aparato esportivo formado por ginásios, pista de atletismo, parque aquático, arena de judô, quadras de tênis e salas multiesportivas que deveriam fazer parte de uma política que atendesse a projetos de inclusão, descoberta de novos talentos e estrutura adequada para atletas de alto rendimento", argumenta Aurelio Miguel, judoca ganhador de duas medalhas olímpicas e ex-vereador pelo PL na capital paulista.

"Extrapola a discussão sobre perdas e ganhos financeiros ao estado; escancara a falta de prioridade com que o esporte é tratado nas esferas de poder", completa.

Os esportistas entendem que não há outro espaço capaz de abraçar tamanha gama de modalidades. Na opinião deles, separar as diferentes práticas em outros lugares traria prejuízos à formação.

"Sempre fui muito eclético na aprendizagem. Participava de treinamento do judô, ginástica, vôlei. Peguei conhecimento e ganhei experiência para ser treinador. Eu mudei de vida a partir do momento que entrei lá. Quis terminar os estudos. Tivemos acompanhamento médico, odontológico, psicológico, tudo isso de graça. A maioria dos atletas foi ter contato com médico pela primeira vez ali. É imensurável", aponta Jadel Gregório, ex-atleta do salto triplo.

Os esportistas entendem que hoje a estrutura está sucateada e que as condições já foram muito melhores, mas atribuem a situação atual à falta de investimento do próprio governo do estado. No caso do atletismo, argumentam que, mesmo com os problemas estruturais, não há em São Paulo qualquer pista comparável à do Ibirapuera capaz de atender à demanda de treinos.

Aildo Rodrigues diz que há uma confusão entre sucateamento e uma estrutura obsoleta, e que a iniciativa privada modernizará o local. Questionado sobre a possibilidade de o próprio estado assumir a sua modernização, ele sustenta que uma reforma no complexo seria mais cara do que fazer um novo.

Em meio a pressões, o edital de concessão foi suspenso pela Justiça antes mesmo de ser aberto, numa decisão que se mantém em pé desde dezembro do ano passado. "A gente está tocando a instrução do processo normalmente, apesar de existir essa liminar que impede a publicação do edital. Mas confiamos na Justiça e sabemos que é algo provisório", afirma Rodrigues.

"Acho que a gente só chegou aonde chegou por conta deles [atletas]. Nas audiências públicas, foram responsáveis por aprofundar o debate sobre o que estava acontecendo, e a representação que enviamos ao Ministério Público foi feita com informações que eles passaram para a nossa equipe", relata Carlos Giannazi.

Além das redes sociais e das audiências, alguns atletas têm atuado de outras formas. Aurélio Miguel, por exemplo, enviou pedido de tombamento ao Iphan. Maurren Maggi e André Domingos têm conversado diretamente com a Secretaria Especial do Esporte do governo Jair Bolsonaro.

O complexo também tem o apoio de arquitetos, urbanistas e historiadores, por sua importância arquitetônica e social. A rede variada de defensores da não concessão do local põe lado a lado figuras com posições políticas opostas.

"É uma pauta suprapartidária, com a união de vários setores, partidos e até pessoas que são a favor da privatização [de uma forma geral], mas que acham demais privatizar o complexo", afirma o deputado do PSOL.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) também entrou na disputa contra seu rival João Doria. Ele disse a atletas que tentará viabilizar o tombamento no Iphan.

É um desfecho que Giannazi gostaria de ver, embora observe oportunismo no movimento do presidente. Aildo Rodrigues defende que a União não pode interferir em um equipamento do estado.

Por vezes, as diferenças políticas entre apoiadores da mesma causa também provocaram desentendimentos. Por exemplo quando, durante um ato em defesa do Ibirapuera, bandeiras do PDT e do PT causaram uma pequena confusão entre os manifestantes.

Jadel Gregório chegou a integrar a Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo em 2016 e diz que ser contrário ao projeto de concessão influenciou na sua exoneração.

Ele comemora a mobilização dos atletas, mas faz um apelo para que antigas práticas não se repitam: "Só vai ser importante ganhar essa causa se as instalações estiverem abertas para todos, não apenas para um treinador e seu grupo".