Excesso de velocidade fez piloto perder controle da aeronave de Emiliano Sala

Por David HARDING, con Anna CUENCA en Londres
AFP
Jogadores do Paris Saint-Germain fazem homenagem a Emiliano Sala antes de partida em 9 de fevereiro de 2019
Jogadores do Paris Saint-Germain fazem homenagem a Emiliano Sala antes de partida em 9 de fevereiro de 2019

A aeronave em que o jogador argentino Emiliano Sala faleceu no ano passado se partiu em dois quando o piloto perdeu o controle enquanto voava em excesso de velocidade para tentar escapar do mau tempo, estabeleceram nesta sexta-feira (13) os investigadores britânicos de acidentes aéreos.

O Escritório de Investigação de Acidentes Aéreos britânico afirmou em seu relatório final que o piloto David Ibbotson, que não tinha licença para voar a aeronave, provavelmente também ficou intoxicado pela entrada de monóxido de carbono na cabine.

Sala, de 28 anos, e Ibbotson, de 59 anos, voavam em 21 de janeiro de 2019 a bordo de um monomotor Piper PA-46-310P Malibu entre França e Grã Bretanha quando desapareceram dos radares, a cerca de 20 quilômetros da ilha britânica de Guernsey.

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O atacante argentino havia decolado da cidade francesa de Nantes, clube que defendia, para se juntar ao elenco do Cardiff galês, da Premier League inglesa e que tinha acabado de comprar o passe do atleta por 17 milhões de euros.

A investigação estabeleceu que "o piloto perdeu o controle da aeronave durante um giro de voo manual, que provavelmente se iniciou para recuperar visibilidade devido às condições meteorológicas".

"Posteriormente, a aeronave se partiu em voo enquanto manobrava a uma velocidade significativamente superior à velocidade de manobra para a qual foi concebida", completou.

- Fatores agravantes -

A isso se somam outros fatores, como o fato do voo não ter sido realizado de acordo com as normas de segurança.

Assim, o piloto operava em "voo visual à noite em más condições meteorológicas, apesar de não ter uma formação em voos noturnos e lhe faltava experiência em voos com instrumentos".

As inspeções realizadas nos destroços não eliminaram o risco de intoxicação por monóxido de carbono e "não havia nenhum detector ativo na aeronave que pudesse ter alertado o piloto da presença de CO a tempo para que tomasse medidas de mitigação", concluiu o relatório.

O Cardiff comemorou imediatamente o relatório, afirmando que "embora não estabeleça culpa ou responsabilidade, planta uma série de novas questões que esperamos sejam abordadas durante a investigação judicial que será retomada na semana que vem".

Desde o acidente, e indo contra uma ordem da Fifa, o clube galês se recusou a pagar o valor da transferência ao Nantes, tomando ações judiciais centradas na organização do voo.

- Comoção na Argentina e no futebol -

O falecimento de Sala comoveu ambos os clubes e diversas personalidades do futebol, que expressaram sua solidariedade com a família e ajudaram financeiramente a localizar os destroços, após as autoridades abandonarem as buscas.

Cerca de duas semanas após o acidente foram encontrados os restos da aeronave, partida em dois no fundo do mar e, um dia depois, o corpo de Sala preso nos destroços. O corpo de Ibbotson nunca foi encontrado.

Pouco após a tragédia, os investigadores determinaram que o Piper PA-46 Malibu, registrado nos Estados Unidos, não estava autorizado a operar voos comerciais e Ibbotson não tinha as licenças para transportar passageiros.

O Cardiff garantiu ter oferecido um voo em uma companhia aérea ao jogador, que recusou.

Ao invés disso, Willie McKay e seu filho Mark, designados pelo Nantes para concluir a transferência, organizaram o voo privado por intermédio do piloto britânico David Henderson.

A polícia britânica, que em junho deteve um homem identificado como Henderson, anunciou na quarta-feira (11) que as acusações de homicídio culposo contra ele foram retiradas.

Na noite da tragédia, Sala havia expressado a amigos sua preocupação com as condições da aeronave. "Estou aqui num avião que parece que vai se despedaçar e estou indo a Cardiff", disse o jogador em mensagem de voz reproduzida pela imprensa argentina.

"Papai, que medo que tenho", continuou Sala, embora com uma voz tranquila, em mensagem enviada por Whatsapp.

A tragédia comoveu Progresso, a cidade natal de Sala, especialmente a família do jovem atacante.

Sua irmã, Romina, se envolveu fortemente nas buscas pelos destroços da aeronave no Reino Unido. O golpe, porém, foi fatal para seu pai, Horacio Sala, que morreu de infarto três meses após o falecimento de seu filho.

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