Ex-auxiliar brasileiro não vê Mourinho arrogante: ‘É uma imagem que ele criou para se proteger’

Colaboradores Yahoo Esportes
·5 minuto de leitura
SEATTLE - JULY 22:  Chelsea manager Jose Mourinho and assistant coach Baltemar Brito during Chelsea pre-season training at the Seahawks Complex on July 22, 2004 in Seattle, Washington.  (Photo by Ben Radford/Getty Images)
Mourinho e Britto durante treino do Chelsea em 2004 (Ben Radford/Getty Images)

Não é fácil encontrar Baltemar Brito, 68 anos. Ex-zagueiro brasileiro nascido em Pernambuco, ele fez carreira em pequenos clubes de Portugal e fala com o sotaque da Terrinha. Usa também expressões que são mais comuns lá, como "gajo" e "bocado", sua preferida. Mas para descobrir isso, é preciso ter paciência.

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"Estava em Luxemburgo porque há a possibilidade de trabalhar em um clube desse país. Também tem há uma chance na África do Sul", explica, sobre a correria dos dias anteriores e a impossibilidade de passar muito tempo ao telefone.

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Luxemburgo e África do Sul pode parecer pouco para quem tem no currículo títulos portugueses, ingleses, italianos e duas Ligas dos Campeões da Europa. Tudo isso como braço direito de José Mourinho, o treinador que ele considera o melhor do mundo.

Mourinho gravou um vídeo o recomendando de forma efusiva para o cargo de técnico da equipe sul-africana Tshakhuma Tsha Madzhivhandila.

"Falo com o coração quando digo que Brito foi um fantástico assistente que tive por muitos anos no Porto, Chelsea e foi um direto colaborador também no Real Madrid", disse o português.

Baltemar tem mais de 50 anos de carreira no futebol, mas é lembrado sempre pelos nove anos em que esteve ao lado de Mourinho, entre 2001 e 2010. Em sete deles foi o principal auxiliar no banco de reservas. A partir de 2008, passou a ser responsável pelas estatísticas e análises dos adversários. Era o período que ele começou a se preparar para voos solos, afirma

Solos, mas não altos. O brasileiro não comandou nenhuma equipe grande do futebol mundial. Passou pelos Emirados Árabes, Líbia, Luxemburgo e Liechtenstein. Passou um mês no Belenenses (Portugal) antes de brigar com o presidente e ir embora. Trabalhou nas comissões técnicas do Espérance (Tunísia) e AEK Atenas (Grécia). Teve também passagem de 90 dias em 2012 pelo Grêmio Osasco, então na segunda divisão do futebol paulista.

"O time jogava muito bem. Éramos líderes e estávamos invictos no torneio. Mas a diretoria resolveu trazer atletas veteranos que eu não havia pedido e isso começou a conturbar o ambiente. Pressionaram para que eles fossem escalados e a equipe começou a cair", relembra.

Ele se refere às contratações do lateral Índio (ex-Corinthians) e dos atacantes Viola e Dodô.

Com esse histórico, Baltemar Brito, então, se acostumou a responder sobre José Mourinho, um personagem que polariza opiniões no futebol mundial.

"Mantemos contato. Trocamos mensagem e de vez em quando falamos pelo telefone. Nos gostamos e somos amigos. Eu não gosto de ser um sujeito pegajoso. Mourinho preserva muito sua privacidade. Matamos a saudade de vez em quando. Às vezes vou a Londres ou nos encontramos em Portugal. Eu tenho orgulho de ter trabalhado com o melhor técnico do mundo", afirma Brito.

Os dois se conheceram ainda no final do século passado, quando Baltemar começava como treinador. Mourinho trabalhava como assistente e tradutor do inglês Bobby Robson no Benfica e no Barcelona. Em 2001, o telefone tocou na casa do brasileiro.

"Era o Zé (José Mourinho) para dizer que precisava de um assistente no Leiria e queria que eu fosse", revela.

Baltemar aceitou. Os dois venceram a liga portuguesa em 2003 e 2004 (pelo Porto), a inglesa em 2005 e 2006 (pelo Chelsea) e a italiana em 2009 e 2010 (pela Internazionale). Também conquistaram a Liga dos Campeões da Europa de 2004 e 2010.

UNITED KINGDOM - JANUARY 01:  Chelsea's Baltemar Brito celebrates with the Premiership Trophy  (Photo by Darren Walsh/Chelsea FC Via Getty Images)
Brito com o troféu de campeão inglês em 2005 (Darren Walsh/Chelsea FC Via Getty Images)

Por conhecer Mourinho bem, Brito se irrita com a imagem que muitos têm dele como um sujeito mal-humorado e arrogante.

"Não é nada disso. É uma imagem que ele criou para se proteger em um mundo difícil como o do futebol. Se você o conhece, vê que é uma pessoa divertida. A maioria esmagadora dos jogadores que trabalham com ele o idolatra", assegura.

Como treinador, Brito passou por situações às quais Mourinho com certeza nunca se sujeitou. Ter de mudar horário de treinos nos Emirados Árabes por causa das orações dos jogadores, por exemplo. Ou a pouquíssima infraestrutura em Luxemburgo. Ou ter de deixar a Líbia às pressas em 2011 por causa da guerra civil no país.

"Eu morava em um condomínio fechado e no início não era muito afetado pelos conflitos. Mas a coisa ficou cada vez pior, até que resolvemos ir embora. Nosso avião decolou na terça-feira. Na quarta, o aeroporto internacional de Trípoli foi fechado", afirma sobre o tempo em que comandou o Al-Ittihad.

Ele não se preocupa com se o tamanho do time. Para quem ainda sonha em se firmar como treinador, pouco importa. Trabalho é trabalho.

"Eu não vou desperdiçar nenhuma oportunidade. Gosto desses desafios", completa.

O ex-zagueiro apenas fica sem jeito ao ser questionado sobre seu meio-irmão Romero Britto, um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros.

"Nós somos irmãos por parte de pai, mas não temos muito contato. Ele vive nos Estados Unidos e eu, na Europa. Claro que admiro o trabalho dele e a fama que obteve, mas não nos vemos muito."

É mais fácil Baltemar saber sobre a vida de José Mourinho.

"A gente não se separou porque brigou. Não teve nada disso. Eu tinha minhas próprias ideias e queria colocá-las em prática. Ele entendeu isso porque um dia quis o mesmo. Mourinho é um vencedor", finaliza.

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