Ex-jogador da NFL ajuda jovens atletas LGBTQI+ com bolsas de estudo

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Tackle Ryan O'Callaghan durante sua passagem pelos Patriots (Foto: Al Messerschmidt/Getty Images)
Tackle Ryan O'Callaghan durante sua passagem pelos Patriots (Foto: Al Messerschmidt/Getty Images)

Viver em um ambiente conservador faz com que muitas pessoas sintam dificuldade de se abrir ou se expor sobre determinado assunto. Foi o que aconteceu com Ryan O’Callaghan, ex-jogador da NFL. Aposentado em 2011, ele revelou ser homossexual apenas seis anos mais tarde e hoje ajuda jovens estudantes e atletas que pertencem à comunidade LGBTQI+ que sonham em ser atletas profissionais.

No mesmo ano em que anunciou publicamente que é gay, 2017, o ex-jogador criou a Ryan O’Callaghan Foundation, uma ONG sem fins lucrativos que inicialmente oferecia bolsas de estudo a jovens atletas e estudantes LGBTQI+ abandonados por suas famílias após assumirem suas sexualidades. Infelizmente, segundo ele, algumas questões burocráticas envolvendo a NCAA, principal divisão dos esportes universitários, se tornaram um grande obstáculo. Mas o que ele não esperava era o alto número de atletas que tinham medo de se assumir. A Fundação passou, então, a se dedicar nos diálogos com jovens atletas, em escolas e empresas, a fim de orientar os que se sentem com medo até estarem prontos para se assumir.

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“Acho que jogadores como eu, sendo francos e honestos com sua sexualidade, lembram os outros atletas mais introvertidos que eles não estão sozinhos. Espero que isso faça eles se sentirem confiantes em ser honestos consigo mesmos, com seus colegas de equipe e com os torcedores e aceitos plenamente por quem eles são”, disse o ex-atleta.

O trabalho da ONG representa, para Ryan, não apenas uma oportunidade para a prática do esporte, mas também uma maneira de ouvir e dar espaço aos jovens que se sentem excluídos por conta de suas orientações sexuais e suas identidades de gênero.

“Às vezes, ter alguém com quem conversar e se relacionar faz toda a diferença do mundo. Não há como dizer o quão melhor eu poderia ter sido como atleta se eu pudesse dedicar minha capacidade mental ao esporte ao invés de consumi-la com minhas questões pessoais” falou.

Ryan O’Callaghan viveu os primeiros 29 anos de sua vida em ambientes hostis às minorias. Primeiro, passou a infância e a adolescência na conservadora cidade de Redding, no norte da Califórnia, onde conheceu os estereótipos de homossexuais, o que o fez preferir ser conhecido como um valentão que jogava futebol americano do que como um homem gay. Depois, passou seis anos em uma das ligas esportivas mais masculinizadas do mundo. Chegou ao New England Patriots em 2006 após ser selecionado na quinta rodada do draft, time com o qual foi vice-campeão do Super Bowl em 2008. Após o vice-campeonato, ele se transferiu para o Kansas City Chiefs, equipe que defendeu até 2011, quando se aposentou.

Ryan jogava como offensive tackle e era responsável por proteger Tom Brady nos Patriots (Foto: Sporting News via Getty Images)

Ele escreveu um livro chamado “Minha vida em jogo” (My Life on the Line, em inglês), no qual conta sua trajetória como jogador e sua batalha não só com medicamentos para dores no corpo e cirurgias, mas também contra a depressão e pensamentos suicidas que acompanharam seu estado mental durante toda a carreira.

“Quando jogava escondendo o meu verdadeiro eu, minha mente ficava consumida e eu pensava que seria expulso a qualquer momento e não seria aceito”, falou.

A criação da ONG foi uma luz que O’Callaghan enxergou para evitar que outras pessoas passassem pelo o que ele passou, e tivessem mais suporte ao longo de suas próprias descobertas.

Durante a entrevista ao Yahoo!, o ex-jogador contou a história de um estudante transsexual do ensino médio cujos pais pediram a sua ajuda. O jovem, que se identifica como homem, sobreviveu a uma tentativa de suicídio durante uma profunda depressão. Ryan manteve contato com o garoto por meses e, através da Ryan O’Callaghan Foundation, ajudou com os custos do tratamento psicológico dele.

Os atletas trans são alguns dos focos do ex-jogador dentro de sua Fundação. Ele é um dos principais ativistas no mundo dos esportes contrário às leis anti-trans nos Estados Unidos. Em março de 2021, foi sancionada no estado do Tennessee uma lei que proibiu transsexuais de praticar esportes nas categorias que correspondem às suas identidades de gênero. Em abril, o Arkansas tentou se tornar o primeiro estado dos Estados Unidos a proibir o fornecimento de medicamentos e cirurgias para pessoas transsexuais. A lei foi derrubada por um tribunal federal meses depois.

“As pessoas ainda são demitidas por serem gays. Outras ainda são rejeitadas por serem trans. Ajudá-las a terem coragem e resiliência é um caminho para mudar essa realidade”, disse Ryan.

Encorajar as pessoas a enfrentar os obstáculos impostos pelo status quo é o principal objetivo de O’Callaghan. Ele ainda considera que o esporte pode ser o principal catalisador dessa mudança.

“A melhor maneira de reverter o estereótipo é ter mais atletas assumindo suas sexualidades. Isso ajuda a ter companheiros manifestando apoio à igualdade e aos direitos humanos fundamentais”, falou.

Em mais de 100 anos de história, a NFL viu apenas 15 jogadores exporem suas sexualidades. Além de Ryan, David Kopay, Jerry Smith, Roy Simmons, Ray McDonald, Esera Tuaolo, Kwame Harris, Wade Davis, Dorien Bryant, Brad Thorson, Michael Sam, Jeff Rohrer, Ryan Russell e Carl Nassib foram os que se abriram. Os dois últimos foram os únicos a anunciar publicamente enquanto profissionais. Nassib atualmente defende o Las Vegas Raiders e se abriu durante a offseason de 2021. Já Russell anunciou ser bissexual em 2018, mas está sem time desde então.

“Atualmente existem muitos jogadores que não expõem suas sexualidades. Também existem jogadores abertamente gays jogando nas faculdades que em breve terão a chance de estar em um time da NFL. Isso acontecerá, e quando acontecer, a NFL tem de estar pronta”, falou O’Callaghan.

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