Osmar Loss relembra tempos da base e expectativa de ter sido técnico da Seleção Sub-20

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Osmar Loss em partida do Corinthians, em 2018. (Foto: Marcelo Hernandez/Getty Images)
Osmar Loss em partida do Corinthians, em 2018. (Foto: Marcelo Hernandez/Getty Images)

Por Guilherme Rodelli Rocha (@GuiRodelli)

O Yahoo Esportes entrevistou o técnico Osmar Loss, 44, que teve passagem recente pelo Corinthians após a saída de Fábio Carille. Depois de anos e muitas conquistas na base (foi cotado a assumir a seleção olímpica em 2015), voltou a treinar profissionalmente já num dos maiores clubes do Brasil.

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O gaúcho de Passo Fundo nos contou como foi ser auxiliar de Fábio Carille, suas experiências na base, as dificuldades que teve como treinador profissional, as turbulências no Guarani e no Vitória (onde ficou apenas 10 jogos) e até falou sobre Alexandre Pato, com quem trabalhou na base do Internacional, em Porto Alegre. O treinador, atualmente sem clube, também dissertou sobre o que quer para seu futuro. Confira:

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Você teve passagens por Internacional, Juventude e Bragantino antes de chegar ao Corinthians. O que você conseguiu levar de bom de cada clube para o seu trabalho?

“Bom, cada equipe certamente tem uma importância muito grande, né, para trazer para gente experiência. No Internacional, foi meu primeiro clube, clube que eu me formei como treinador, como um profissional que trabalha no esporte. Comecei com 19 anos de idade e saí de lá, pela primeira vez, com 35. Então, muito do que eu sei de relacionamento, de ambiente, de treinamento foi construído através de experiências que eu pude observar no Internacional.

“O Juventude foi a minha primeira experiência em equipes profissionais. Um clube extremamente tradicional do Sul onde eu enfrentei pela primeira vez as dificuldades do relacionamento com a imprensa, de colocar o seu trabalho realmente em cheque, questionamentos e todas as situações. Isso certamente me fez sair de lá muito mais capacitado.

“E já no Bragantino, foi uma equipe em parceria com o Corinthians em que pouco tempo fiquei para colher, de dentro do clube, situações que pudessem me auxiliar no futuro. É claro que foi uma experiência de Série B e poder ajudar a montar um elenco talvez tenha sido o grande ponto dessa relação.”

Neste início de ano, o Guarani surpreendeu no começo do Campeonato Paulista, mas terminou lutando para não cair e você foi demitido em pouquíssimo tempo. Depois, no Vitória, o time vivia período turbulento e também não te deu tempo de trabalho. O que pode dizer sobre a situação dos dois clubes, o porquê aceitou as propostas e qual a dificuldade de se manter empregado com estabilidade no Brasil?

“Guarani é uma equipe que tem uma tradição, assim como o Vitória, muito grande. É o único campeão brasileiro do interior paulista, é uma equipe que formou muitos atletas. São equipes que tem uma paixão por trás de seus torcedores muito grande. A proposta do Guarani parecia ser extremamente interessante, no princípio. Um projeto muito sólido, muito pé no chão em relação àquilo que se pretendia, mas no futebol, muitas vezes, os planos mudam fora da linha que tinha sido acordado e combinado como objetivo para a equipe em determinadas competições.

“No Vitória, a gente teve a parada da Copa América e isso certamente nos deu mais força. Conseguimos melhorar o rendimento da equipe, porém, ficamos muito chateados com a saída porque acreditávamos que tínhamos melhorado o rendimento da equipe e iríamos colher os frutos ali na frente.

“Em relação à manutenção do emprego dos técnicos no Brasil, é uma questão que a gente precisa evoluir. É necessário evoluir nesse ponto para que o futebol também evolua. É claro que vem um pouco da forma em que os clubes são conduzidos. Efetivamente, os times são conduzidos por torcedores que vivem de paixão e os profissionais trabalham com a sua linha de pensamentos, esperando que tenha uma gestão profissional por trás, na diretoria. O grande ponto é que se espera resultados num curto prazo, sempre (ou quase sempre) acima da expectativa que a equipe pode realmente produzir.”

Em 2013, ainda no Inter, houve um atrito com o técnico Dunga. Muitos veículos divulgaram que ele participava de decisões que não cabiam a ele. Qual a realidade dos eventos que culminaram com a sua saída do time?

“Eu acho que o treinador de qualquer grande equipe, como o Internacional, e um treinador como o Dunga que já tinha participado de Copa do Mundo, deve participar de todas as decisões ligadas ao futebol, à parte esportiva do clube. A minha saída do Inter foi porque eu percebi que meu espaço estava reduzido naquele momento e já tinha recebido o terceiro convite do Corinthians. Lá eu achei que poderia ter mais espaço para crescimento da minha carreira e meu, como profissional.”

Como foi participar do início de carreira do Alexandre Pato? Havia muita expectativa para ele se tornar um dos melhores do mundo pelo que ele fazia na base?

“Olha, o Pato na base sempre foi um jogador que andou à frente da sua categoria. Ou seja, quando tinha 13 anos, jogava no sub-15; quando tinha 16, jogava no sub-17; quando tinha 17, jogava no sub-20; e com 18 já estava no profissional. Era um jogador extremamente talentoso com todas as capacidades de um grande atacante e a gente, sim, tinha a expectativa de que ele fosse ser um dos melhores do mundo, que alcançasse isso dentro da carreira porque o que ele fazia na base era muito acima do que os outros atletas não só do Internacional, mas do Brasil na época, faziam. Então, a expectativa foi sempre muito alta pelo que ele poderia render na equipe principal e no mundo do futebol.”

O que você acha que tenha desviado ele desse caminho de sucesso?

“Eu não acho que ele não teve sucesso. Ele talvez tenha atingido um nível de reconhecimento menor do que o esperado e do que apresentou no início de carreira. Ele chegou ao time profissional do Internacional, participou do título mundial em 2006, depois foi para o Milan que, no momento, era uma grande potência. A partir daí a gente perde um pouco da realidade, né? Fica difícil pra gente falar do dia a dia, do que aconteceu no Milan ou nos outros clubes. Efetivamente, eu acho que ele é um jogador de sucesso que a gente, lá no início da carreira, tinha uma expectativa que ele fosse escolhido um dos melhores do mundo pela FIFA.”

Você era cotado para assumir a seleção de base devido às vitórias com o Corinthians. Até que ponto a complicação com o Dunga foi determinante na escolha do técnico da Seleção sub-20? Como se sentiu?

“Pelo trabalho realizado, eu tinha expectativa de, em 2015, assumir como treinador a seleção sub-20 após a saída do Gallo, se não me falha a memória. Pelo que o mundo do futebol e o pessoal da imprensa comentava, os resultados que a gente vinha tendo no Corinthians depois de uma grande reformulação na base (que não tinha títulos expressivos há bastante tempo), era uma expectativa sim. Mas, não tenho absolutamente nenhuma informação se teve alguma influência do Dunga ou não. Eu acredito que não.

“É claro que depois que anunciaram as mudanças, fiquei frustrado porque gerei uma expectativa, acreditando que era o momento de encerrar o meu ciclo de base passando pelo mais alto nível, que era a seleção brasileira.”

Como interino do Inter, você chegou a enfrentar Pep Guardiola e Massimiliano Allegri. Foi possível tirar novas ideias vendo o jogo de dois técnicos tão vitoriosos? Quais foram essas ideias ou novidades que percebeu?

“Essa é uma passagem especial. Poder ter enfrentado esses dois treinadores, que hoje andam no mais alto nível, na Copa Audi pôde confirmar aquilo que a gente já percebia da Europa: ser um futebol mais intenso do que o praticado no Brasil, muito mais compacto e mais coletivo. Pude tirar sim, naquele momento, muitas ideias sobre compactação, amplitude do campo, profundidade do jogo e sobre a relação de cumprir função. Tudo isso me ajudou no decorrer da minha carreira e foram experiências fantásticas.”

Você diz ter José Mourinho como referência, um cara com estilo mais defensivo e que gosta de se adaptar ao adversário. Acredita que esse estilo tenha sido o motivo do declínio da carreira do português?

“Ele é e continua sendo um grande treinador. Acredito que vários outros treinadores chegaram e mexeram com os nossos modos de ver o futebol. Mourinho é um dos que eu uso como referência, assim como o Guardiola, o Klopp agora que tem um equilíbrio entre os outros dois. Mas eu não acho que seja esse o motivo do declínio da carreira do português, até porque a gente falar em declínio de um profissional, a gente precisa avaliar em que equipes ele trabalhou e quais as condições ele tinha nessas equipes para alcançar os melhores resultados. Se for ver, o Mourinho ainda teve bons rendimentos nas equipes que comandou. Tendo deixado de ganhar alguns títulos nos últimos anos, talvez possa ser chamado de declínio porque é um treinador que venceu muito em muito mais de um país. Isso eu acho que tem que ser valorizado. É um cara que eu respeito, admiro, assim como gosto do Klopp, do Guardiola, do Tite. São vários os treinadores que me inspiram e me fazem pensar sobre o futebol para tentar evoluir o jogo das equipes que eu trabalho.”

Quais as dificuldades que teve ao trabalhar o curto período que teve no Corinthians?

“São as dificuldades que qualquer treinador enfrente trabalhando num grande clube como o Corinthians: cobrança muito grande depois de um período recentemente vitorioso (bicampeonato estadual e campeonato brasileiro em 2017), então se tem uma expectativa muito grande, um apelo e necessidade da torcida de manter esse tipo de rendimento e resultado, além de que era um momento de reformulação do elenco devido ao sucesso. É natural, a gente vê isso com bastante frequência. Foi assim após o Mundial de 2012, foi assim após o Brasileiro de 2015. São coisas que acontecem e acabou que eu, como treinador, tive que fazer o meu melhor mesmo com todas essas mudanças que o time vinha passando. Portanto, acredito que as dificuldades foram naturais, mas a reformulação do elenco foi um agravante para não atingirmos os resultados que gostaríamos.”

Você treinou por muito tempo a base e foi muito vitorioso (7 títulos). Quais as diferenças da base para o profissional?

“Foi muito tempo mesmo. Mais de 20 anos treinando a base e eu acho que a conquista de tantos títulos deixa a conotação de “extremamente vencedor” na base. Mas foi o que me deu a oportunidade de crescer na carreira.

“Tem muita diferença entre a base e o profissional. A primeira delas, e eu acho que é a mais instigante, é o tratamento que a torcida dá para o time de base e para a equipe principal. E também o tratamento da imprensa com o time de base e com o time profissional.

“Tem a questão dos atletas. Os objetivos nas categorias de base são conjuntos. Ou seja, é chegar à equipe principal. E já na equipe principal, os objetivos são, muitas vezes, diferenciados: alguns querendo chegar na seleção brasileira, alguns querendo ser vendidos para a Europa, outros querendo conquistar o título daquela temporada e mais outros querendo evoluir individualmente. Aí os objetivos começam a ser muito mais individuais do que coletivos, como eram na base.

“A relação, na base, é com uma comissão técnica muito mais enxuta. Normalmente, é composta por quatro, no máximo cinco pessoas, dentre todas as áreas. Já na principal, você precisa gerenciar uma equipe de doze, até quinze membros. Também é uma grande diferença porque são seres humanos e o relacionamento varia muito de acordo com os objetivos, com o tempo que a pessoa está no clube, com tudo aquilo que a gente sabe que influencia para deixar um ambiente saudável para se trabalhar.

“Há questão de oportunidade de qualidade de treinamento, de alimentação, de transporte... tudo isso na equipe principal é muito superior ao que é oferecido na base. Por aí a gente já percebe grandes diferenças. Acho que esses são os principais pontos. O menino da base está muito mais acessível a querer melhorar, a aceitar as críticas, aceitar as cobranças e a olhar para o seu colega de time como um colega de fato.”

Você foi eleito o melhor auxiliar técnico em 2017, quando estava ao lado de Carille. A vontade de ser o treinador de uma equipe profissional sempre existiu?

“Foi muito bacana esse período como auxiliar do Fábio [Carille] no Corinthians. Foi de extrema evolução para mim como profissional. Fiquei muito feliz e só se encerrou porque ele foi para a Arábia. Se o Fábio tivesse permanecido, certamente a gente teria continuado essa parceria e eu me sentia muito feliz em poder fazer parte da comissão técnica dele.

“A vontade de ser treinador de equipe profissional sempre existiu sim. Foi por isso que eu entrei no futebol: para alcançar o nível das equipes principais. Não é que não interessava mais a carreira de auxiliar. Para ser auxiliar, acho que a pessoa precisa ter um treinador apto a gostar de estar com você, que faça você se sentir bem. E eu me sentia muito bem ao lado do Fábio e dos demais membros da comissão. Me sentia um profissional realizado mesmo sem ser o treinador da equipe principal. Acredito eu que contribuía para o trabalho e desenvolvimento da equipe junto com a comissão. Como eu disse, se o Fábio não tivesse saído, estaríamos todos no Corinthians ainda.”

Quais são os seus objetivos para o futuro da carreira?

“Eu procuro buscar evoluir a cada experiência, tentar melhorar os pontos que eu ainda acho que tem muita margem para evoluir, poder encontrar um projeto que eu tenha prazer em estar lá e que o clube sinta confiança também naquilo que eu estou desenvolvendo. Acho que essa é a busca. Sempre melhorar, evoluir, nos tornar cada vez melhores como profissionais, como seres humanos e os meus objetivos para o futuro são esses. Encontrar um local que eu me sinta feliz e possa transmitir para a torcida, para os dirigentes, para os profissionais e para os atletas que trabalham no clube a confiança e a reciprocidade para alcançar grandes resultados.”

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