“Eu poderia ter morrido”, diz professor vítima de ataque racista

Professor foi xingado e atacado com um canivete. Foto: Arquivo Pessoal
Professor foi xingado e atacado com um canivete. Foto: Arquivo Pessoal

Pouco mais de um mês após ter sofrido um ataque racista, o professor universitário Juarez Xavier, 60 anos, voltou a sua rotina de trabalho, exercícios e lazer. Porém, ele quer fazer de seu caso algo maior e que sirva de exemplo para que outras pessoas possam ser ajudadas. 

Em entrevista ao Yahoo, o educador diz que o episódio fez com que ele parasse para repensar muitas questões em sua vida. “Eu me dei conta de que eu poderia ter morrido”, afirma. O episódio aconteceu no dia 20 de novembro de 2019, dia da Consciência Negra. 

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Ao ser chamado de “macaco” por um desconhecido na rua, ele foi tirar satisfações sobre o crime e foi recebido com dois golpes de canivete. Os golpes atingiram as costas e o ombro dele. No entanto, o professor conseguiu se defender. Porém, ele teme por outras pessoas que talvez não tivessem como reagir.

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“A questão central é de caráter social. Ele pode fazer isso com outras pessoas que podem não ter condição de se defender. Eu recebi muita solidariedade depois desse episódio, mas não era uma solidariedade a mim, mas a uma causa. Foi um choque para todo mundo. As manifestações que envolveram esse evento apontam para uma perspectiva de coletivo”, diz.

De agora em diante, o professor afirma que quer fazer de seu caso uma oportunidade para que seja feita uma discussão sobre a impunidade de crimes de racismo no País. Segundo ele, é preciso que a Constituição seja respeitada. Afinal, após pagar uma fiança, seu agressor foi liberado e segue em liberdade.

“Eu tenho um compromisso de luta social e vou mantê-la. Esse modelo de sociedade patriarcal, supremacista branca e capitalista segrega as pessoas. Foi racismo e queremos também retificar a questão da tentativa de homicídio. Não aceitamos essa tese de que foi uma mera lesão corporal. Só foi lesão corporal por eu ter condição de me defender”, diz.

“Foi uma tentativa de homicídio. Ele fez ameaças a outras pessoas, saiu armado, criou um ambiente para aquilo acontecer. A argumentação de que ele tem um laudo de doença mental reforça essa ideia. Uma pessoa com esse histórico precisa de um tratamento, mas não pode ficar sem nenhuma sanção por parte da lei”, argumenta.

Com mestrado e doutorado pela USP (Universidade de São Paulo), Xavier é professor do curso de jornalismo da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru e militante do movimento negro. Segundo ele, sua rotina não mudou após o ataque. “Acho fundamental, do ponto de vista pessoal, isso não paralisar minhas atividades”, constata.

“Eu continuo tendo minha rotina. Isso faz parte da minha recuperação, da minha saúde mental. Eu voltei a fazer minhas atividades físicas, voltei ao trabalho… nossa maior preocupação é que uma pessoa nessas condições e que se sente impune pode se sentir a vontade para barbarizar com outras pessoas”, afirma.

“Em um primeiro momento, vem o espanto mesmo. Mas, passado o espanto, eu fui recorrer ao que eu acredito. Fui ao Candomblé, falei com pessoas no trabalho, falei muito com a minha família… é um processo lento e eu gosto de acreditar que, quando parece que você está no fim de uma maratona, você ainda tem mais uma maratona para correr. Não existe uma preocupação de fazer essa retomada rapidamente”, afirma.

Mesmo reconhecendo que, em um primeiro momento, sentiu muita raiva da situação, o professor diz que a saída para esse episódio não é mais ódio. “Não dá para você se rebaixar à barbárie. Não tem sentido esse sentimento de raiva e de vingança. Isso seria cair na gramática da barbárie”, explica.

“Eu sou humano e, em um primeiro momento, fiquei com muita raiva. Na hora, fiz o enfrentamento que eu deveria ter feito. Mas, passado esse período, a gramática que deve se contrapor à violência é a da defesa da Justiça, da constitucionalidade. Não alimento a vingança, mas não significa que eu dou a outra face. No meu universo sagrado não existe isso. A ideia é que se cumpra a Constituição”, finaliza.

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