Eternizado com busto, Zé Maria vê Corinthians bem servido de laterais e desaprova Renato Augusto no ataque

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Um dos maiores símbolos de jogador de garra da história do Corinthians, Zé Maria fez jus à fama ao ser homenageado na última quinta-feira, no Parque São Jorge, com um busto no qual foi retratado com a sua camisa ensanguentada. A estátua na sede do clube serviu para eternizá-lo como ídolo da história alvinegra e reproduziu uma cena que ele protagonizou enquanto lateral-direito do time no qual se consagrou com quatro títulos paulistas, entre outros feitos.

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Quarto jogador que mais vestiu a camisa corintiana, com 598 partidas disputadas, o Super Zé, como ficou conhecido também pelo grande vigor físico que exibia em campo, concedeu entrevista exclusiva ao LANCE! horas após ser homenageado pelo Timão. E, além de voltar a comemorar a honraria recebida, o ex-jogador de 72 anos opinou sobre o atual time alvinegro, analisou o trabalho realizado por Sylvinho e as opções do seu elenco. E, claro, também relembrou um pouco do seu passado como atleta do clube no qual virou ídolo.

Um dos expoentes da equipe campeã do histórico Paulistão de 1977, quando o Corinthians encerrou um jejum de quase 23 anos sem títulos, ele também ajudou o Alvinegro a erguer os troféus dos estaduais de 1979, 1982 e 1983. Antes disso, Zé Maria participou de duas Copas do Mundo pela Seleção Brasileira, na qual fez parte do grupo que ganhou o tricampeonato em 1970.

Foi naquele ano de 1970, por sinal, que Zé Maria iniciou a sua trajetória pelo Corinthians, no qual a sua estreia pelo time completou 51 anos justamente na última quinta-feira. Confira a seguir a entrevista que ele concedeu ao LANCE! neste 11 de novembro que se tornou duplamente histórico para a sua vida.

Zé Maria, inicialmente eu queria saber do senhor sobre como foi ser homenageado agora pelo Corinthians com um busto no Parque São Jorge, exatamente 51 anos depois de sua estreia?
É um sentimento de gratidão, é um momento que você não está acostumado a viver, é algo diferente. Você poder ver os seus amigos, seus ex-companheiros de time, é muito bacana, é algo muito gratificante, é um negócio que você nunca espera. Fica o meu agradecimento ao clube por essa homenagem. Mas não é só uma homenagem ao Zé Maria, essa também é uma homenagem para todos os jogadores que me ajudaram, que marcaram muito na vida da gente. É indescritível, é uma gratidão eterna.

No mês passado, quando a histórica conquista do título paulista de 1977 completou 44 anos, Basílio, herói daquela final, disse ao LANCE! que se sentia muito feliz por ter sido homenageado ainda em vida com o seu nome incluído na nova Calçada da Fama do clube. Como é o sentimento do senhor em relação a isso e agora ao ganhar um busto no Parque São Jorge?
Fico muito feliz porque essa direção, do Duílio Monteiro Alves, do Adilson (pai de Duílio) e companhia, está reconhecendo o que os funcionários fizeram aqui pelo clube. E isso é legal principalmente por acontecer com essas pessoas em vida. Você conseguir rever os amigos nestas homenagens, é um negócio assustador pra gente também, mas é algo magnífico, deixa a gente muito feliz.
A gente representa gerações com essa homenagem, pois conseguimos quebrar um tabu de anos que o Corinthians não ganhava títulos. E isso em vida é muito importante, te lava a alma, e a gente ainda encontra hoje em dia com torcedores que nem viram a gente jogar e agradecem pelo que a gente fez pelo clube. Por isso, temos de cumprimentar a direção, que está reconhecendo esses jogadores que foram muito importantes para a história do clube.

Como um especialista na posição, que disputou mais de uma Copa do Mundo e fez parte do grupo campeão pela Seleção Brasileira no Mundial de 1970, como o senhor vê hoje os laterais que o Corinthians tem à disposição no elenco?
Eu acho que o Corinthians está bem servido. Acho que os laterais têm qualidade, mas mudou muito a posição de lateral hoje em dia. O lateral tem também de fazer a função de um ponta hoje. Na minha época o lateral era jogador mais de marcação, e hoje o ala faz também essa função de ponta. O que o Fagner faz hoje é diferente do que eu fazia quando era lateral. A fama que eu ganhei no Corinthians era principalmente pela minha característica de jogador de marcação, de raça. Mas o desempenho do lateral muitas vezes depende muito da cobrança do treinador também, que precisa exigir o melhor do jogador. E o torcedor corintiano não gosta de jogador que só coloca a camisa, o corintiano gosta do jogador que veste a camisa, que dá o sangue pelo clube. E hoje a gente já percebe que tem muito jogadores, de uma forma geral no futebol, que não têm esse sentimento, que não parecem tão preocupados com o resultado após o fim de uma partida. E isso é uma coisa que o torcedor corintiano não gosta de ver. E o Corinthians é um clube em que o jogador não tem a obrigação de ganhar campeonato, mas tem a obrigação de correr.

Como o senhor têm visto o trabalho do Sylvinho?
O Sylvinho tem um histórico bonito no Corinthians e também de conhecimento sobre futebol. E eu acho que ele tem chance de encaixar esse time. Eu acho, inclusive, que o time até já encaixou. Infelizmente, o Atlético-MG já está muito lá na frente e o Corinthians não tem mais como brigar pelo título, mas esse time do Corinthians está brigando pela quarta posição e vai lutar para terminar nas primeiras colocações do Brasileirão.

O senhor acha que Fagner, de 32 anos, e Fábio Santos, de 36, pela idade, estão sofrendo muito na parte física para jogar como laterais?
Eu acredito que não, pois hoje vejo que o treinamento é muito diferente do que nós fazíamos no meu tempo. Hoje tem jogador experiente jogando até com mais de 40 anos. Na minha época, com 27, os caras já estavam colocando você para parar de jogar. O que eu percebo é que tem jogadores novos que estão sendo importantes e o Sylvinho está usando a experiência dos jogadores para ajudar os mais jovens. E isso também faz com que os jogadores mais novos que estão surgindo cresçam. É a grande chance de os meninos subirem para o time profissional e isso vai fortalecer o elenco.

Recentemente, o Sylvinho disse que tem a meta de fazer o Corinthians terminar o Brasileirão com a defesa menos vazada do campeonato. O senhor acha que essa meta ainda é possível de ser cumprida?
Eu não vejo como impossível. Nada é impossível no futebol. A defesa do Corinthians é muito boa e a preocupação do Sylvinho com a defesa vai ser muito grande nos próximos jogos. O que não pode é tomar três gols como foi neste último jogo contra o Atlético-MG. Mas as coisas ficam mais complicadas depois de levar um gol inesperado como aquele primeiro que o Cássio tomou. Mas o Corinthians vai ficar numa posição bastante estável, tem oportunidade de chegar bem próximo dos primeiros colocados, e acho que o time tem sim condições de terminar com a melhor defesa até o fim do campeonato.

O senhor acredita que seja um desperdício hoje o Renato Augusto atuar como atacante, posição em que foi escalado por Sylvinho nos últimos jogos?
Com certeza. A posição dele é a de vir de trás com a bola. Você colocar o Renato Augusto lá na frente para ficar esperando pela bola e correndo atrás de zagueiro é brincadeira, mas o Sylvinho também está colocando ele lá porque ainda está tentando achar um centroavante para o time. O que eu vejo é que está faltando um pouco mais de criatividade, e hoje só tem o Renato Augusto como um jogador mais criativo no meio-campo. Na minha época tinha muito mais jogadores que cumpriam bem essa função de criação. E hoje o futebol é com muito mais de toque do que antigamente. Antes as jogadas eram mais com bolas em profundidade.

Ao lembrar do passado, do que o senhor se recorda com mais saudade do período em que defendeu o Corinthians?
Um pouco da consciência da gente. Eu sofri muito logo que eu cheguei (em 1970, após deixar a Portuguesa), com as piadas que existiam, com as brincadeiras maldosas que faziam, de que o Corinthians não conseguia ganhar um título. Então aquela vitória de 1977 foi um marco importante na vida do clube. O jogador que conquista títulos fica marcado na história do clube. Aí teve o processo democrático, eu lembro de tudo isso. De passar por momentos ruins no clube e depois de ganhar campeonatos. Foi uma mudança total, veio Zenon, veio Sócrates, e o time começou a ganhar mais títulos.

Nesta época o senhor vivia o seu período final como jogador do Corinthians e participou da Democracia Corintiana. Como via aquele movimento na época?
Quem estava comandando o clube nesta fase era praticamente o Adílson (Monteiro Alves, ex-diretor de futebol e pai de Duílio, atual presidente corintiano). A direção emplacou a ideia daquele time da Democracia Corintiana e o time começou a pensar alto. Tudo aquilo valeu a pena. O Adílson soube aproveitar principalmente o Sócrates, que era um cara politizado. E o jogador era meio alienado naquele período e só falava do clube para dentro. Mas o jogador tinha de falar também do clube para fora. E a política que a gente ouvia lá dentro era a política de dentro do clube, mas que contava com a participação do jogador nas decisões tomadas.

E o senhor acredita que a Democracia Corintiana realmente foi importante como instrumento popular no processo de redemocratização do Brasil naquela década de 1980, na qual foi encerrado o regime militar?
Com certeza. O que o Corinthians fez naquela época mexeu com outros clubes. Até o regime de concentração passou a ser discutido. Se iríamos concentrar um, dois ou três dias. E democracia é isso mesmo. Mas tudo dependia (da conquista) de (bons) resultados, e os resultados ocorreram. E a Democracia Corintiana começou a mudar a história do clube. A participação dos jogadores nas decisões começou a integrar mais o clube.

E como era o clube para o senhor antes do início da Democracia Corintiana?
Antes disso, a gente nunca sabia o que estava acontecendo internamente, mas isso mudou muito com o Adílson (Monteiro Alves), que era um cara muito aberto. Na época, o Corinthians estava pensando em trazer o Leão, o Zenon, e foi feita uma reunião na qual a direção foi ouvir os jogadores para saber o que eles achavam destas contratações. E foi concluído que, se o Zenon viesse para cá, como acabou vindo, o Corinthians iria ter muito mais rendimento em campo. E o Leão, que era um goleiro da Seleção Brasileira, também veio. E na época tudo era conversado e isso era muito bacana, pois o jogador chegava e já se integrava rapidamente, se apresentava no meio do grupo dos jogadores.

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