Esteban Becker, o 'sósia de Maradona' que virou herói nacional na Guiné Equatorial

Por Yann BERNAL
AFP

A semelhança com Diego Maradona é mera coincidência, mas argentino Esteban Becker também virou ídolo no futebol. Não no seu país, mas na Guiné Equatorial, que levou às semifinais da Copa Africana de Nações, apenas 11 dias depois de assumir o comando da seleção local.

"Venho de um subúrbio pobre de Buenos Aires, então o fato de ter chegado até aqui é um incentivo para jovens treinadores", explica à AFP o técnico de 50 anos, que, além dos traços e da origem humilde, também lembra 'Dieguito' pela lábia e a espontaneidade.

"Quando trabalhamos e estudamos muito, somos recompensados", resume o argentino, que usa termos curiosos para definir sua equipe, composta, segundo ele, por "formigas que jogam como o Barça".

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O "conto de Cinderela" com a Guiné Equatorial começou justamente nos bancos da escola, quando fez uma formação de treinador em Madri. Becker conheceu um jovem técnico do país africano, Juan Micha Obiang, que acabou levando como seu auxiliar no Fuenlabrada, time da terceira divisão espanhola.

Foi assim que o argentino recebeu o convite do então vice-presidente da Federação de Futebol da Guiné Equatorial (Feguifut) para assumir o comando da seleção feminina.

A primeira experiência foi um sucesso, já que conquistou o título continental em 2012. Na ocasião, o país também era sede do torneio.

Preparação às pressas

Mbomio assumiu a presidência da federação no final do ano passado, e resolveu demitir o técnico da seleção masculina, o espanhol Andoni Goikoetxea, menos de um mês antes do jogo de abertura da Copa Africana de Nações, marcado para o dia 17 de janeiro. Becker assumiu no lugar dele apenas no dia 6.

A seleção nem deveria ter participado da competição. Tinha sido excluída das eliminatórias por ter escalado um jogador de forma irregular, mas acabou sendo 'repescada' quando aceitou organizar o evento no lugar do Marrocos, que desistiu de ser país-sede em razão de temores com o vírus Ebola.

Becker teve apenas dez dias para preparar a equipe em Madri, mas já começou falando que sonhava em ser o primeiro técnico a levar o 'Nzalang' a uma Copa do Mundo.

O argentino impressiona com sua empolgação à beira do gramado. Como seu compatriota Diego Simeone, técnico do Atlético de Madri, o argentino, pula, gesticula e xinga durante o jogo todo.

Paternalista, ele abraça e dá um beijo em casa jogador que acaba de substituir.

No treino de terça-feira, não hesitou em dizer que os reservas "jogaram como o Barça" no treino coletivo. Antes do jogo contra Burkina Faso, comentou a diferença de porte físico com os vice-campeões africanos ao afirmar que seus jogadores pareciam com "formigas" ao lado dos rivais.

Becker usou certa dose de ironia para rebater as críticas da Tunísia, que se diz injustiçada pelo árbitro ter marcado um pênalti imaginário a favor dos anfitriões nas quartas de final.

"A Tunísia deveria ter entrado para vencer, não jogar com cinco atrás. Nos jogamos com dois zagueiros e oito atacantes", exagerou.

O verbo solto também levou o argentino a publicar dois livros, ambos com histórias de ficção sobre futebol.

Jogos de poder

Mesmo assim, esta espontaneidade esbarra às vezes no contexto peculiar da Guiné Equatorial, país dirigido com mão de ferro por Teodoro Obiang, que chegou ao poder num golpe de estado em 1979 e foi reeleito em 2009 com 95,37% dos votos.

Depois da classificação inesperada para as semifinais, Becker fez questão de agradecer o presidente da República, que aparece o tempo todo na televisão pública e tem seu retrato estampado nos quatro cantos da cidade.

Em outro comentário sobre o polêmico duelo com a Tunísia, o argentino repetiu palavra por palavra o discurso oficial, que consta num comunicado publicado no site do governo. "A Tunísia é a trigésima colocada do ranking da Fifa, e nos ocupamos apenas o 118º lugar. É Davi contra Golías, eles deveriam ter vencido por 4 a 0".

Sobre o favoritismo de Gana, equipe que enfrentará nas semifinais, Becker afirmou: "o presidente me disse na segunda-feira: 'palmas para os heróis, não estou pedindo mais nada. Mas se vocês quiserem ganhar o próximo jogo, tudo bem!".

"Quando chegamos às quartas de final, eles (o governo) ficaram felizes, agora, nas semifinais, estão muito felizes. A classificação para a final seria algo incrível. É David contra Golías", insistiu.

"Os poderosos ainda não conseguiram nos derrotar. Vamos ver onde termina este sonho", completou.

Quando Maradona, teve ajuda da "mão de Deus" contra a Inglaterra nas quartas de final Copa do Mundo de 1986, Becker contou com uma 'mãozinha' do árbitro na mesma altura da competição, na Copa Africana.

Para evitar que a carruagem do "conto de Cinderela" vire uma abóbora indigesta, todo o continente torce para que o próximo jogo não seja manchado por outra polêmica.




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